Leia a íntegra do discurso de Lula

O presidente fez primeira declaração pública ao lado de Dilma Rousseff desde o fim das eleições

Estadão.com.br

03 de novembro de 2010 | 19h02

SÃO PAULO -  O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta quarta-feira, 3, seu primeiro discurso público ao lado da presidente eleita Dilma Rousseff. Veja o discurso na íntegra:

 

"Eu pedi essa conversa com a companheira Dilma Roussef porque ela vai ter um merecido descanso, já que logo na segunda feira a noite ela terá que viajar para Seul. É uma grande oportunidade para os líderes do G20 conhecerem quem vai presidir o Brasil pelos próximo 4 anos.

 

E eu achei importante descer aqui com a Dilma para falar algumas coisas que eu acho importantes - e que ainda não havia falado depois das eleições.

 

Primeiro, a minha alegria profunda pelo comportamento democrático do povo brasileiro mais uma vez. Eu acho que ninguém mais tem dúvida de que o povo brasileiro é democrático, tem um comportamento democrático e tem a democracia como um valor inestimável, porque foram às urnas duas vezes, numa primeira vez para eleger deputados, senadores, governadores - e quase elege a Dilma em primeiro turno. No segundo turno ele votou com o mesmo carinho, a mesma força, para eleger o próximo governante do país. E quis Deus e a maioria do povo brasileiro que fosse a Dilma a escolhida.

 

Então, os meus agradecimentos ao povo brasileiro pelo seu comportamento mais uma vez altamente democrático, motivo de orgulho para nós e motivo de orgulho para o mundo inteiro, porque um país como o Brasil realizar uma votação com um sistema eleitoral que duas horas depois já temos praticamente o resultado das eleições, é uma coisa que os países em desenvolvimento e os países ricos poderiam copiar do Brasil com facilidade.

 

A segunda coisa, que eu acho importante: eu tenho acompanhado nesse domingo, segunda e terça a imprensa e já vi governo montado, governo destituído, eu já vi cargo indicado para tudo quanto é lado. E eu acho importante dizer uma coisa para vocês. Eu fui eleito em 2002 e eu tenho a exata noção da sensação da formação de um governo. Eu acordo de manhã e vejo no jornal a foto de uma pessoa que você nunca pensou em colocar no governo, mas está lá como escolhida. Ou uma pessoa que você vai colocar, mas que está destituída.

 

É um samba maluco, alucinante, a quantidade de informações que passam para vocês, ou que alguém vaza, ou que alguém que tem o interesse, já começa a queimar alguém aqui e a enaltecer outro.

 

E como a Dilma vai viajar, eu acho importante falar isso, pela minha experiência de vida e pela experiência de montagem de governo. Primeiro, o governo da Dilma tem que ser a cara e a semelhança da Dilma. É ela, e somente ela, que pode dizer quem ela quer e quem ela não quer. É somente ela que pode dizer aos partidos aliados se concorda ou não com as pessoas. E somente ela e os partidos aliados é que irão construir a coalizão.

 

Eu vou repetir uma coisa que é importante para vocês nunca mais esquecerem. Na minha cabeça funciona a seguinte tese: rei morto, rei posto. Eu disse a vocês que eu ia dar lição de como se comporta um ex-presidente da República. Um ex-presidente da República, ele não indica, ele não veta. Um ex-presidente da República poderá dar conselho se um dia for pedido. Se for para ajudar, para atrapalhar nunca! É esse o comportamento de um ex-presidente da República.

 

Por exemplo, quando nós escolhemos a Dilma para ser presidente da República, nós tínhamos convicção de que ela tinha a possibilidade de ela ganhar, e ela realmente ganhou. Para mim e para as pessoas que fazem parte do meu governo, nós vamos torcer para o sucesso da Dilma como se estivesse torcendo para o nosso sucesso.

 

O que ela vai ter de vantagem sobre mim? Ela ajudou a colocar esse carro em marcha, então o carro não está na garagem, os pneus calibrados, o motor está regulado, o carro esta andando a 120 por hora, se ela quiser pode pisar um pouco mais no acelerador e ir a 140, 150 por hora. Ela não tem por quê brecar esse carro. Ela só tem que dirigir com muita responsabilidade. Olhar bem as curvas, não passar quando houver duas faixas amarelas. Tem que ter cuidado. Porque ela aprendeu na UNICAMP e aprendeu no governo em que ela foi chefe da Casa Civil que em economia não existe mágica. Não existe mágica, não existe ninguém capaz de tirar da cartola o coelhinho que vai fazer as coisas acontecerem como se fosse um milagre. É seriedade, é compromisso, é previsibilidade. E isso ela tem de sobra para fazer o país dar certo.

 

Uma outra coisa importante, é que a Dilma vai ter condições de ter muita criatividade. Por que? Porque como a chamada macroestrutura de desenvolvimento, de infraestrutura já está elaborada, e ela própria coordenadora, ela agora tem que pensar em outras coisas. O que vai acontecer a mais neste país para que a gente não perca esse momento mágico que vive o Brasil, para que a gente não perca esse momento excepcional que a gente viva a economia, para que a agente não perca esse momento de alto estima do povo brasileiro? E aí eu acho que as condições estão dadas para a Dilma ter quatro anos, eu diria, exitosos (sic) no governo brasileiro.

 

Eu queria dizer para vocês, porque fui oposição por muito tempo e fui governo por muito tempo, eu possivelmente tenho a vantagem de ser o cara que mais perdeu em eleições para presidente da República, mais do que o Serra, que perdeu duas. Ou seja, eu perdi três. Quando a gente perde, a gente fica sisudo. O que eu poderia dizer para a oposição? A Dilma é uma outra pessoa. A Dilma vem de uma formação política admirável. O que algumas pessoas viam como defeito na Dilma, eu via com virtude. O fato dela muito jovem ter coragem de brigar para ter democracia no país.

 

Acho que a chegada da Dilma ao poder é vitória daqueles que perderam em 1968 e que muitos estavam desacreditados. E a Dilma provou, que no jogo democrático é possível chegar ao poder. E a Dilma chegou com a experiência de quem conhece o Brasil como ninguém, de quem conhece a máquina pública. Então eu queria pedir a oposição, que a partir do dia primeiro de janeiro - contra mim não tem problema, podem continuar raivosos, podem continuar do jeito que sempre foram -, que eles olhassem um pouco mais o Brasil, que eles torcessem para que o Brasil desse certo, que eles ajudassem o Brasil a dar certo. Que todas a vezes que fossem tomar uma atitude, vissem que ao prejudicar o governo eles prejudicam a parte mais pobre da população, que precisão do governo e que precisa das políticas públicas do governo.

 

Eu não vou falar aqui em unidade nacional, pois essa já é uma palavra queimada, uma palavra mal usada. Mas eu queria apenas pedir a compreensão, que dentro do congresso nacional a nossa oposição não faça contra a Dilma a política que fez comigo, a política do estômago, da vingança, do trabalhar para não dar certo. Eu acho que a oposição tem outro papel. Até porque a oposição governa importantes estados da federação e sabe que a relação institucional entre os estados e governo federal tem que ser a mais harmoniosa possível, porque senão todos perdem.

 

Não posso dizer como vai ser a oposição. Não minha opinião a oposição tem que ser oposição, não pode perder a característica, mas tem que saber diferenciar o que é interesse nacional que envolve o povo brasileiro e o que o que é briga política partidária. Não esqueço nunca que por conta disso que essas pessoas tiraram R$ 40 bilhões anuais se for levar o mandato inteiro dá mais de R$ 170 bilhões da saúde. Qualquer governador e prefeito sabe que é preciso ter dinheiro para a saúde se a gente quiser dar atendimento de qualidade e quiser melhorar a vida do povo brasileiro.

 

Acabou a eleição e agora é hora de descansar dela e depois hora de trabalhar e trabalhar muito. Como eu conheço o jeito da Dilma, a forma que ela trabalha, eu posso dizer a vocês que vocês terão no Palácio do Planalto uma das pessoas mais capacitadas no trabalho eu conheci na vida. Uma pessoa que não tem horário, não tem sábado, não tem domingo. Uma pessoa que vai fazer vocês da imprensa sofre um pouco e caminhar, mas não é só com vocês. Na viagem para a África eles faziam revezamento entre eles por que não conseguiam acompanhar a agenda. Eu nunca denunciei eles aos donos dos jornais.

 

Mais uma vez vou me despedir de vocês no final do ano e mais uma vez quero dizer que estou grato a tudo que tem acontecido no Brasil. A Dilma sabe que ela não pode ficar com raiva do que aconteceu no processo eleitoral, depois de terminado as eleições temos que pensar no dia seguinte. É como um jogador de futebol tomar uma cotovelada e ficar só pensando nessa cotovelada e se vingar. Na cabeça de um presidente da república não tem que ter um pensamento da vingança, da raiva, do ódio, pois quem sofre é quem tem esse sentimento. A Dilma tem que agradecer a Deus e ao eleitor brasileiro. Ela é a presidente da república e agora é preparar o time para entrar em campo.

 

 

Nós não temos pela frente medidas impopulares. Quando a gente disse medida impopular no Brasil é que normalmente as pessoas fazem alguma sacanagem contra o povo antes de deixar o mandato. Não há necessidade e nem eu quero que aconteça e muito menos a Dilma quer que aconteça. Vamos fazer o que for necessário fazer para garantir que a Dilma receba no dia 1 de janeiro o governo com toda a tranquilidade, sem nenhuma preocupação, nenhum percalço.

 

Câmbio é uma coisa que nem eu nem ela, não é assim que funciona. A única coisa que queremos em comum é o câmbio flutuante. A segunda coisa em comum é que achamos que os EUA e a China estão fazendo uma guerra cambial. Os EUA que quer resolver o problema do déficit fiscal dele e a China que sabe que não pode continuar com sua moeda subvalorizada.

 

Eu vou pro G-20 agora para brigar. Se eles já tinham problema para enfrentar o Lula agora vão enfrentar o Lula e a Dilma. O Guido e o Meireles sabem que terão que acompanhar a questão do câmbio. Nós temos uma preocupação muito séria e vamos tomar cuidado. Vamos tomar todas as medidas necessárias para que nossa moeda não fique supervalorizada.

 

Por questão de responsabilidade tinha deixado exatamente passar o processo eleitoral para conversar. Vou esperar a Dilma ter seu descanso merecido e depois vamos discutir, eu, ela e o Jobim, a questão dos caças.

 

Estou dependendo do procurador geral da república. Se ele der parecer, eu vou acatar porque ele é que é a advogado, ele é o orientador. Eu tinha uma eleição presidencial, eu tinha o direito de indicar mais um ministro da Suprema Corte e achei prudente não indicá-lo antes de conversar com quem fosse eleito. Como a Dilma foi eleita estou conversando com ela aqui.

 

Nome já tem, essas coisas a gente não conta. Eu não quis discutir agora porque a Dilma vai viajar. Se o Serra fosse eleito eu iria discutir com ele do mesmo jeito. Eu quero propor para ela exatamente para ela dizer se ela quer ou não. Vai ser no mandato dela. A pessoa vai ser ministra da Suprema corte durante o mandato dela praticamente.

 

Eu só quero tranquilidade, não temos que tomar nenhuma coisa precipitada. Veja o salário, nós temos projeto de lei uma prática já adotada por nós nesses 8 anos de governo. Nosso projeto de lei prevê a recuperação do salário mínimo até 2023. È uma política extraordinária porque damos o PIB de dois anos atrás mais a inflação do período.

 

A Dilma sendo presidenta, ela pode tomar a atitude que ela quiser. Ela pode falar o seguinte: "Eu vou tentar compensar esse ano", ela pode fazer isso, acontece que quando mandamos o projeto de lei e fizemos a proposta, que é extraordinária, porque se é verdade que no ano que vem você vai ter a inflação, no próximo ano você vai ter 7,5% de crescimento mais 5% de inflação. São 12%. Se estivermos apostando que a economia cresça entre 4,5 % e 5% nos próximos anos, e tiver uma inflação de 4, significa uma média de 10% de reajuste no salário mínimo, ou seja, vamos chegar em 2023 com uma recuperação total do poder aquisitivo do salário mínimo.

 

Isso era promessa do Serra (proposta de R$ 600 no salário mínimo). Isso eles podiam ter feito quando governaram o país. Como o povo não acredita em promessas feitas de última hora. As pessoas precisam aprender que o povo não é mais massa de manobra. Tem gente que ainda trata o povo como se fosse boiada. Toca o berrante e o povo vai atrás. Não é mais assim, não. O povo está sabido, tá esperto, sabe o que é política séria e o que é promessa. Por isso que a Dilma ganhou a eleição sem ter que entrar na fase de promessas fáceis.

 

A Anatel eu vou decidir até sexta-feira. O Congresso é a cara da sociedade. Fico olhando vocês aqui, o Congresso é a cada da sociedade, é a média da cara de vocês, é a síntese da sociedade brasileira. Tem gente de todo o aspecto social, tem gente de todas as origens, de todas as cores, de todos os estados. Temos o hábito de tentar menosprezar muitas vezes por preconceito. As pessoas são eleitas. Tem um cidadão que eleito com 10 milhões e outro com 1 milhão de votos. Quando chegam aqui, cada um vale um voto. Não tem melhor ou pior.

 

Um presidente da república, ele se relaciona com a força política eleita, ele não se relaciona com a força política que ele gostaria que fosse eleita. A companheira Dilma terá que se relacionar com os 81 senadores que estão aí. Do DEM, do PTB, do PT, do PMDB, do PSB. Ela não vai inventar, ela não pode criar novo partido criar novos senadores. E todos têm direito um voto. Ela vai se reunir com o Congresso nacional e com a Câmara do mesmo jeito. Ela não pode dizer não, não quero aquele deputado, tem que vir outro. Ela tem que conversar com o companheiro do PC do B e com o Tiririca. Com o PT e com o PC do B, com a situação e a oposição. Essa é a, lógica do jogo. Ela vai ter melhor do que eu tive, teoricamente, uma bancada mais consolidada na Câmara dos Deputados e no Senado.

 

Certamente nós teremos senadores com menos raiva do que alguns que saíram. Só o fato de o cidadão não ter raiva, ser civilizado, e ao invés de gritar, conversar, ao invés de querer bater, negociar, já é meio caminho andado. É importante lembrar que aprovamos tudo que nós queríamos no congresso nacional, com exceção da CPMF, embora tivéssemos a maioria, faltou um voto só para a gente ter a CPMF. Agora, essa nova safra de governadores que vão vir aí, vão dizer o que vão querer e todo mundo sabe que vão querer dinheiro pra saúde. Se alguém souber de onde é possível tirar dinheiro, que nos diga.

 

Estou deixando a presidência da república daqui dois meses. Acho que foi um engano ter derrubado a CPMF e alguma coisa tem que ser feita para a área da saúde. Se a gente quiser levar tratamento de alta complexidade, que todos os políticos têm, todo jornalista tem, quem paga plano médico. Todos deputados e senadores têm um plano médico. Portanto quando entra no hospital faz 500 exames naquelas médicas sofisticadas, se queremos levar isso para a sociedade teremos que ter mais recursos. Vou parar minha parte por aqui.

 

Nem o Mano Menezes quando foi convocado para a seleção pediu para o técnico do Corinthians manter o jogador que ele mantinha. Como eu vou pedir. A Dilma tem que mostrar o time dela. Ela é a pessoa que vai ser o técnico titular dessa seleção, ela vai escolher quem ela quiser, para a posição que ela quiser. Eu não vou participar da transição. Ela monta a equipe da transição que vai conversar com a equipe do governo.

 

A continuidade é na política e não nas pessoas. Sobre o pré-sal, ela sabe mais do que eu. Ela é doutora, eu é que sou o estudante. É difícil dar conselho. A Dilma conviveu comigo nesses oito anos, nos maus momentos, nos bons momentos. Nas horas em que a gente tinha que chorar e rir e ela sabe que tem que montar uma equipe que primeiro seja harmoniosa. Eu falo muito de futebol porque todo mundo entende de futebol. Se o time não tiver coeso, treinado e com muita harmonia entre os jogadores, se eles tiverem brigando entre si, o jogo não dá certo. Essa mulher tem o direito de montar uma equipe excepcional.

 

Primeiro porque ela conhece muito mais gente do que eu conhecia em 2002, segundo porque a relação com os partidos está muito mais consolidada do que em 2002 e terceiro porque ela passou oito anos no governo. Ela conhece por dentro e por fora. Conhece as pessoas boas e as que não são tão boas, conhece os craques e os que não são tão craques. Portanto, a bola está com a senhora, dona Dilma. Monta seu time que eu estarei na arquibancada de camisa uniformizada , sem corneta, batendo palma e nunca vaiando. Sempre batendo palma.

 

Quando eu falo rei morto, rei posto, é porque eu acho que quem vai sair do governo como eu vou sair, tem a responsabilidade de pensar, de contar até um milhão, de voltar algum dia. Porque chegar até o final do mandato, com o reconhecimento popular que tem o governo, com a aprovação do governo como um todo e aprovação pessoal minha, voltar é uma temeridade, porque a expectativa gerada e infinitamente maior.

 

Eu entendo um pouco de política, entendo um pouco de sentimento da sociedade, uma coisa que sei é conversar com o povo, e tudo que peço a Deus é que a Dilma faça as coisas que ela sabe fazer. Não precisa inventar nada. Ela sabe o que é preciso ser feito. Ela conhece, Já fez. Ela pode aprimorar. Ela vai ouvir a sociedade. Tenho certeza, Se ela fizer tudo que ela sabe fazer, ela tem todo o direito de em 2014 ela ser candidata outra vez. É muito pequeno discutirmos neste momento 2014, a gente deveria estar discutindo 2011.

 

2014 a gente discute a copa do mundo, 2016 discute as olimpíadas e deixar para discutir as eleições mais para a frente. Porque senão vai ter uma enxurrada de bolinha de papel batendo nas nossas cabeças até 2014 e nós não queremos isso. Não estou saudoso. Quando entrei aqui sabia que teria data de entrar e para sair. É como um contrato de aluguel, até do dia 31 tenho que dar o fora."

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