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Leia a íntegra da entrevista coletiva da presidente Dilma Rousseff

SAÚDE

Estadão.com.br,

03 de novembro de 2010 | 21h08

Eu tenho muita preocupação com a criação de imposto. Preferia que a gente tivesse outros mecanismos. Agora tenho visto uma mobilização dos governadores nessa direção, não posso fingir que não vi. E eu considero que duas áreas vão ter um grande destaque no meu governo. Uma é a área da saúde e a outra é a área da segurança Pública. Eu considero que a educação está muito bem encaminhada e que os recursos maiores, estou chamando de recursos maiores é atenção, é um cuidado maior e um empenho maior com, no caso por exemplo da saúde, completar toda a rede do Sus. Nós vamos precisar completar a rede do SUS. E está em questão o problema da regulamentação da emenda 29. Para a União é mais fácil. Para os estados e municípios é que é mais difícil. Então é necessário com os governadores eleitos, que se abra um processo e uma discussão.

 

SEGURANÇA

No caso da segurança pública, nós também vamos ter de investir recursos significativos porque não é possível resolver uma questão de envergadura nacional...Primeiro, sem a cooperação entre estado, município e União não é possível. Segundo não é possível sem que a União participe efetivamente com recursos e terceiro sem que a gente dê uma clara prioridade para esta área. Então eu antecipo para vocês que na minha concepção duas áreas terão a minha integral atenção pra além dos ministros nomeados eu também participarei do acompanhamento diário dessa e noturno como o presidente falou para vocês e também no fim de semana.

 

NOVO GOVERNO

Eu não estou falando agora sobre continuidade de nenhum ministério do ponto de vista das pessoas. Eu estou falando do ponto de vista da continuidade das políticas. Eu não considero que ainda está maduro o processo de discussão a respeito dos nomes que integrarão os ministérios e o primeiro escalão da administração, da alta administração do País. Agora tenho critérios, eu externei isso no meu discurso, eu vou exigir competência técnica vou exigir também desempenho, um histórico de pessoas que não tenham problemas de nenhuma ordem. Obviamente, eu considero importante o critério político. Eu já contei para mais de uma de vocês o que eu assisti uma vez num dos governos latino americanos. Eu perguntei onde o ministro ia passar o Natal e ele disse "em casa". E eu pensei que a casa fosse uma das cidades do País dele. Ele me respondeu que ele e a família dele moravam em Miami. Então aí eu vou dizer uma coisa para vocês: eu faço questão que os ministros tenham vínculos muitos fortes com o Brasil e tenham vínculos muito fortes com a política que eu defendo.

 

PRÉ-SAL

A questão do pré-sal está na pauta agora. Então terá de ser discutida agora. Qualquer outra avaliação que eu faça para você eu estaria atravessando dois meses. Essa pauta esta para ser discutida e debatida no Congresso agora. Aguardemos o que vai acontecer. Eu não posso, sem incorrer numa grave irresponsabilidade, atravessar este momento que existe, porque tem um governo em exercício pleno da sua atividade e tem um Congresso no exercício pleno da sua atividade. A partir do momento que encerrar as atividades do governo e do Congresso, o que restar será avaliado na sequência. Não tem como ser de outra forma.

 

CPFM

Eu não pretendo enviar ao congresso a recomposição da CPFM. Mas não, não posso dizer. Esse País vai ser objeto de um processo de negociação com os governadores. Isso ocorrerá. Eu terei diálogo com os governadores. Aliás fiquei muito contente porque recebi uma ligação muito correta, republicana, do governador eleito de São Paulo, o nosso governador (Geraldo) Alckmin, e ele apresenta o que eu considero que é a forma correta de relacionamento. Pretendo ter com ele e com os governadores, não só da situação, mas da oposição, uma negociação em alto nível. Vou estar atenta para as necessidades deles. Do ponto de vista do governo federal, não há uma necessidade premente. Agora, do ponto de vista dos governadores, eu sei que há esse processo. Eu não posso ir além disso.

 

SALÁRIO MÍNIMO

No salário mínimo nós temos um critério que eu considero muito bom e falei isso durante toda a campanha. É o fato de que nós damos o reajuste do salário mínimo baseado na inflação corrente e no PIB de dois anos anteriores. O que aconteceu agora? Nós temos um problema que é o fato de que o PIB de 2009 é um PIB que se aproxima do zero, até sendo um pouco abaixo de zero. Por que aconteceu isso? Porque houve uma crise internacional que afetou as economias. O Brasil teve uma recuperação muito forte, então nós estamos avaliando. Essa é uma das questões que, na minha volta, eu vou debater com o governo. Nós estamos avaliando se é possível fazer essa compensação. Eu adianto a vocês que, num cenário de PIB crescendo a taxas que nós esperamos, o que nós vamos ter? Nós vamos ter um salário mínimo no horizonte de 2014 acima de 700 e poucos reais. Bem acima de 700 e poucos reais, mantido o critério. Se não tiver nenhuma alteração, já em 2011 ele estaria acima de 600. No final de 2001, início de 2012, acima de 600. Agora, nós vamos fazer esse ajuste.

 

BOLSA FAMÍLIA

No caso do Bolsa Família, eu tenho um objetivo, que é assegurar cada vez mais que a cobertura das famílias do Bolsa Família chegue a 100%. Hoje não é 100%. Depende do critério que você analisa. Agora, houve muitas dificuldades dos estados, principalmente. Não são os estados que fazem, mas as prefeituras no cadastrar. São as prefeituras que cadastram. Nós inclusive financiamos as prefeituras para elas cadastrarem. No meu período do governo eu vou buscar 100% de cobertura e um nível maior de benefício proporcional ao que é possível que o País dê para esse conjunto de famílias. Eu não sei dizer hoje qual é esse reajuste, mas que terá reajuste eu asseguro a vocês que terá.

 

OBRAS

No Nordeste, nós temos todas as grandes obras de infraestrutura a completar. A integração da Bacia do São Francisco, que é um dos projetos que leva água para as populações nordestinas, tanto pelo eixo setentrional quanto pelo eixo leste, e que vai assegurar que o Nordeste tenha não só água para beber como água para produzir, do ponto de vista agrícola como também industrial. Então ela tem que ser completada e vai ser completada ali em torno de 2012. A Ferrovia Nova Transnordestina também, em torno do final de 2012 e início de 2013, que é Eliseu Martins passando Salgueiro, Salgueiro Pecém e Suape. Outra obra de grande porte que está se iniciando, já começou além da terraplanagem, já começou as grandes instalações, é a refinaria Abreu e Lima, ali em Pernambuco. Além disso nós temos a Clara Camarão que está no processo final. Essa não atinge mais o meu governo. Conclui no governo do presidente Lula e as duas (refinarias) premium, tanto a premium do Ceará quanto a premium do Maranhão, que são cruciais para o pré-sal. Porque nós não podemos ser exportadores de óleo bruto. Se agente for exportador, vamos perder muito dinheiro. Nós temos que ter duas refinarias premium não por uma mania de grandeza, como algumas vezes a oposição falou da Petrobrás, mas por uma estratégia. Porque você tem de refinar? Porque quando se refina, o preço do petróleo sobe mais. E, proporcionalmente, há o custo do refino, que te permite entrar numa outra área delicadíssima, que se chama petroquímica. Aí o ganho é acima de 1000%.

 

O desenvolvimento de todos os países do mundo é petroquímico dependente. Porque se você for ver, das nossas meias passando por toda a área de maquiagem, toda a área de produção de tintas, toda a área de químicos. Ao mesmo tempo que o Brasil vai ter que apostar nisso, ele vai estar fazendo uma etanol química, que é algo estratégico para nós porque nós somos líder em etanol no mundo.

 

PMDB

Tenho conversado muito com o vice-presidente Michel Temer e nós temos formado uma grande convicção. Esse é um governo que vai se pautar não por uma partilha, mas por um processo de construção de uma equipe única. Quero reiterar, tenho visto por parte do PMDB toda uma iniciativa positiva favorável a essa concepção. Nunca, quero aqui atestar, o PMDB chegou para mim propondo e pedindo cargo. Até agora, estão participando do processo de transição, como participaram de todo processo eleitoral. Sem conflito, extremamente participativo e, acho que a liderança do meu vice, nosso presidente da Câmara, Michel Temer, é muito importante para garantir que haja esse enfoque.

 

MINISTÉRIO

Não quero anunciar fragmentado. Não sou doida para dizer para vocês que é dia 18 de qualquer mês, a tantas horas. Se eu anunciar uma hora depois, vocês vão falar assim: presidente eleita adia o seu lançamento por uma hora. Não. Quero anunciar os nomes com muita tranquilidade e vocês serão os primeiros a saber. Até porque eu sei perfeitamente que eu dependo de vocês para que a população saiba. Não tenho nenhum nome e não cometeria jamais a temeridade de lançar nomes individuais.

 

PAC

Quando fizemos o PAC 2, no PAC 1 nós sempre colocávamos as variáveis macroeconômicas. No PAC 2, tem as variáveis econômicas. Nas variáveis econômicas nós estamos trabalhamos com um superávit primário de 3,3% do PIB, inflação no centro da meta em 4,5%, com dívida líquida sobre PIB cadente, caindo de 42%, 41% para 38%, e é esta queda que nós fizemos, para fazer a consistência do PAC 2. Nós usamos com todas essas variáveis e trabalhamos com (crescimento do) PIB de 4,5%. Não trabalhamos com PIB absurdo, que pode chegar até 5%, ou 5,5%. Não é o de 7,5% que pode dar este ano, ou de 8%.

 

DÍVIDA X PIB

Significa a possibilidade com uma relação dívida líquida sobre PIB, de uma convergência da taxa de juros brasileira que nós praticamos aqui com as taxas de juros internacionais. Todo mundo fala em 2%, porque seria mais ou menos essa a taxa de juros consistente, mas não necessariamente. Aí são essas variáveis que informam e não as taxas de juros que informam essa variáveis, senão não seriam estáveis. Significa que se o PIB cresce mais, como ele é o denominador da equação, a relação dívida PIB cai mais. Vocês tem um círculo virtuoso, quanto mais o PIB crescer e a dívida cair, mais rápido você chega a um quadro de estabilidade que permite reduzir cada vez mais a taxa de juros.

 

SAKINEH

Eu sou radicalmente contra o apedrejamento da iraniana. Eu não tenho nenhum status oficial para fazer isso, mas externo aqui, perante vocês, que eu acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh, mesmo considerando os usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro o apedrejamento da Sakineh.

 

SOMBRAS NO GOVERNO

Eu não aconselho sombras. Tirante o sol, aquele sol bem violento que às vezes atinge o país, a gente sabe aqui, aqui, nessa época de verão, tem um sol bárbaro. Aí, eu sou completamente a favor de sombras, protege a pele. Agora, quanto às demais sombras, eu não acho que elas sejam compatíveis. Nós vivemos em um regime presidencialista, os ministros têm que ser competentes, é isso que eles têm que ser, não sombras.

 

AJUDA A PAÍSES

Mas sem sombra de dúvida (o Brasil vai continuar ajudando países mais pobres)! Até porque o Brasil, progressivamente, está virando uma potência regional.

 

POLÍTICA EXTERNA

O diálogo continua com todos os países do mundo, e não só com Teerã. Nós não temos nenhuma política de agressão, de violência. Nós defendemos a paz. Aqueles que dialogarem conosco em paz serão recebidos em paz.

 

LUTA CONTRA A DITADURA

Nós somos de uma geração que lutou em um momento muito específico do Brasil que até, vocês que são mais novos não viveram, porque a gente, quando vive... Por exemplo, por que eu tenho um valor muito grande na questão da democracia e da liberdade de imprensa, de opinião, de expressão? Porque eu sou de uma época em que a liberdade de imprensa era, extremamente subversiva, a liberdade de opinião era extremamente subversiva. Uma peça de teatro, a "Roda Viva", era o cúmulo da subversão. "Liberdade, liberdade", então, era... A gente olha hoje a peça "Liberdade, liberdade" e vê como ela era, como ela tinha até um grau de ingenuidade. Coisas que todos nós hoje achamos absolutamente naturais não eram naturais. Quando eu cheguei, aos 16 anos, a entender um pouco o que estava acontecendo no meu País. Então, essa geração, ela sofreu uma coisa terrível, que é a restrição do caminho. O caminho da gente era encurtado, muito pequeno. Você não tinha grandes horizontes, você tinha um "horizontezinho", pequeno, porque a ditadura faz isso contigo. E eu acho que nós temos um mérito: nós lutamos, com a cabeça que a gente tinha e com as condições que a gente tinha. Nós lutamos contra a ditadura. Se a gente cometeu erro ou não, a história dirá. Eu, pessoalmente, acho que a gente não tinha a menor chance de ganhar, a menor chance de transformar o Brasil. Do meu ponto de vista, essa geração também teve outro mérito: ela participou da luta pela redemocratização do primeiro ao último dia. E, nesse processo, não só ela transformou o Brasil, como ela se transformou, e eu sou dessa geração. Então, é um momento importante para essa geração, perceber que só na democracia é possível que uma pessoa dessa geração - ainda mais mulher, porque tinha um baita preconceito contra nós, mulheres - chegasse onde eu cheguei, sendo eleita Presidente da República. É mérito da minha geração? É, mas é maior mérito ainda do processo democrático que se implantou no Brasil.

 

DIREITOS HUMANOS

Eu tenho uma posição bastante intransigente no que se refere a direitos humanos. E essa posição intransigente se reflete no plano da diplomacia como uma posição também de opção clara, clara, por uma manifestação que conduza a uma melhoria dos direitos humanos. Não necessariamente é estrondosa. Muitas vezes você, para conseguir melhoras nos direitos humanos, você tem de negociar. Isso nós fizemos...

 

MST

Eu quero te dizer o seguinte: índice de produtividade, no nosso governo, o presidente pediu para a Embrapa fazer uma avaliação e definir o que a Embrapa considerava tecnicamente correto. Eu vou pegar esses dados e vou avaliar. No que se refere ao MST, eu sempre, em todas as oportunidades, neguei-me a tratar o MST como caso de polícia. O MST não é um caso de polícia. No meu governo, eu não darei margem para Eldorado dos Carajás, porque isso também é uma questão de direitos humanos. Agora, eu não compactuo com ilegalidade, nem com invasão de prédios públicos, nem com invasão de propriedades que estão sendo produtivamente administradas. Agora, eu considero que o MST... Primeiro, eu considero que a reforma agrária, nós temos terras suficientes neste país para continuar fazendo reforma agrária. E acho que a nossa política de agricultura familiar, que definiu o Luz para Todos, o crédito, que garantiu para o agricultor uma compra dos seus produtos através do programa, o Programa de Aquisição de Alimentos, e os 30% da merenda escolar, é fundamental para você garantir para o assentado e para o produtor familiar renda monetária. Nós temos que fazer uma revolução no campo, no sentido de transformar os agricultores em proprietários, fazer com que seus filhos tenham acesso à educação de qualidade.

 

Por isso, resolver o problema dos sem terra é criar milhões de pequenos proprietários que farão com que o tecido social ali, no setor rural brasileiro, seja cada vez mais democrático. Agora, para isso o produtor tem que ter renda, ele tem que receber rendimento, ele tem que perceber que ele melhorou de vida, que ele hoje pode garantir para o seu filho... Eu vi um depoimento fantástico, em que o agricultor dizia o seguinte: "eu sei que a gente não planta alimento no asfalto, nem nos edifícios, portanto, você planta e colhe aqui. Agora, para plantar e colher aqui, e para fazer com que meu filho se forme em veterinária ou como agrônomo e volte para cá e traga riqueza aqui, para a minha região, eu tenho que ter educação de qualidade." E é isso que eu vou também buscar assegurar.

 

TREM-BALA

É absurdo achar que o trem-bala não precisa ser feito. Nos anos 80, isso, essa conversa vigorou para metrô. Diziam o seguinte: "o Brasil não pode gastar em metrô porque metrô é muito caro e, além de ser muito caro, tem outra alternativa, como os corredores e como o transporte urbano por rodas". Com isso, nós somos um dos países que atrasou o investimento em metrô. A mesma coisa eu repito: o trem-bala, em um país continental, mas com grande densidade populacional no Sudeste e na região Sul, Sul-Sudeste, que é compatível com o trem-bala, são um absurdo as políticas que são obscurantistas, que consideram o trem-bala um absurdo. Primeiro, porque o investimento do trem-bala é feito pela iniciativa privada, e o financiamento a eles não concorre com o investimento em metrôs, porque metrô só segura sendo público. o trem-bala é financiado para o setor privado. Não concorre com recursos públicos.

 

GUERRA CAMBIAL

Todos os países que não são a China e os Estados Unidos, percebem que há uma guerra cambial. E eu quero dizer para vocês: em uma situação dessas, não tem solução individual. Nunca houve. Todas as vezes em que tentaram solução individual é... Você pode ter medidas de proteção do seu país. Mas quando começa uma política de desvalorização competitiva... A última vez que houve, deu no que deu. O que foi no que deu? A Segunda Guerra mundial.

 

NORDESTE

Eu tratarei a Sudene e o Denocs como braços de desenvolvimento do Nordeste, região com a qual eu tenho grande compromisso.

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