Leia trechos do discurso de Zilda Arns e Jorge Gerdau

O empresário Jorge Gerdau Johannpeter e a fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, receberam na noite de terça-feira o Prêmio Woodrow Wilson, concedido internacionalmente pelo Woodrow Wilson International Center for Scholars, instituto voltado para o debate de políticas públicas sediado em Washington. A homenagem, prestada em um jantar para 310 pessoas no Hotel Unique, em São Paulo, tem por objetivo distinguir personalidades nas áreas de cidadania corporativa e serviço público.  ZILDA ARNS  Prêmio "É com a mais profunda emoção que recebo o honroso Prêmio "Relevância na Prestação de Serviços Públicos", concedido pelo Wilson Center. Muito obrigada. Na realidade, quando aos 16 anos de idade escolhi a medicina, pensava em ter um campo fértil para diminuir o sofrimento humano, causado pelas doenças e pelas más condições de vida das famílias. Imaginava-me andando de barco no rio Amazonas, curando pessoas com malária, que de tanto tremerem faziam vibrar as camas onde se encontravam, como vira em vídeo passado na biblioteca dos padres franciscanos em Curitiba. Outras vezes, me apaixonava poder um dia trabalhar nas favelas do Rio de Janeiro, curando dos vermes as crianças descalças desnutridas, que brincavam em poças de água, conforme havia visto em outro vídeo. Fascinava-me esse sonho." Voluntariado "Com muito carinho, dedico este prêmio em primeiro lugar aos milhares e milhares de voluntários da Pastoral da Criança, organismo de Ação Social da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da Igreja Católica. A metodologia comunitária da Pastoral da Criança, que tive a graça divina de criar e desenvolver, tem como referência o Evangelho que narra como Jesus fez o milagre da multiplicação dos 2 peixes e 5 pães, que saciaram da fome a 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças, e ainda sobraram 12 cestos de restos. Os líderes comunitários e outros voluntários, se organizam em rede nas pequenas comunidades; são nesse momento 43.000 comunidades de 4.063 municípios, com as quais trabalham 270.000 voluntários, sem contar os outros 17 países, da África, Ásia, América Latina e Caribe. Motivados pela fé e pela co-responsabilidade social, são capacitados e acompanhados em sua missão, de multiplicar o conhecimento e a solidariedade, junto as famílias com gestantes e crianças menores de 6 anos de idade. Acolhem com o mesmo carinho a todos, sem distinção de credo religioso, político, cor, etnias, ou outra qualquer, pois Deus é Amor e não exclui a ninguém. Dedicam, em média, 24 horas ao mês à sua missão de partilhar conhecimentos e fraternidade. Verificam os resultados de seu esforço, através de indicadores. As prioridades se vergam ao clamor da pobreza, miséria, violência e pelas condicionantes sociais da saúde." Esforço Conjunto "A certeza de que educar as famílias para cuidarem bem de seus filhos, e somar esforços com setores governamentais e empresariais, para que as políticas públicas de saúde, educação, saneamento ambiental, segurança alimentar e outras se efetivem com qualidade nas comunidades pobres e bolsões de miséria, significa participar da construção de um mundo mais justo e fraterno a serviço da Vida e da Esperança. É a construção coletiva do mundo que queremos. Após 24 anos, semeando vida e esperança, chegamos a 20% das crianças acompanhadas a cada mês. São 2 milhões de gestantes e crianças menores de 6 anos e 1,5 milhão de famílias. Formar pessoas de bem começa antes de nascer: significa, dar oportunidade a elas, promovendo o seu desenvolvimento integral - físico, mental, social, espiritual e cognitivo." Informação  "As famílias e comunidades necessitam ser bem informadas, motivadas e apoiadas para incorporarem valores como a importância da alimentação saudável para as gestantes e crianças, a grande influência do aleitamento materno no desenvolvimento emocional, físico e intelectual do ser humano, a vigilância nutricional realizada pelos líderes nas comunidades pobres, o soro caseiro, nas diarréias, o controle da vacinação, a alfabetização dos jovens e mães, na própria comunidade, a educação infantil através de brinquedos e brincadeiras , incentivo a leitura infantil , os cantos , as orações individuais e comunitárias, a música, o esporte e artes. Tudo isto reduz a violência doméstica e comunitária." Políticas Públicas "Debater as políticas públicas nas comunidades, e participar do controle social, promovem a cidadania, e motivam governos a melhor administrar os recursos que pertencem ao povo, em favor dos que mais necessitam. Assim a Pastoral avança nas periferias urbanas, favelas, comunidades rurais, assentamentos, invasões, comunidades indígenas, quilombolas, prisões femininas e comunidades ciganas." JORGE GERDAU JOHANNPETER  Prêmio "Este título não é meu. É fruto do apoio de 35 mil pessoas que trabalham nas nossas organizações, colaboradores esses hoje em 13 países com que tenho a alegria de compartilhar esse prêmio. A dedicação e competência profissional dessa equipe é que construiu realmente nossa organização e todo esse advento da nossa sociedade. Muito obrigado a todos os nossos colaboradores. " Valores  "Hoje estamos passando já para a quinta geração. Obviamente temos uma satisfação enorme de como temos conseguido manter essa tradição por valores e pelo respeito ao trabalho e construção do desenvolvimento, que são extremamente importantes para o desenvolvimento do País e para qualquer organização nossa. Quando falo de valores da organização sempre digo que valores que tento preservar na minha administração são exatamente os valores que cada um quer ter com sua família, seus filhos, na sua casa." Crescimento "Quero expressar a profunda convicção que tenho no crescimento do nosso País. Acredito nos princípios da liberdade e da democracia e gosto de ter referências em Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, porque é muito importante repetirmos em atividades nossos valores históricos, dentro do conceito da liberdade. Meu sentimento de crescimento e desenvolvimento do Brasil, tenho trabalhado com muitos colegas aqui presentes, no sentido do desenvolvimento e modernização da estrutura do País. Nossa atuação tem priorizado vários projetos, principalmente na parte de reforma eleitoral e reforma previdenciária. Tenho trabalhado muito na melhoria da gestão pública do nosso País, na mobilização da sociedade pela educação básica de qualidade. Reformas No ponto da reforma eleitoral, precisamos de um sistema de mais transparência. Entendemos que é imprescindível que haja resoluções nesse sentido. Tivemos um avanço inclusive agora com a fidelidade partidária, através das decisões judiciais, mas ainda temos um longo caminho a traçar nesse sentido. Para aproximar mais o eleitor de seu representante, acredito que o voto distrital poderá nos ajudar nesse sentido. Mas falta um trabalho enorme. No campo dos impostos, temos lutado pelo conceito de isonomia tributária. O sistema brasileiro atualmente ainda prejudica a atividade empresarial. O sistema é bastante injusto, além disso. Temos uma tarefa enorme no sentido de tentar criar padrões tributários que sejam competitivos e tenham isonomia competitiva em nível mundial. Nós continuamos exportando impostos e a carga tributária atinge os mais pobres de uma forma insustentável. Na reforma previdenciária, acreditamos em um sistema que seja auto-sustentável. No mundo inteiro, a previdência é um instrumento de poupança e, no Brasil, continua sendo um instrumento de despoupança.  Educação  Indiscutivelmente, este é o tema mais importante. Até para melhorar a saúde, acredito que investir na educação talvez seja o ponto mais importante. Vou abrir aqui um parêntesis, para fazer o seguinte raciocínio: investir em educação tem dois aspectos.´Temos a responsabilidade e visão social, nas também temos o quase tão importante aspecto econômico. Investir corretamente numa educação básica, eventualmente com um curso até os 14 anos . Não investir numa criança, significa eventualmente passar para nossos filhos e netos um passivo de uma pessoa apenas semi-alfabetizada que vai ser um ônus para a sociedade. Governança  "Analisando a evolução do know-how, do conhecimento das principais empresas do Brasil, nós recorremos felizmente a exemplos dos melhores padrões mundiais e tecnologias de governança que realmente têm feito com que o Brasil tenha empresas de que pode se orgulhar. Inclusive com uma transparência absoluta, que pode nos levar ao mercado de capitais, não só o brasileiro, mas também mundial. Agora, eu pergunto aos senhores quanto é que se tem discutido sobre governança na área pública? Quantos artigos os senhores leram da sistemática de checking balance e etc, que poderia existir no setor público? Estou convicto de que, fora da evolução de gerenciamento, cabe discutir a estrutura de governança do País. Não acredito que um presidente possa trabalhar com 30 e tantos ministros. Não acredito que se possa trabalhar com desvinculação total de estruturas de planejamento do que acontece em todos os ministérios. É um espectro que o nosso processo político, nosso processo de gerenciamento não tem atendido e nos leva às conseqüências dos diversos apagões que diariamente vão aparecendo em todos os cantos. É um processo que não é desse governo, é um processo que já tem dezenas de anos. Mas nós não nos capacitamos, temos um País hoje próximo a 200 milhões de habitantes e trabalhamos com estruturas que talvez são de quando o País tinha 40 ou 50 milhões de habitantes." Evolução  "Não quero deixar de reconhecer neste momento que o Brasil teve uma evolução importantíssima nos últimos governos. O governo tem conseguido avançar bem e sustentar o processo de combate à inflação, com custos elevados, mas avançamos nesse sentido. Graças a isso, o risco Brasil caiu. Graças a isso, estão começando a baixar os juros a níveis que podem estimular o consumo. O financiamento ao consumidor começa a chegar a novos níveis, principalmente em automóveis, linha branca e construção civil. Há uma evolução importante a ser reconhecida. Outro fato são os investimentos que correm para o Brasil pela diminuição do risco Brasil, que são frutos de trabalhos construídos gradativamente. Mas o dólar preocupa, porque muitos setores não estão ajustados a essa realidade e vão ter de se ajustar." 

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