'Lava Jato suíça' não será desmontada, afirma MP em Berna

Grupo com procuradores, especialistas, investigadores e técnicos forenses será mantido na Suíça, apesar das mudanças no Brasil

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2017 | 13h55

Se no Brasil a Polícia Federal extinguiu o Grupo de Trabalho da Operação Lava Jato, criado para atuar exclusivamente nas investigações do mega esquema de corrupção na Petrobrás, a Suíça confirma que a força tarefa que ela criou no ano passado para investigar a corrupção envolvendo o Brasil será mantida e aponta que espera poder continuar a cooperar com os procuradores brasileiros. 

Em três anos de trabalho, os procuradores suíços congelaram mais de mil contas relacionadas com a Lava Jato no Brasil, confiscaram mais de US$ 1,1 bilhão e já devolveram aos cofres públicos brasileiros cerca de US$ 190 milhões.  

Mas, à medida que a investigação avançava e diante da proporção que ganhava o caso, os suíços foram levados a ampliar a equipe de investigadores. O escritório do procurador-geral, Michael Lauber, confirmou que a força-tarefa criada na Suíça para investigar a corrupção no Brasil envolve mais de uma dezena de pessoas. "O processo da Petrobras é complexo e é conduzido por uma força tarefa que consiste de vários procuradores em várias localidades", indicou o MP, ainda no ano passado.

A força-tarefa suíça inclui analistas forenses, analistas de tecnologia da informação, especialistas em lavagem de dinheiro, advogados e especialistas em corrupção internacional. Segundo o MP, a força-tarefa ainda é reforçada pela presença da Polícia Federal suíça, além do Escritório Federal de Justiça. Não existe, porém, qualquer plano para desfazer o grupo e Berna. 

Em um comunicado enviado ao Estado nesta sexta-feira, o Escritório do Procurador Geral da Suíça afirmou que "tomou nota" da "reorganização" ocorrida no Brasil com a Lava Jato e que sua iniciativa será a de manter a força-tarefa em Berna. Mas deixou claro que quer continuar a cooperar. "O Escritório está confiante de que, baseado em um entendimento mútuo sobre a importância de combater crimes econômicos internacionais e lavagem de dinheiro, a atual cooperação entre as autoridades do Brasil e Suíça continuará a gerar resultados concretos", indicou. 

"Chave para isso é a cooperação internacional em andamento, em especial em processos complexos", disse. "Graças a essa cooperação, ativos foram desbloqueados com o consentimento do dono da conta e acordos foram feitos para que os ativos pudessem ser retornados às partes que sofreram perdas", apontou, numa referência aos entendimentos para a devolução de dinheiro do ex-diretores da Petrobras que chegaram a acordos de delação premiada. 

Em Berna, o procurado Stefan Lenz se ocupava principalmente das ramificações do caso envolvendo a Odebrecht. Mas uma disputa com a cúpula do MP sobre as condições de trabalho diante do acúmulo de serviço levou Lenz a pedir sua demissão a partir de janeiro de 2017. Já em Lausanne, foi o procurador Luc Leimgruber quem se ocupou da Petrobras. Ambos lançaram apelos para que outras jurisdições também passassem a colaborar, como no caso do Panamá, Holanda e Liechtenstein. 

Em pouco mais de um ano e meio, os dois passaram a exigir o congelamento de dezenas de contas, num processo que envolveu operações em bancos sagrados do sistema suíço, entre eles o J. Safra Sarasin, UBS, HSBC, Julius Baer, Pictet, Lombard Odier e Credit Suisse. 

Junto com o congelamento também vieram milhares de páginas de extratos e constatação que teriam de transferir alguns dos casos ao Brasil. Esse foi, por exemplo, o caminho adotado para o processo criminal que existia sobre Cunha na Suíça e que foi integralmente enviado ao MP brasileiro. Berna, naquele momento, optou por abrir mão de processar o ex-deputado. Mas entregou aos procuradores brasileiro um caso praticamente pronto, inclusive revelando o padrão de compras de sua família. "Tivemos apenas de traduzir", contou ao Estado um procurador em Brasília.  

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