Laudo da PF aponta que Renan operava com 'laranjas'

O documento cita a ligação de Renan com seu primo Tito Uchôa em retiradas de 'valores elevados de dinheiro'

ROSA COSTA, ANA PAULA SCINOCCA E VANNILDO MENDES, Agencia Estado

22 de agosto de 2007 | 19h17

A denúncia de que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), operava com laranjas é apontado no laudo pericial da Policia Federal entregue na última terça-feira ao Conselho de Ética da Casa.  Veja também:  Cronologia do caso Renan    Denúncias contra Renan abrem três frentes de investigação Veja especial sobre o caso Renan Laudo da PF derruba argumentos de defesa de RenanPerícia da PF agrada aliados e adversários de Renan Calheiros O documento cita a ligação de Renan com seu primo Tito Uchôa na locadora Costa Dourado Veículos Ltda. Tito e Bianca Uchôa Lopes aparecem como sócios da empresa. Mas quem fazia a retiradas dinheiro em valores elevados era o senador na maior parte das vezes.O usineiro e ex-deputado João Lyra (PTB-AL) já havia acusado Tito Uchôa de ser um dos laranjas de Renan nas operações de compra de um jornal diário e de duas emissoras de rádio. O salto nos negócios de seu primo, que passou de empregado da Delegacia Regional do Trabalho, com salário de R$ 1.390,00, para empresário em vários ramos de atividade, é um dos indícios mais consistentes das denúncias contra o senador. Os peritos da PF chamam Uchôa de "o super-laranja".Eles afirmam não existir nenhuma dúvida de que o primo é o testa de ferro do presidente do Senado. No caso da locadora, a Polícia Federal chama de "contratos de mútuo" os empréstimos de fachada concedidos pela locadora a Renan.  Em agosto de 2005, o senador fez um empréstimos de R$ 178,10 e deu à empresa duas notas promissórias de R$ 214,8 mil e 294,5 mil. A data dos vencimentos seria março e outubro de 2007, com os respectivos encargos. Esses valores não foram informados na declaração do Imposto de Renda de Renan Calheiros. 'À disposição' Renan disse nesta quarta-feira estar à disposição do Conselho de Ética e que deporá nesta quinta. "Informo ao plenário que estou me colocando à disposição dos três relatores para amanhã prestar esclarecimentos definitivos".  O presidente do Conselho de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), havia dito que Renan tinha até a próxima segunda-feira o prazo para se defender da acusação da primeira representação movida contra ele. Nessa representação, Renan é suspeito de ter tido suas contas pessoais pagas pelo lobista da Mendes Júnior, Cláudio Gontijo.  A convocação foi feita logo após a comissão ter recebido o resultado da perícia da Polícia Federal, sobre os documentos apresentados por Renan para justificar disponibilidade de recursos para pagar suas despesas pessoais. O corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), deve encaminhar ao Conselho de Ética ainda nesta quarta requerimento de convocação de uma acareação entre Renan Calheiros e o usineiro alagoano e ex-deputado João Lyra, que afirma tem comprado, em parceria com o senador, duas emissoras de rádio em Alagoas em nomes de laranjas.  'Pontos favoráveis'  Em um discurso de um minuto, Renan  enumerou os pontos que lhe são favoráveis no laudo pericial feito pela Polícia Federal dos documentos que ele apresentou ao conselho para tentar prova que recebeu R$ 1,9 milhão com venda de gado de suas fazendas nos últimos quatro anos.  Renan  informou que teve acesso a uma cópia do laudo e que a perícia da PF "sustenta as afirmações" que ele vem fazendo "desde o início deste doloroso processo." Renan  afirmou que ficou claro que todos os documentos contábeis que apresentou são autênticos, que o gado foi vendido a preço de mercado e que o dinheiro das vendas foi deposito na sua conta bancária.   Laudo  O laudo aponta inconsistências na evolução patrimonial de Renan, sobretudo em 2005, e não prova, como ele queria, que saiu de seu bolso o dinheiro para pagar a pensão da jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tem uma filha fora do casamento.  Os saques, que ele apresentou como prova, não batem com os valores nem as datas de entrada de dinheiro na conta de Mônica. Conforme os peritos, não há uma só prova da transferência direta de Renan para Mônica, como um cheque ou valor retirado da sua conta e depositado ou transferido diretamente para a conta da jornalista.  O dinheiro que o parlamentar diz ter destinado a Mônica não tem conexão com os valores que ela alega ter recebido, em envelopes mensais, das mãos do lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Além disso, segundo o laudo, os papéis entregues pela defesa não são suficientes para confirmar a capacidade econômico-financeira de Renan para custear a pensão. Os documentos não provam sequer que Renan vendeu, como alega, 2.200 bois ou faturou R$ 1,9 milhão com atividades rurais em quatro anos. Isso porque ele entregou como provas notas fiscais que não batem com as guias de transporte animal (GTAs) nas quantidades, nos valores ou nas datas.  Os papéis também não comprovam a entrada do dinheiro na sua conta como fruto dos negócios com gado e a quantidade de vacinas indica diferença no tamanho do rebanho. Há "diversas inconsistências verificadas nos documentos", atestam os peritos. A perícia diz que não é possível ter certeza, com base na documentação, de que a quantidade de gado supostamente vendida seja mesmo do senador.  "Devido a diversas inconsistências verificadas nos documentos examinados e, também, por não ter disponibilizado conjunto de documentos que ateste a propriedade do gado", explica.

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