Líder arrozeiro resiste por 7 horas, mas deixa reserva

Cercado por 30 homens da PF, Força de Segurança e Funai, Quartiero exigiu ordem por escrito da Justiça

Roldão Arruda, NORMANDIA, O Estadao de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 00h00

A Polícia Federal iniciou ontem a retirada forçada dos moradores não-índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. O principal incidente ocorreu na Fazenda Providência, no município de Normandia. O produtor de arroz e líder dos fazendeiros Paulo César Quartiero se recusou a acatar a determinação verbal do delegado, feita às 10h30, para que deixasse as terras. Exigiu ordem escrita da Justiça, mesmo após o representante federal enfatizar que não era necessária, uma vez que se encontrava em área indígena, conforme decreto presidencial assinado em 2005 e confirmado em março pelo Supremo Tribunal Federal (STF)."Não aceito ser botado pra correr no grito, como um cachorro", insistiu o arrozeiro. Sozinho e cercado por trinta homens da PF e da Força de Segurança Nacional, além de agentes da Fundação Nacional Índio (Funai), o fazendeiro manteve o impasse durante sete horas. Só aceitou sair depois que o desembargador Jirair Megarian, encarregado pelo Supremo de coordenar a retirada dos não-índios, foi à fazenda, às 17h30, a bordo de um helicóptero da Força Aérea.Megarian também tentou convencer o fazendeiro a sair. Mas, diante da insistência por uma ordem escrita e preocupado em evitar qualquer tipo de confronto, o desembargador redigiu ali mesmo, à mão, sobre os joelhos, um "mandado de desocupação", para ser cumprido "de imediato". Foi só então que o fazendeiro saiu.POLÊMICAOntem o desembargador também se encontrou com mais dois produtores rurais que se recusavam a deixar o território da Raposa Serra do Sol. Um deles foi Adolfo Esbell, que nasceu e vive há 82 anos em um sitio nos arredores de Normandia. Na conversa de ontem, ele disse a Megarian que sua mãe é indígena e, por isso, tem o direito de permanecer na área. O desembargador concedeu-lhe mais 15 dias para conseguir a documentação que comprova sua ascendência. Se o fizer, poderá continuar na área.O outro produtor, também octogenário, é o americano Lawrence Hart, que chegou moço a Normandia e nunca mais saiu dali. Ele alegou dificuldades para remover o gado, além de contestar o valor da indenização oferecido pelas benfeitorias da Fazenda Manga. O desembargador ofereceu o apoio de caminhões da Funai para ele se retirar, no prazo de 15 dias.No município vizinho de Pacaraima, o rizicultor Tiaruju Faccio passou a noite ao lado de seus empregados, trabalhando na colheita da última parte da safra de arroz. Quando os policiais federais chegaram pela manhã, ele pediu e conseguiu mais algumas horas para colher e levar embora a produção. Deixou a propriedade com as máquinas, o arroz e os funcionários por volta das 16 horas.PRAZODe acordo com o superintendente da Polícia Federal em Roraima, José Maria Fonseca, a operação de retirada foi prevista para durar trinta dias. Mas poderá acabar antes, no prazo de duas semanas. FRASEPaulo César QuartieroProdutor de arroz e líder dos fazendeiros "Não aceito ser botado pra correr no grito, como um cachorro"

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