Lembrando da Ruth

Não sei bem o dia em que a conheci, mas sei como fui ficando sua fã e admiradora

Yvonne Maggie ,

24 Julho 2008 | 01h01

Guardo as mensagens dos amigos com muito cuidado. Com saudades e querendo dar o meu último adeus, porque estava em Manaus e não pude ir pessoalmente à despedida, fui atrás daqueles emails de Ruth no meu computador. Foram nos últimos meses quatro ou cinco mensagens trocadas. Numa delas ela me dizia que estava organizando a vida para ter mais tempo para os amigos. Como Ruth gostava dos amigos e como sabia tratá-los com generosidade e carinho.   Não sei bem o dia em que a conheci, mas sei como fui ficando sua fã e admiradora. Fui sua aluna quando nos anos 1980 ela esteve no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional como professora visitante e deu um curso sobre movimentos sociais. Aprendi muito naquele curso e, sobretudo, me impressionou a sua forma tão imprevisível de tratar de um tema canônico como aquele. Já naquela época Ruth estava pensando nas redes sociais que mais tarde ajudou a estimular na Comunidade Solidária.    Em 1995, organizando um concurso de titular  no qual era candidato o meu amigo Peter Fry, o departamento de Antropologia Cultural do IFCS da UFRJ escolheu os membros da banca e entre eles estavam a Ruth Cardoso, a Eunice Durham, o Gilberto Velho, a Heloisa Buarque de Holanda e eu como presidente. A escolha havia sido feita antes das eleições e quando o concurso foi realizado Fernando Henrique já era presidente do Brasil. Mas nós nem nos preocupamos com isso quando organizamos o ritual acadêmico. Ruth era a nossa colega e amiga e confirmou a presença. Eu era diretora do IFCS naquela altura. Cheguei cedo para providenciar tudo e fiquei no meu gabinete dando as últimas ordens para que tudo saísse a contento. Nisso, entrou um colega esbaforido dizendo que os estudantes iriam impedir a realização do evento. Chamei todos os professores que estavam na casa e pedi que conversassem com os alunos. Depois de uma boa meia hora angustiante de negociação chegou-se a um consenso. Os alunos iriam manifestar-se "em silêncio". O ritual acadêmico se deu assim numa tensão inesperada para mim. Mas Ruth estava absolutamente tranqüila e parecia não se importar com as frases que estavam escritas nos cartazes que eram levantados pelos alunos no fundo do Salão Nobre. As frases falavam daquela metonímia contra FHC, o neoliberalismo, o imperialismo anglo-americano, e a globalização.   No intervalo saímos do salão nobre escoltados pela segurança da Ruth, toda ela feita de oficiais mulheres. Fomos para a minha sala no quarto andar para um almoço leve. Ruth parecia se divertir e dizia para o Peter rindo a valer: é bom você não ficar perto de mim para eu não ser confundida com o imperialismo anglo-americano. De volta à sala do concurso vimos na platéia muitos alunos e professores que, ao contrário dos manifestantes,  vibravam com a presença de Ruth no nosso instituto e pareciam siderados pela palestra de Peter Fry que, falando naquele tom muito simples, narrava a sua vida na África e no Brasil. Ruth parecia entusiasmada com o candidato que saiu dali aprovado com a nota máxima e ao lado de Hermano Vianna e Regina Case, presentes na cerimônia, fez fotos perto dos cartazes que jaziam espalhados no hall daquela sala imponente e um pouco decadente do nosso instituto. Os manifestantes acabaram vencidos não pelo ritual acadêmico, mas pela força da Ruth que mostrava para cada um deles que a liberdade de pensar era a nossa maior conquista e o que nos unia naquele momento. Ruth falou sobre isso, mas nem precisava ter falado, pois só a sua presença ali tão tranqüila mostrava a todos nós que era possível continuar a ser o que éramos mesmo quando há quem queira nos roubar a honra e a alma.   Esse evento teve uma enorme repercussão na minha vida em muitos sentidos e a amizade pela Ruth, que já era grande, foi ficando ainda mais profunda. Naquele ano ela me convidou para participar da primeira avaliação do nascente Programa Universidade Solidária, uma instituição com a qual tenho trabalhado desde então com confiança e orgulho. Ruth esteve ao meu lado naquela banca de concurso e em muitos outros da minha vida profissional sempre com aquela ironia fina e aquele abraço fraterno.   As quatro últimas mensagens dela foram de apoio ao nosso movimento contra a racialização do país. Ela ajudou a formular a questão sublinhando a importância de não abandonar a idéia de ações afirmativas para os mais pobres. Numa das mensagens dizia que era preciso não deixar flanco aberto porque a tal "sociedade organizada" é, em geral, muito autoritária, e finalizou afirmando a sua crença na vitória do povo "desorganizado". Ruth aderiu à carta dos 113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais entregue ao presidente do STF. Assinou a carta ao lado de muitos líderes do PT e de tantas outras pessoas de diversos partidos e posições e mostrou mais uma vez a sua crença na importância de sermos fiéis às nossas idéias como fez naquela banca de concurso em 1995, ficando acima do narcisismo das pequenas diferenças.   *   Yvonne Maggie é doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Autora de vários livros, entre eles "Guerra de Orixá: um Estudo de Ritual e Conflito" e "Medo do Feitiço: Relações entre Magia e Poder no Brasil".    

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