Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Líder do governo abre confronto com CPI da Covid

Ricardo Barros acusa comissão de afastar empresas de vacinas do País; deputado vai depor novamente, desta vez como convocado

Daniel Weterman, Julia Affonso, e Matheus de Souza, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 22h19

BRASÍLIA - Em um depoimento tumultuado, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), acusou nesta quinta-feira, 12, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de afastar empresas que desejavam vender vacinas para o Brasil. A declaração causou forte reação dos senadores, que suspenderam a reunião por duas horas. Na volta, a cúpula da CPI decidiu encerrar a audiência e transformar Barros em convocado, e não mais convidado.

A mudança é um elemento importante para o novo depoimento. Como convocado, o deputado é obrigado a falar a verdade e pode sofrer sanções se mentir, como prisão em flagrante. A CPI informou que vai consultar o Supremo Tribunal Federal (STF) para entender quais medidas poderá tomar caso Barros, que tem imunidade parlamentar, insista em dizer o que senadores classificaram como “mentiras”.

A sessão desta quinta-feira virou um bate-boca quando Barros disse que a CPI estava afastando empresas interessadas em vender vacinas para o Brasil. “Eu quero lembrar aos senhores senadores que o mundo inteiro quer comprar vacinas. E eu espero que esta CPI traga bons resultados para o Brasil, produza um efeito positivo para o Brasil, porque o negativo já produziu muito: afastou muitas empresas interessadas em vender vacina no Brasil”, disse o deputado. “Em vez de vir se explicar, veio aqui para tentar desconstruir. Não vai desconstruir o trabalho da CPI”, reagiu o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM).

Barros, que foi ministro da Saúde entre 2016 e 2018, no governo de Michel Temer, partiu para o ataque e disse que não permitiria que a comissão construísse uma narrativa mentirosa para “enganar o Brasil”. 

O deputado foi chamado à CPI após ter o nome citado pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) em depoimento no fim de junho. Miranda relatou ter informado ao presidente Jair Bolsonaro, em 20 de março, sobre um esquema de corrupção envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin. Na conversa, Bolsonaro teria atribuído o “rolo” ao líder do governo na Câmara. À CPI, Barros disse não ter participado de negociação para a compra de imunizante.

O depoimento durou cerca de três horas e foi interrompido antes que o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), encerrasse suas perguntas. Durante esse período, o líder do governo foi questionado sobre a negociação das vacinas Covaxin e CanSino, sobre a emenda apresentada por ele que tornou viável a compra do imunizante indiano e a relação com o empresário Francisco Maximiano. Barros negou ter apresentado a emenda para favorecer a Covaxin e disse não ter “relação pessoal” com Maximiano, empresário que intermediou o contrato do Ministério da Saúde para a compra da Covaxin. Ele afirmou ter encontrado o empresário apenas uma vez quando era ministro da Saúde.

“Não fiz emenda para a Covaxin. Eu não aceito o que o senhor está afirmando. É mentira”, declarou Barros ao vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). O líder do governo também disse não ter participado de nenhuma reunião com a empresa Belcher Farmacêutica para tratar do imunizante. A Belcher é ex-representante da CanSino. Afirmou, porém, que pode ter “buscado auxiliar” a empresa e “todos” os que o procuraram. O deputado confirmou que é amigo de um dos sócios da Belcher, Daniel Moleirinho Feio Ribeiro, e de seu pai, Francisco Feio Ribeiro Filho.

A Belcher, que tem sede em Maringá (PR), reduto eleitoral de Barros, e o Instituto Vital Brazil foram descredenciados pela CanSino para atuar como representantes do laboratório em junho. Com o fim da parceria, a Anvisa encerrou o pedido de uso emergencial da vacina.

Aos senadores o líder do governo também disse “lamentar” o fato de o Brasil não ter comprado vacinas com contratos na mira da CPI: Covaxin, Sputnik V e CanSino. “A CanSino descredenciou o representante no Brasil e não colocou outro lugar”, disse Barros. “Mostra que não tem mais interesse em vender pro Brasil”.

O ataque à CPI provocou críticas imediatas dos parlamentares. “Isso não é verdade”, disse a senadora Simone Tebet (MDB-MS). “Aí não dá”, afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE). Aziz decidiu, então, suspender a reunião e avisou ao líder do governo que ele voltaria à comissão como convocado. “A CPI precisa respeitar as regras, eu tenho imunidade parlamentar”, disse Barros. 

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