Líder francês diz que usa os métodos do MST

Depois de conhecer neste domingo o assentamento Capela, em Nova Santa Rita, a 24 quilômetros de Porto Alegre (RS), e questionar seus organizadores sobre o funcionamento do núcleo, o líder camponês francês José Bové declarou que não há nenhuma diferença entre seus métodos e os do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil."Para nós, não há nenhuma diferença entre o método de ação de ocupação de terras que é feito aqui e o que fazemos no nosso país", opiniou Bové, após visitar uma experiência de cultivo de arroz com piscicultura no assentamento. "A luta é a mesma, os métodos são os mesmos, é a legitimidade contra a violência institucional", resumiu. Acompanhado de um grupo de dez integrantes da coordenação da Confederação Camponesa, organização que lidera na França, Bové ouviu uma apresentação preparada pelos assentados para explicar sua experiência e fez diversas perguntas. Ele demonstrou interesse especial pela propriedade das terras do assentamento, quis saber se é possível negociar os terrenos do núcleo e como é formado o preço de venda dos produtos dos agricultores. O coordenador da Cooperativa de Produtos Agropecuários Nova Santa Rita (Coopan), Émerson Giacomelli, explicou que o assentamento ainda aguarda a "emancipação" do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e, até lá, a propriedade das terras é dele. Depois disso, elas ficarão interditadas por dez anos, acrescentou o secretário estadual da Agricultura, José Hermeto Hoffmann, que acompanhou a visita junto com os deputados estadual Dionilso Marcon (PT) e federal Adão Pretto (PT-RS). A permanência de Bové no assentamento foi descontraída e cheia de brincadeiras. Quando os deputados presentes foram nomeados pelos coordenadores da visita, Bové disse, em tom irônico, que eles já deveriam ter sido destituídos por participar de "atividades ilegais" - como a destruição de lavouras transgênicas. A produção de aves do assentamento, que é entregue à companhia francesa Doux Frangosul, motivou outro comentário do camponês. "A Doux veio para o Brasil para contornar as leis da OMC (Organização Mundial do Comércio)", afirmou, acrescentando que, desta forma, pode vender ao Oriente como um produto brasileiro e pagar menos impostos. Questionado pelos jornalistas sobre como se sentia sendo considerado no Brasil um símbolo dos movimentos camponeses, o líder francês afirmou que estava "como um peixe num rio".Novamente em tom irônico, Bové disse que espera "com grande prazer" ser processado pela multinacional Monsanto pelo fato de ter participado da destruição de dois hectares de uma lavoura da companhia no dia 26 em Não-Me-Toque (RS). Desta forma, lhe seria dada a oportunidade de retornar ao Brasil e prosseguir em sua luta contra os transgênicos. Bové defendeu a "expropriação" do terreno da Monsanto para sua transformação em um local de produção experimental orgânica e disse que o MST e a Via Campesina têm um acordo para reivindicar esta ação. No assentamento de 1.800 pessoas visitado por Bové e seus colegas, há 10 hectares de arroz cultivados de forma ecológica que vão produzir em abril a primeira safra orgânica.Outros 170 hectares são plantados com arroz de forma tradicional mas os agricultores estão fazendo a transição para a lavoura orgânica, que leva cerca de três anos até ser considerada livre dos resíduos químicos. No local, todas as hortaliças são cultivadas sem o uso de fertilizantes químicos ou agrotóxicos, informou o responsável técnico pelo assentamento, Julcemir Marcon. As hortaliças são vendidas em feiras ecológicas de Porto Alegre. Há também criação de suínos, comercializados com os supermercados, e de bovinos de leite. O assentamento foi formado em 1994, e as 100 famílias do núcleo esperaram acampadas por cinco anos antes de receber as terras.O secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul, José Hermeto Hoffmann, foi convidado por Bové para ir a França no dia 8 de fevereiro, quando ocorre uma etapa de julgamento em que Bové foi acusado, com 50 militantes indianos da Confederação Camponesa, de destruir um experimento de arroz transgênico do Cirad, centro de pesquisas francês, há dois anos.Nos dias 16 e 17, ocorrerá outro julgamento em que Bové é reú, já em fase de recurso, quando o líder francês reunirá depoimentos de diversos cantos do mundo em sua defesa por causa do processo pela destruição do McDonald´s.Bové informou que, do Brasil, contará com o testemunho do deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Bové descartou sua participação na política francesa. "Sou sindicalista e não tenho nenhuma pretensão de disputar as eleições", resumiu.

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