CARLA ELEONORA RIBEIRO/DIVULGAÇÃO
Empresário Flávio Rocha, pré-candidato à Presidencia da República pelo PRB, participa de culto evangélico. CARLA ELEONORA RIBEIRO/DIVULGAÇÃO

'Liberais' fazem investida por eleitorado evangélico

Em busca do segmento que reúne 27% dos votos do País, pré-candidatos ao Palácio do Planalto participam de cultos em igrejas e pedem apoio de líderes religiosos

Ricardo Galhardo, Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2018 | 04h27

Em um cenário marcado pela pulverização de pré-candidaturas de centro, os presidenciáveis que se intitulam liberais se aproximam dos eleitores evangélicos para tentar alavancar suas pré-campanhas. Só neste ano, a agenda do ex-ministro Henrique Meirelles, pré-candidato do MDB, registra quatro compromissos públicos com líderes de igrejas. O mais recente deles, no começo deste mês em São Paulo, foi durante convenção da Assembleia de Deus. Outro postulante ao Planalto, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, espera ter apoio de deputados evangélicos de seu partido, o DEM.

“Eles (os fiéis evangélicos) têm demonstrado aceitação bastante grande em torno das políticas de austeridade fiscal, de equilíbrio das contas públicas”, disse Meirelles ao Estado, citando o que deve ser a principal tônica do seu discurso eleitoral.

Segundo o Ibope, os evangélicos representam 27% do eleitorado brasileiro, ou cerca de 39,5 milhões de pessoas.

Pode parecer pouco se comparado aos 80 milhões que se declaram católicos (outros 24,5 milhões de eleitores são adeptos de outras religiões ou ateus), mas a cientista social Maria das Dores Machado, coordenadora do Núcleo de Religião, Gênero, Ação Social e Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que o apoio de líderes religiosos pode ser fundamental no momento de decisão do voto.

De acordo com ela, quando um político é apresentado na igreja, ele pode ser visto de maneira mais positiva pelos fiéis. “Muitas pessoas vão conhecer o candidato naquele espaço, que não é como na TV, no comício ou na rua. Cria uma empatia maior a partir dessa apresentação”, afirmou a cientista social. “Essa oportunidade que ele consegue através do pastor, de se apresentar como alguém idôneo, que vai resolver os problemas, é muito importante.”

É nisso que os pré-candidatos “liberais” apostam, todos eles estacionados em 1% das intenções de voto em pesquisa divulgada neste mês pelo Datafolha – número que os mantêm longe do Planalto.

O empresário Flávio Rocha, presidenciável pelo PRB, é o que mais tem identificação com o meio evangélico. Fiel da Sara Nossa Terra, ele tem o bispo Robson Rodovalho, presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, e o pastor Marcos Pereira, presidente do PRB e um dos principais líderes da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), na coordenação de sua pré-campanha. 

“O evangélico é mais de um terço da população e não pode ser misturado com a vala comum do eleitorado. Ele é mais cioso dessa inversão de valores”, disse Rocha, para quem existe um movimento “gramsciano” (referência ao filósofo marxista italiano Antonio Gramsci, morto em 1937) criado para, segundo ele, erodir os valores da sociedade.

Rodrigo Maia escolheu outro caminho. Ele tem procurado contato com o segmento por meio de deputados evangélicos do DEM, principalmente do Rio e de São Paulo. Em 2016, enfrentou resistência de setores da bancada religiosa em sua campanha pela presidência da Câmara por ter feito o requerimento de urgência na votação do projeto de lei que criminaliza a homofobia, mas acabou recebendo o apoio de líderes influentes como R. R. Soares, Valdomiro Santiago e Silas Malafaia. Já em 2017 permitiu a criação de uma comissão especial na Câmara que quer proibir o aborto em casos de estupro. 

O contraponto é o empresário João Amoêdo, pré-candidato do Novo, que também reza pela cartilha liberal. Ele tem apenas 1% nas pesquisas, mas evita atrelar sua pré-campanha ao voto religioso. Ele disse preferir fazer eventos abertos ou com outros presidenciáveis, sem privilegiar um determinado setor. “Prefiro conversar sem públicos específicos. Quando você se compromete a dar privilégio a algum setor, alguém vai ter que pagar essa conta e normalmente quem paga é o cidadão.”

Bancada. Pesquisador da Unicamp, o antropólogo Ronaldo de Almeida mapeou os deputados evangélicos eleitos em 2014. Segundo ele, havia 72 adeptos da religião, o que representa 14% dos 513 deputados. O levantamento, realizado em 2015, indica que 25 pertencem à Assembleia de Deus, 11 à Igreja Universal do Reino de Deus, sete à Igreja Batista, cinco à Presbiteriana, quatro ao Evangelho Quadrangular e outros quatro à Igreja Mundial do Reino de Deus. Os 16 restantes estavam espalhados em outras denominações evangélicas. Segundo ele, o processo deve continuar ocorrendo. “A relação entre igrejas e partidos está cada vez mais profissionalizada. Tudo indica que teremos um cenário de manutenção ou até aumento nas eleições de 2018”, afirma.

De acordo com a cientista social da UFRJ, a proporção de evangélicos na população tem crescido ao longo dos anos na América Latina. Segundo o IBGE, o número avançou de 8% da população brasileira em 1991 para 22% em 2010. Segundo Maria das Dores, o fenômeno não é só brasileiro e o papel desse público nas eleições será cada vez mais decisivo, como ocorreu na Costa Rica em abril, quando um pastor evangélico chegou ao segundo turno das eleições presidenciais e quase venceu.

Mais conteúdo sobre:
eleições 2018religião

Encontrou algum erro? Entre em contato

Pré-campanha de Bolsonaro se volta a eleitorado evangélico

Pré-candidato do PSL intensifica agenda em eventos religiosos ao mesmo tempo em que defende que todo cidadão deve andar armado

Felipe Frazão, Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2018 | 04h28

Movimentos recentes do deputado Jair Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PSL à Presidência da República, mostram que ele tem intensificado sua aproximação com o eleitorado evangélico.

Na quinta-feira passada, Bolsonaro participou de dois encontros com evangélicos em Brasília e hoje tem presença confirmada no encerramento do 36.º Congresso Internacional de Missões dos Gideões da Última Hora, em Camboriú, em Santa Catarina.

O convite foi feito em seu gabinete, na Câmara, durante visita de pastores missionários do grupo, formado por diferentes denominações pentecostais. O deputado deve participar do encerramento ao lado da mulher, Michelle, fiel da Igreja Batista Atitude, no Rio, que o estimula a participar dos cultos. O deputado quer prestigiar o segmento, com o qual diz manter interlocução. “Gozo da simpatia deles”, disse ele ao Estado, na quinta-feira passada. 

Bolsonaro é católico de formação. Na Câmara, adota discurso conservador e é defensor de bandeiras simpáticas aos evangélicos como a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a legalização do aborto e a descriminalização de drogas. O deputado também se diz a favor “da família e dos costumes” ao mesmo tempo em que afirma que todo cidadão deveria andar armado. 

Batismo. Um marco da guinada de Bolsonaro ocorreu em maio de 2016. Enquanto o Senado votava o afastamento da então presidente Dilma Rousseff, o deputado viajou a Israel com os filhos parlamentares e passou por batismo no Rio Jordão. A cerimônia foi conduzida pelo pastor Everaldo, do PSC, então partido de Bolsonaro. Candidato a presidente em 2014, Everaldo controla a Assembleia de Deus Ministério Madureira, no Rio.

Depois da cerimônia em Israel, o deputado passou a se apresentar como “cristão” e destacar valores “judaico-cristãos”. Também adotou um bordão, com o qual costuma encerrar seus discursos e vídeos distribuídos em redes sociais – onde tem 5,385 milhões de seguidores: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Ele também ampliou o trânsito com autoridades israelenses, que aumentaram a interlocução com os evangélicos, e tem se posicionado favoravelmente a Israel em questões de política internacional.

Bolsonaro recebe apoio de nomes influentes como o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e o pastor e senador Magno Malta (PR-ES), um dos líderes da frente religiosa no Congresso. Malafaia celebrou seu casamento com a atual mulher. Malta foi cortejado pelo pré-candidato para ser vice em sua chapa. 

Em visita a Roraima, no início do mês, Bolsonaro lançou como pré-candidato ao Senado por seu partido o pastor da Assembleia de Deus Isamar Ramalho. No discurso para uma plateia de fiéis, o pastor comparou Bolsonaro a personagens bíblicos e afirmou, apontando para o deputado, que “Deus tem uma pessoa certa para cada templo, e este é o homem para este”. Já Bolsonaro afirmou que “Deus não dá nenhuma cruz que não possa carregar”.

Na quinta-feira, Bolsonaro conversou reservadamente com o pastor Cláudio Duarte. Influente nas redes sociais, ele indicou apoio a Bolsonaro. “No que você precisar eu tenho aí um movimento na minha rede social”, disse. Antes do bate-papo, o deputado assistiu da primeira fila à palestra do pastor a um auditório lotado de mulheres na região central de Brasília. 

Sua passagem foi discreta e ele se mostrou tímido diante do pastor – postura que o pré-candidato ao Planalto pretende manter nos encontros religiosos, bem diferente da que adota em discursos e nas redes sociais. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Estatismo não levou a lugar nenhum. O modelo fracassou', diz bispo Rodovalho

Bispo diz que orientação de confederação é apoiar candidatos com visão de política econômica liberal

Entrevista com

Robson Rodovalho, bispo e fundador da Sara Nossa terra

Ricardo Galhardo e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2018 | 04h26

Presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil (Concepab), entidade que congrega as principais igrejas neopentecostais do País, e fundador da Sara Nossa Terra, comunidade evangélica com 1,2 milhão de fiéis, o bispo Robson Rodovalho afirma que a orientação da entidade é apoiar candidatos comprometidos com políticas econômicas liberais como o rigor fiscal e o estado mínimo. Segundo ele, no entanto, para os evangélicos as pautas morais religiosas como a questão de gênero, aborto e combate às drogas têm, no mínimo, o mesmo peso que as grandes questões nacionais como economia, saúde, educação e segurança. “Não adianta oferecer o paraíso econômico e o inferno do ponto de vista social”, disse ele.

O sr. foi procurado por pré-candidatos a presidente em busca de apoio eleitoral? Quais?

Fui procurado por alguns, não por todos, sempre perguntando sobre o que esperamos de um presidente, quais as possibilidades de um eventual apoio. Queremos debater, somos cidadãos, não somos cristãos alienados nem fora da realidade.

A confederação tem alguma orientação para estas eleições? 

Tem sim. Uma delas é procurar candidatos afinados com nossas bandeiras e valores não apenas do ponto de vista do desenvolvimento econômico. É claro que o estatismo não levou a lugar nenhum. Alguns Estados não têm dinheiro para pagar a folha de pagamento, rodar seu caixa. O modelo de gestão atual fracassou e a primeira providência, ao nosso ver, seria trazer candidatos comprometidos com o liberalismo econômico e a livre iniciativa. 

Como é a negociação com os presidenciáveis para serem apoiados pela igreja? 

Quem apoia não é a igreja. A igreja é uma instituição democrática que tem famílias que apoiam candidatos diversos. É natural ter pessoas que apoiem candidatos mais alinhados à esquerda ou à direita.

Que pautas devem ser defendidas pelos candidatos para conseguirem seu apoio? 

O Brasil tem que ter capacidade de inverter esse discurso de dependência social para o de expectativa de produtividade e crescimento individual. Hoje a expectativa do brasileiro é depender de um Bolsa Família que, em essência, não é de todo ruim. Mas é incompleto. Procuramos candidatos que tenham essa visão e ao mesmo tempo se alinhem às nossa bandeiras e valores como família, vida e proteção aos princípios que estão na Bíblia. 

Quais propostas o sr. repele?

Não cabem para nós propostas como as que temos vivido, que invertem a ordem social, criam um clima de conflito muito grande na sociedade. Hoje vivemos uma sociedade muito conflituosa, um País dividido e isso é resultado de militâncias que acirram a sociedade em visões radicais e também antinaturais. Então, não cabe trazer para a gente qualquer proposta que mude o conceito de família natural, homem e mulher, qualquer militância de gênero, doutrinar as crianças. Alguns desses aspectos para nós estão muito amadurecidos do ponto de vista filosófico. 

Qual o peso de pautas como a questão de gênero, aborto, drogas no voto dos eleitores evangélicos? É maior do que temas como economia, segurança, educação, saúde?

Essas pautas de gênero, combate às drogas e aborto têm um voto muito pesado, tem muita importância para os evangélicos na hora de votar. Não sei se é maior do que a questão econômica. Mas pelo menos é igual. Não adianta oferecer o paraíso econômico e o inferno do ponto de vista social. 

O sr. vai integrar a coordenação da campanha de Flávio Rocha?

Sim. Eu estou dentro da campanha do Flávio Rocha porque ele é membro da nossa igreja e alinha muito com nossas proposituras. Nossa expectativa é que o Flávio tenha oportunidade de apresentar sua identidade e submeter isso á sociedade brasileira. Depois iremos ver para onde vamos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.