Leite americano contra fome gera polêmica

A Casa Branca anunciou que fará uma doação de 200 mil toneladas de leite em pó para programas contra a fome em países latino-americanos ainda em 2003. Mas em vez de ser bem recebida, a iniciativa de Washington está gerando polêmica entre alguns países pelo temor de que a invasão do produto norte-americano acabe com a renda dos produtores locais, inclusive a dos brasileiros.Diplomatas de Argentina e Uruguai, países exportadores de leite em pó para a região, acusam os EUA de estarem apenas se desfazendo de seu excedente do produto. "Com os subsídios dados pelo governo a seus produtores, o que acabou ocorrendo foi uma superprodução de leite que não consegue ser consumido no mercado norte-americano", explica um diplomata latino-americano.A solução para os produtores dos Estados Unidos, portanto, está sendo doar o leite, se desfazendo do produto e ainda deslocando tradicionais fornecedores de leite do mercado latino-americano.Com a entrada forçada do produto norte-americano, o setor de leite nos Estados Unidos acaba conquistando novos consumidores e abrindo caminho para que, no futuro, as doações sejam substituídas por exportações.Mas Washington nega que a doação tenha motivos econômicos. Para representantes da Casa Branca, o leite irá apenas para a parcela mais pobre da população, que nem sequer tem dinheiro para comprar leite. A doação, portanto, não afetaria o mercado do produto.Por enquanto, o leite em pó norte-americano não chegou ao Brasil, que precisa importar o produto para atender à demanda interna. Mas funcionários de Brasília alertam que uma eventual doação também teria efeitos negativos para os pequenos produtores brasileiros.Esses agricultores aproveitam o período da entressafra para vender pequenas quantidades de leite. Mas com a eventual entrada da doação, o preço do leite tende a desabar, afetando ainda mais a renda dos produtores."Precisamos avaliar exatamente para onde iria essa doação antes de aceitá-la", afirma um representante da indústria de leite no Brasil, que prefere não se identificar.

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