Líder do movimento 'Fora Arruda' promete protesto nos 50 anos de Brasília

Conhecido como 'Pilha', Rodrigo Grassi foi um dos protagonistas da ocupação da Câmara Legislativa durante o escândalo do 'mensalão do DEM'

Carol Pires, do estadão.com.br

21 de abril de 2010 | 00h01

Rodrigo Grassi, o 'Pilha', sonha em ser político nos próximos 50 anos

 

Rodrigo atende a ligação no celular e avisa que está chegando. Cinco minutos depois, usando tênis, camiseta azul e óculos de sol pendurado na gola (apesar de já ser noite), passa correndo e grita: "já volto". Instantes depois, ele anuncia, antes mesmo de ser visto: "espera aí mais um pouquinho".

 

No trajeto de volta, vem abraçado a um senhor, com quem conversa. O relógio marca que 15 minutos correram deste o telefonema, quando ele, enfim, pode conversar. Como você prefere ser chamado? "Pilha", responde o rapaz, sem ter que explicar, depois do corre-corre, como ganhou o apelido.

 

Rodrigo Grassi, o Pilha, é estudante da Universidade de Brasília, UnB. Só não sabe dizer o que estuda. Fez educação física, pulou para Ciências Sociais, trocou por Pedagogia e agora trancou o curso. "Quero estudar Ciências Políticas", informa com sorriso de menino, altura de menino ("Tenho 1,69. Sou baixinho mesmo"), e idade de gente grande, 32 anos. Os cabelos encaracolados, compridos, presos num rabo de cavalo, e os seis brincos que adornam as orelhas completam o figurino dele que é um dos líderes do movimento "Fora Arruda e Toda Máfia".

 

Pilha é, como ele diz, "gaúcho de Brasília". "Eu falo 'véi', chamo meus amigos de calango doido do cerrado, curto Natiruts, amo a UnB, tomo cerveja no bar Beirut, e só vejo o mar em fevereiro. Não tem como dizer que não sou brasiliense". Outra meia dúzia de estudantes forma, ao lado de Pilha, o grupo diretor do movimento contra a corrupção na capital da República. Moram na cidade desde pequenos, mas nasceram no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais - são caras-pintadas importados por Brasília.

 

Rodrigo lista uma infinidade de nomes e siglas para explicar que o grupo surgiu de um movimento maior, o "Fora Arruda", formado por centrais sindicais, lideranças jovens partidárias e estudantes. Os protestos começaram tão logo estourou o escândalo do "mensalão do DEM", do qual o então governador José Roberto Arruda seria o mentor. Na frente da Câmara Legislativa, nos primeiros dias de dezembro, decidiram, de impulso, invadir o prédio.

 

Foram retirados pela polícia seis dias depois. De lá, saíram com a promessa dos deputados distritais de que haveria CPI e com um adendo ao nome do movimento, que, agora, circunscrito aos estudantes, virou "Fora Arruda e Toda a Máfia". Desde então, protestaram na rua, apanharam da polícia, e, com isto, ganharam o noticiário.

 

Estrume in natura

 

Voltaram à Câmara diversas vezes, ora com carro de som, ora com óleo de peroba e meia tonelada de estrume in natura para derramar na calçada do prédio. No último mês, soltaram fogos em frente à Polícia Federal quando Arruda foi preso preventivamente, e foram expulsos do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) quando a corte cassou o mandato dele.

 

Mas Arruda não está sozinho na lista de inimigos públicos do grupo que ascende como liderança estudantil da cidade. Figuram ao lado do ex-governador como alvos de protesto dos estudantes o ex-reitor da UnB Timothy Mulholland, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, e o senador José Sarney (PMDB-AP).

 

Mulholland foi denunciado à Justiça por desvios de quase meio milhão de reais do Fundo de Apoio Institucional da UnB, para decoração de um apartamento funcional onde ele morava. No 11º. de ocupação da reitoria pelos estudantes, ele renunciou. Gilmar Mendes foi alvo do movimento "Saia às Ruas" - surgido entre organizações de esquerda inconformadas com o habeas corpus concedido pelo ministro ao banqueiro Daniel Dantas. Os estudantes estavam lá.

 

Em 2009, a mira esteve apontada contra José Sarney. Dez estudantes, Rodrigo Pilha entre eles, entraram no Senado, e, ao alcançar o salão azul, tiraram as camisetas que vestiam, deixando aparecer, por baixo, uma segunda blusa - cada um com uma letra diferente imprensa. Abraçados, formaram: F-O-R-A A-R-N-E-Y.

 

O "S" foi pego pelos seguranças, e não participou do protesto. "Dentro do que eles chamam casa do povo o povo não pode se manifestar. Aquilo nos deixou irados, e decidimos voltar lá outras vezes". As outras vezes foram duas. Na primeira, foram barrados na portaria com as onze pizzas que simbolizam as ações arquivadas contra Sarney no Conselho de Ética. Na última, levantaram faixas na porta do plenário contra o senador, mas acabaram arrastados, entre socos e pontapés, pela Polícia Legislativa.

 

Festa para protestar

 

Nesta quarta, 21, no aniversário de 50 anos de Brasília, Rodrigo vai à festa oficial do governo, na Esplanada dos ministérios, apenas para protestar. Levará consigo Tony Panetone e Bezerra Dourada - personagens fictícios que foram registrados na eleição indireta que elegeu o governador-tampão do DF no último sábado. "Na comemoração do GDF vai ter desfile da Disney, ao invés de ter folclore brasileiro. Vai ter o Pateta desfilando. Deve ser para simbolizar nosso último governador", ironiza.

 

Dentro dos próximos 50 anos, Rodrigo sonha em ser político. "Seria hipocrisia dizer que não." Para isto, se filiou ao PT. "Ainda acho que política é o melhor meio de se fazer o bem." Vez por outra, quando o Fusca branco enguiça ou a esposa reclama porque ele está usando muito do tempo que podia passar com o filho, de 1 ano e 7 meses, para mexer com movimento estudantil, ele recua e pensa em fazer concurso público. Enquanto não decide o que quer, sai às ruas. "Faço quizumba até no mercado."

 

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