Leia íntegra do discurso de Aloizio Mercadante em Araçatuba

Pré-candidato petista ao governo de São Paulo participou de seminário sobre agricultura no último sábado, 15/5

Estadão.com.br

17 Maio 2010 | 21h40

Companheiros e companheiras, é um prazer imenso voltar à Araçatuba, essa cidade que está em uma região que nós demoramos tanto tempo pra dialogar e pra podermos ser reconhecidos como uma força política transformadora, sensível à causa da agricultura, do campo, e hoje nós temos um prefeito que dá orgulho ao PT, Cido Sério e Hernandes representam a mudança aqui em Araçatuba, o diálogo democrático, a competência administrativa. E nós estamos realizando, Cido, o nosso primeiro seminário do programa de governo, porque nós não queremos um programa de governo feito só por técnicos burocráticos. Nós queremos diálogo com a população, com os movimentos sociais, com os sindicatos, nós vamos construir juntos esse programa. Então, nós estamos iniciando aqui uma série de dez eventos no estado de São Paulo. E começando pela agricultura, escolhemos Araçatuba em reconhecimento ao seu trabalho e a tudo o que representa aqui para a região e pro nosso estado de São Paulo.

Queria falar um pouco da agricultura, dizendo pra vocês que, quando o Lula ganhou a eleição, eles diziam que a inflação ia voltar, que o Brasil não ia crescer, que nós íamos ficar isolados internacionalmente, que o Brasil não ia trazer investimentos do exterior, que a dívida pública e a dívida externa iam tomar conta do Brasil, que não íamos conseguir sair do Fundo Monetário Internacional. O Brasil, hoje, tem estabilidade econômica e a inflação é menor que no governo Fernando Henrique Cardoso. Nós enfrentamos a maior crise econômica desde 1929, uma crise que ainda atinge boa parte da Europa, do Japão e dos Estados Unidos, e o Brasil está crescendo mais de 8% neste início de 2010, criamos 657 mil novos empregos com carteira de trabalho assinada. E quando nós dizíamos, em 2002, que a nossa meta era 10 milhões de emprego, e a meta boa é aquela que você não consegue nem alcançar, nós já estamos com 12 milhões de empregos com carteira assinada e esse ano vamos criar mais 2 milhões de empregos, batendo recorde histórico de emprego em toda a história documentada do Brasil.

 

Hoje nós temos um país que cresce, que tem estabilidade e que tem distribuição de renda. Tiramos 23 milhões da pobreza, com as políticas de inclusão social, o salário mínimo, o Bolsa Família, o Pronaf tiveram um papel fundamental, o crédito consignado. Outras 32 milhões de pessoas passaram a ser classe média, com muito mais acesso ao consumo. E é a distribuição de renda e o mercado interno forte que fazem o Brasil crescer hoje, porque não dá pra crescer pra fora porque o mundo não voltou a crescer. Nós só conseguimos crescer pra dentro e é por isso que o Brasil cresce: porque é um país que distribuiu renda, criou um mercado interno de massas forte, que permite o crescimento econômico.

 

Hoje, o presidente Lula tem o prestígio internacional. Ganhou prêmio do Le Monde Diplomatique na França, do El País na Espanha, do Fórum Econômico Mundial como estadista global, da revista Time. Mas o prêmio que tem um significado muito especial para nós, que estamos nesta sala e para o povo brasileiro, foi o prêmio que ele ganhou há uma semana do programa de alimentos da ONU, a Organização das Nações Unidas, de ser o líder mundial de combate à fome no mundo, o presidente que mais tem contribuído para a produção de alimentos e o combate à fome. Não só pelo o que fez no Brasil, mas também pelo o que está fazendo em parte da América do Sul, da América Latina e da África, usando inclusive a Embrapa, que é a nossa Nasa, e que influi fundamentalmente na produção agrícola do Brasil, na modernização, na inovação tecnológica, ajudando outros países mais pobres a se desenvolver.

 

Agora, na agricultura, nós tínhamos muita dificuldade. A produção agrícola, os grandes proprietários agrícolas tinham muita desconfiança do nosso governo. No entanto, no governo Lula, a produção agrícola aumentou 51%, e este ano nós estamos batendo recorde histórico, 157 milhões de toneladas de grãos. No governo Lula as exportações agrícolas, que eram de 24,8 bilhões de dólares são agora de 71,8 bilhões de dólares, cresceram 189%, quase 200%. E foi exatamente a agricultura que gerou o grande salto comercial que permitiu o Brasil se livrar da dívida externa. Só o saldo comercial da agricultura em 2008 foi de 59,9 bilhões de dólares, quase 60 bilhões de dólares de saldo. O Brasil vendeu mais do que comprou. E é isso, esse saldo comercial que fez o Brasil acumular reservas cambiais e hoje, na crise, em vez de pedir dinheiro emprestado ao FMI - e quando nós tomamos posse o governo FHC tinha deixado uma dívida, só com o FMI, de 14 bilhões de dólares, e nós não podíamos tomar nenhuma decisão porque tínhamos que pedir autorização – e hoje o Brasil empresta 14 bilhões de dólares, na crise, ao FMI, e agora mais um pouco pra socorrer uma parte da Europa que está em crise, coisa que ninguém jamais imaginou que pudesse acontecer na História do Brasil.

 

E principalmente a soja, a carne e o setor sucroalcooleiro representam hoje 75% das exportações de alimentos do Brasil. E é importante a gente ter a dimensão de que 60% do que a gente produz de alimentos nós exportamos para a Ásia e para a União Européia. E a Ásia é a região que mais está crescendo no mundo, Índia e China. São dois países com 2,5 bilhões de pessoas para alimentar e que não têm terra mais disponível para continuar aumentando a oferta de alimentos. E nós vamos precisar, nos próximos 40 anos, a FAO estima que é necessário aumentar em 70% a produção de alimentos no mundo. E qual é o país que está se destacando em aumentar a produção de alimentos e aumentar as exportações de alimentos? É o Brasil. Nós somos hoje o segundo maior produtor e exportador de alimentos, só estamos atrás dos Estados Unidos. Passamos todos os países da União Européia, passamos a China, o Canadá. Somos o segundo país que mais produz e exporta alimentos no mundo.

 

Então, a perspectiva da agricultura brasileira é extremamente promissora. Nós vamos continuar tendo que alimentar o nosso povo, porque cada vez vai ter mais renda, mais emprego, mais salário, mais crescimento, e vamos ter que continuar ajudando a alimentar o mundo. Portanto São Paulo, que tem a agricultura mais moderna, a agricultura mais importante da produção nacional, especialmente alguns setores, como é o caso do setor sucroalcooleiro, como é o caso da citricultura, da laranja, e uma participação importante na produção de alimentos, São Paulo tem um papel extraordinário em impulsionar essa perspectiva, este horizonte que se abre para o Brasil. O governo Lula entende que a agricultura familiar tem um papel decisivo no campo.

 

Um jornalista me perguntou como é que nós vamos administrar o conflito entre a agricultura e a agricultura familiar, entre a luta pela terra e os grandes produtores agrícolas. Nós vamos, à medida em que a agricultura tem esse horizonte espetacular, nós vamos, sim, fortalecer a agricultura familiar. Por que? Porque 78,8% do emprego quem cria é a agricultura familiar. E quem alimenta a cesta básica, que fornece o alimento para o nosso povo é a agricultura familiar. Ao fortalecer a agricultura familiar estamos gerando emprego no campo, emprego com qualidade, e evitando que a periferia das grandes cidades cresça de forma desorganizada. Portanto nós temos no Brasil, especialmente São Paulo, como tem uma agricultura moderna e eficiente, com reforma agrária, com apoio à agricultura familiar, impulsionando aqueles que têm um papel fundamental, não só no sustento da sua família, mas em produzir os alimentos que o povo brasileiro precisa.

 

O governo Lula entendeu isso. Nós tínhamos, quando assumimos o governo, 24 bilhões de reais de crédito para toda a agricultura. O ano passado nós tivemos 107 bilhões de reais e só para a agricultura familiar, 15 bilhões de reais. Então, o presidente Lula deu crédito abundante, especialmente através do Pronaf, e renegociou a dívida da agricultura familiar. Nós renegociamos 51 bilhões de reais de dívidas da agricultura familiar no Brasil. E o governo de São Paulo se nega a renegociar 17 milhões de reais. Nós vamos mudar esse governo para olhar para o campo com mais atenção, especialmente na agricultura familiar do estado de São Paulo.

 

O que é que está deficiente na política agrícola do estado de São Paulo? Em primeiro lugar, os institutos de pesquisa. Olhem o que o governo Lula fez com a Embrapa: mais recurso, mais investimento. A Embrapa, como eu disse, é a Nasa do Brasil. A Embrapa em São Paulo, em Campinas, tem a Embrapa satélite, tem imagem de satélite da agricultura para fazer previsão de safra, para ver a correção do sol, para ver a perspectiva de produção. A Embrapa tem, em todas as áreas importantes, um papel decisivo no aumento da produtividade agrícola, que foi espetacular nesses anos. Agora, os institutos de pesquisa do campo em São Paulo foram esvaziados, foram sucateados. O Instituto Agronômico de Campinas, um instituto centenário, como o Instituto Butantã, o Instituto de Pesquisa Tecnológica, da Universidade de São Paulo, foram esvaziados. Nós vamos recompor os institutos de pesquisa. O Instituto Agronômico de Campinas vai voltar a estar junto com a Embrapa, com competência, produzindo e assessorando.

 

Mas além de ter um instituto de pesquisa, para produzir ciência, tecnologia, inovação na agricultura, nós temos que fortalecer a extensão agrícola. A Secretaria de Agricultura dos Municípios foi totalmente sucateada, não tem recursos no orçamento, falta técnico, falta agrônomo, e isso prejudica exatamente a pequena agricultura. Nós vamos fazer parceria com os municípios para fortalecer a extensão rural, dar assessoria técnica e ajudar a pequena agricultura familiar nos assentamentos a se desenvolverem.

 

A terceira grande debilidade do estado de São Paulo está exatamente na defesa agropecuária. A defesa sanitária é muito importante para a agricultura, especialmente na citricultura, em São Paulo, nós estamos, para dar um exemplo, com um problema sério do ponto de vista da defesa agropecuária, da defesa sanitária. Como aconteceu com o cacau: a "vassoura de bruxa" devastou os cacaueiros do país. Então nós temos que olhar com muita atenção o fortalecimento da defesa agropecuária, a fiscalização, o acompanhamento, e ter recursos para enfrentar algumas pragas que são muito prejudiciais à algumas cadeias produtivas do nosso estado. Para a gente poder avançar, nós precisamos também, dar prioridade à reforma agrária. Só tem uma forma de a gente evitar conflito no campo: é se antecipar, assentar e democratizar a propriedade da terra e apoiar a agricultura familiar. Esse é o único caminho.

 

E nós temos um governo, do PSDB, que não dialoga. Não dialoga com a polícia, que tem um dos piores salários do país, e põe a polícia civil em conflito com a polícia militar em frente ao palácio do governo. E nós precisamos ter um outro tipo de relacionamento com a polícia para ter mais segurança, mais policiamento comunitário. Não dialoga com os professores, que ficaram cinco anos sem reajuste salarial, só com 5%. E nós não temos como avançar para o futuro, inclusive no campo, se nós não tivermos uma escola de qualidade, uma escola do futuro, fazer inclusão digital, colocar essa molecada toda no século 21, na internet, com computador. O Uruguai está fazendo isso, a Europa inteira já fez. Nós temos que olhar para a sala de aula, valorizar o professor, recuperar o salário, a dignidade, a motivação do professor, para a gente poder ter uma boa escola. E uma categoria como a dos professores, que só tem giz para trabalhar, eles tratam, em vez do diálogo, com borracha e cassetete. Isso vai acabar no estado de São Paulo, nós vamos estabelecer o diálogo, a negociação e a construção.

 

E é um governo que não dialoga com os movimentos sociais, não dialoga com os movimentos que lutam pela terra. O nosso governo vai ter porta aberta, nós vamos dialogar, nós vamos conversar e nós vamos buscar construir uma política de paz no campo, fortalecendo o Ipea, para que possa trabalhar junto com o Incra, para que a gente possa melhorar os assentamentos, para que possa ter em São Paulo uma parceria com o governo não mais do presidente Lula, mas da ministra Dilma, para trabalharmos juntos no apoio à agricultura familiar, aos assentamentos e à reforma agrária. O fortalecimento da agricultura familiar e dos assentamentos passa também por uma política de compra de alimentos. O governo federal criou um programa de aquisição de alimentos, o AA, que é um programa muito importante, porque ele viabiliza o pequeno produtor.

 

O que é que nós pretendemos fazer? Na merenda escolar, que hoje não sai por menos de 1 real ao dia por aluno, o governo federal repassa 30 centavos e o governo estadual 20 centavos. Se nós aumentarmos a participação do governo estadual e aumentarmos os recursos para que o programa federal tenha também um programa estadual para a compra de alimentos para a merenda escolar, nós vamos abrir um grande campo para os assentamentos e para a agricultura familiar se viabilizar, tendo a garantia de compra dos alimentos nos 645 municípios do estado de São Paulo. Então, o fortalecimento da aquisção de alimentos através da merenda escolar é outra parceria que nós vamos fazer com quem bota a mão na enxada, quem planta, quem colhe, quem trabalha na terra, juntando a enxada com a panela e os nossos jovens que estão na escola, fazendo uma nova cadeia produtiva de alimentos, que gera emprego, que gera renda e que gera desenvolvimento.

 

Outra forma de gerar renda é produção de peixes. É um potencial fantástico. Nós não podemos mais ter aquela visão tradicional de que a pesca é só aquela artesanal que vamos tirando dos oceanos, nós temos que ter produção de pescados. E o estado de São Paulo tem todas as condições, nós temos aqui na região grandes lagos, já temos uma produção de piscicultura importante e nós vamos criar um programa de estímulo muito forte, como tem o Ministério da Pesca, para a gente ter uma estrutura no governo do estado, trabalhando em parceria com o Ministério da Pesca para desenvolver a piscicultura no estado de São Paulo.

 

Eu quero terminar dizendo para vocês o seguinte: para que a gente possa dar um salto extraordinário na agricultura de São Paulo, que não pode ser apenas monocultura, não pode ser apenas alguns segmentos, que são importantes, mas nós temos que fortalecer a diversificação, o planejamento agroecológico, o fortalecimento da agricultura familiar, nós precisamos ganhar a eleição. E para ganhar a eleição os passos fundamentais nós estamos dando. Primeiro, pela primeira vez temos a unidade no PT, não teve nenhuma disputa interna, coisa que eu nunca vi em 30 anos. Foi consenso. Nós tínhamos seis pré-candidatos e todos retiraram a pré-candidatura para me apoiar.

 

As pessoas dizem que eu estava com a reeleição para o Senado ganha e perguntam o motivo de eu concorrer ao governo do Estado. Quando eu fundei esse partido com o Lula, há 30 anos, ninguém vinha para o PT pensando em cargo, em ser deputado, senador. Nós vínhamos porque éramos militantes, tínhamos compromisso com o projeto. E eu continuo com esses mesmos valores. Essa militância aqui nunca teve cargo e nunca saiu da luta. E é só por isso que o Lula é presidente e o Mercadante é pré-candidato ao governo do estado. Eu sou um militante, antes de qualquer coisa. E o Lula vai mostrar, a hora que sair da presidência, que vai voltar para a rua, amassar barro, disputar, visitar os movimentos, andar por esse país, como ele fez a vida inteira. E esse é o exemplo que a gente tem que dar. Porque temos compromisso com a nossa luta e com a nossa história.

 

Mas eu sou pré-candidato ao governo primeiro pela unidade do PT. Segundo porque nós fizemos a mais ampla aliança política que a oposição já fez em São Paulo. Nós já temos dez partidos. Dez. Partidos que nunca estiveram com a gente, como o PDT, fizemos uma convenção com 1.350 delegados, aprovaram por unanimidade o apoio à minha pré-candidatura. O PCdoB, o PR, o PRP, o PT do B, o PSDC, enfim, nós temos já dez partidos e vamos ter mais. Vamos ter, pelo menos, uma parcela muito representativa do PMDB, de prefeitos e militantes. Vamos ter uma parcela do PTB, que está vindo conosco. E nós queremos ampliar nossa aliança. A porta está aberta. À vice, a segunda vaga para o Senado na chapa, nós estamos ampliando nossas relações para construir uma grande chapa. Temos uma mulher de valor, de luta, uma grande parlamentar, uma grande prefeita de São Paulo, que vai ser a primeira senadora mulher do estado, e eu quero que ela vá para o meu gabinete, para o meu lugar no Senado federal, que é a Marta Suplicy.

 

Na hora que nós estivermos na televisão, em agosto, tudo isso aqui vai estar lá e o povo vai ver. E é bom que eles fiquem de "sapato alto". Meu adversário acha que já está ganho. Mas ele estava com 45% na disputa para a Prefeitura de São Paulo, terminou com 22% e não foi nem para o segundo turno. Nós, com apenas dois partidos nos apoiando, numa situação muito mais difícil, o Lula estava terminando apenas o primeiro governo, tivemos 32% dos votos. Por isso, com esse momento que o país vive, com a projeção e o respeito que o país conquistou, com a qualidade do governo Lula, temos uma chance única de mudar o governo desse estado e dar um grande salto para que, nos próximos anos, possamos transformar São Paulo como transformamos o Brasil.

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