Lava Jato não pode pautar o País, diz Lula

Em périplo por Brasília, ex-presidente pede apoio para o governo Dilma sair da crise

VERA ROSA, RICARDO DELLA COLETTA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2015 | 02h05

Em reunião realizada ontem com senadores do PMDB, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a situação do País exige "desprendimento" político e pediu apoio à presidente Dilma Rousseff. Um dia após conversar com parlamentares do PT, Lula fez um movimento para reaproximar o PMDB do governo e disse ser preciso impedir que investigações da Polícia Federal, como a Operação Lava Jato, "contaminem" a política e a economia.

"A Lava Jato não pode ser a agenda do País", insistiu o ex-presidente, em café da manhã na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Em um gesto que causou surpresa, Lula pediu a Renan que "releve" os problemas com Dilma, "fique mais perto" e ajude o governo a sair da crise. Desde que teve o nome incluído nas investigações da Lava Jato, Renan tem criado dificuldades e imposto derrotas ao Planalto em dobradinha com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), outro alvo da PF.

Depois de criticar publicamente a administração de Dilma, que definiu como "governo de mudos", Lula agora tentou jogar água na fervura em conversas mantidas em Brasília desde segunda-feira. Para um senador do PMDB, "ele viu que, chutando o pau da barraca, a barraca cairia na cabeça dele".

Mercadante. Pouco antes do café da manhã com os senadores do PMDB, Lula se reuniu com o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, num hotel de Brasília. O encontro foi mantido sob sigilo. A assessoria do Instituto Lula negou a reunião, confirmada pela reportagem.

O ex-presidente está preocupado com os desdobramentos da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC. De uma só vez, o empreiteiro atingiu as campanhas de Dilma, Lula e Mercadante. Não foi só: disse que Edinho Silva, então tesoureiro do comitê da reeleição e hoje ministro da Comunicação Social, teria ameaçado a UTC com o fim dos contratos na Petrobrás, caso não recebesse doações para a campanha. Todos negam as acusações.

Em conversas reservadas, Lula defendeu mais de uma vez a substituição de Mercadante por Jaques Wagner, atual titular da Defesa, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que, na sua avaliação, não controla a PF. Ainda ontem, em Washington, Dilma foi questionada sobre o assunto e disse que não demite nem nomeia ministro pela imprensa.

Na segunda-feira, em reunião com deputados e senadores do PT, Lula afirmou que os petistas não podem ser ingênuos nem lavar as mãos diante do governo Dilma. "Não existe PT sem governo nem governo sem PT", argumentou. Ele lembrou que até integrantes do Ministério Público admitiram que a Lava Jato pode chegar perto da eleição presidencial de 2018.

"Todo vazamento é contra o PT. O que eles querem é ver Dilma e o PT sangrarem até lá", afirmou Lula, diante da plateia petista. Com um discurso que contrariou pronunciamentos anteriores, o ex-presidente disse que o ajuste fiscal é "página virada" e que os petistas precisam divulgar as "realizações" do governo.

"O Plano Nacional de Educação é muito bom. Só que ninguém conhece", provocou Lula. "Nós precisamos olhar para a frente. Temos que esquecer esse discurso do ajuste e passar para a defesa do crescimento, da retomada do emprego e do controle da situação econômica do País", emendou o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE).

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