André Dusek|Estadão
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Líder do PMDB no Senado diz que proposta de Dilma por plebiscito 'passou da hora'

Segundo Eunício Oliveira, PMDB tentou propor essa solução à presidente antes; ele considerou como 'golpe' defender a tese

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2016 | 12h42

BRASÍLIA - Para o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), é tarde demais para a presidente Dilma Rousseff propor uma consulta popular sobre novas eleições. O peemedebista avaliou nesta sexta-feira, 10, que Dilma deveria ter sugerido a ideia antes do processo de impeachment ser instaurado. Ao Broadcast Político, serviço de informações da Agência Estado, ele contou que há alguns meses o partido cogitou buscar um acordo com a então presidente nesse sentido, mas acredita que com o processo de afastamento praticamente concluído uma nova votação iria prejudicar o País.

"Passou da hora. Quando a presidente perdeu as condições para governar, nós chegamos a falar sobre isso na busca por uma saída, mas ela nunca propôs essa discussão. Agora teve o impeachment e o processo já está praticamente concluído. Esse movimento não tem justificativa, só vai gerar ainda mais instabilidade para o País, porque seria outro trauma, outra incerteza. Concordo que a eleição legitima o processo, mas você de repente fazer a mudança nesse momento, aí sim a palavra que tanto empregam seria aplicada: seria um golpe", declarou.

Eunício também considera que a consulta popular não seria viável, já que apenas o Congresso Nacional tem o poder de convocar um plebiscito, e, para ele, Dilma não teria apoio suficiente. "Não há clima para isso, isso é o discurso de quem já perdeu e está buscando uma saída tardia", afirmou. A proposta precisaria ser apresentada por no mínimo um terço dos senadores ou deputados e aprovada pelas duas Casas por maioria simples (metade mais um dos deputados e senadores presentes no dia da votação).

Apesar de alguns senadores indecisos terem sinalizado que mudariam de voto no processo de impeachment caso Dilma apoiasse a realização de um plebiscito em outubro, Eunício disse "não ver nenhuma preocupação nesse sentido". Ele também negou que os pedidos de prisão da cúpula do PMDB possam influenciar votos. "Cada um já tem a sua consciência. A consciência do senador é estadual, municipal, regional, representa a federação. Então não há como a presidente Dilma voltar, eu gosto muito dela, mas ela perdeu as condições."

Os aliados de Dilma também estariam conversando com os movimentos sociais, para que endossassem a ideia, porém o líder do PMDB minimizou o apoio. "Os movimentos sociais eram pago por eles. Isso acabou no Brasil, porque a gente não aguenta mais pagar isso. Cadê a greve geral que iam fazer? Está todo mundo preocupado com a taxa de desemprego." Segundo petistas, o movimento de maior resistência seria a Central Única de Trabalhadores (CUT), que já estaria cogitando mudar de ideia caso Dilma fosse absolvida no Senado.

Nesta quinta-feira, 9, em entrevista veiculada pela TV Brasil, a presidente afastada Dilma Rousseff admitiu pela primeira vez uma consulta popular caso ela reassuma a presidência da República. "Que se recorra à população para ela dizer... pode ser um plebiscito, eu não vou dar o menu total, mas essa é uma coisa que está sendo muito discutida", declarou a petista. Nos últimos dois dias, Dilma se reuniu com senadores que defendem a realização do plebiscito no Palácio do Alvorada para discutir o assunto. 

Câmara. O deputado Baleia Rossi (SP),  líder do PMDB na Câmara, também criticou a presidente afastada Dilma. afirmou. Para ele, a ideia é um "factoide criado pelo PT para tumultuar" o processo de impeachment e prejudicar o governo do presidente em exercício Michel Temer. "Como ela diz isso? Ela não é mais presidente, não tem mais condições de fazer uma proposta como essa", comentou.

Rossi considera que a realização de novas eleições seria um ato ilegal, o que inviabilizaria a votação do plebiscito. "Nós temos que respeitar a Constituição, que determina que no caso de impedimento quem assume é o vice-presidente. Todas essas ideias são para o debate político, mas na realidade carecem de legalidade. Não podemos concordar com ideias que são mais de palanque do que algo que seja legal", disse.

Assim como Eunício, Rossi não acredita que a proposta de Dilma poderá mudar o entendimento dos parlamentares em relação ao impeachment. Ele ressaltou que Temer demonstrou nas últimas votações no plenário que possui apoio sólido da maioria dos deputados. "Temer tem implantado medidas para recuperar economia e a credibilidade, e essas ideias tentam apenas prejudicar esse quadro."

Para Rossi, os pedidos de prisão da cúpula do PMDB no início da semana também não vão influenciar os votos, pois são "questões da Justiça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que não têm interferência no parlamento".  

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