"Laranja" de US$ 2 milhões vai à PF

O laranja de US$ 2 milhões é um alagoano de Santana do Ipanema, tem 49 anos e é motorista de profissão. Há oito anos - com renda média mensal de 2 salários mínimos -, Antonio Melo de Araújo abriu uma conta no antigo Banco Garavelo.A conta do modesto trabalhador captou recursos desviados das obras do Fórum Trabalhista de São Paulo. Foram nove depósitos, o primeiro em setembro de 1993, o último, em janeiro de 1994. A história de Araújo era um desses segredos bem guardados que o sistema financeiro produz. Passou incólume até o início da semana, quando a Polícia Federal (PF) pôs o pessoal na rua para esclarecer de vez uma história intrigante que apontava para um grupo de elite da corporação. Assustado com o cerco, o motorista que movimentou uma fortuna decidiu se apresentar à PF. Saiu de casa - uma pequena construção de alvenaria no Jaçanã, periferia norte da cidade -, às 9 horas e encontrou-se com o advogado Carlos Augusto Vieira de Morais, que o acompanhou.Ao delegado Sílvio Sidney Crotti, confessou ter "emprestado" o nome para a conta do Garavelo, a pedido de um ex-diretor do banco cujo nome diz não se recordar ao certo - Nivaldo ou Rivaldo. Ganhava o equivalente a quatro salários mínimos por mês em troca da conta - o dobro do que ganhava numa empresa de informática. Araújo afirmou que "não fazia a menor idéia" sobre a origem dos depósitos - rastreamento do Banco Central (BC) revela que a conta do laranja foi abastecida com parte da verba que o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) repassou ao Grupo Monteiro de Barros, holding que controla a Incal Incorporações - contratada pelo juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto para construir o Fórum.O empresário Fábio Monteiro de Barros Filho, presidente da Incal, está preso desde 13 de março. Hoje, o juiz Casem Mazloum concedeu prisão domiciliar ao vice-presidente da Incal, José Eduardo Teixeira Ferraz, outro envolvido no escândalo do TRT. Ferraz está doente. Barros Filho recebeu R$ 92 milhões do Tesouro, em valores atualizados para abril de 1999. Parte desse montante - equivalente a US$ 2,081 milhões - foi parar no Garavelo, uma instituição financeira que funcionava no 25º andar do prédio 425 da Rua Líbero Badaró.Em julho de 1994, o então presidente do BC, Pedro Malan, assinou o Ato 0/45, decretando a liquidação extrajudicial do banco.O primeiro depósito no Garavelo foi no valor correspondente a US$ 298 mil. O segundo foi o maior - US$ 895 mil. O último, em janeiro de 1994, foi de US$ 97 mil. Da conta Garavelo, os recursos desviados do Fórum Trabalhista seguiram outros caminhos, ainda não descobertos pelo BC. Para identificar laranjas e doleiros do esquema do TRT, a Procuradoria da República recorreu aos números de Cadastro de Pessoa Física (CPF). Nas declarações que apresentou à Receita, Araújo forneceu como endereço residencial uma casa espaçosa na Rua Brigadeiro Mello, 215, no bairro do Pacaembu, zona oeste de São Paulo.Nesse mesmo endereço, de 1992 a 1993, a PF montou um escritório de inteligência em parceria com o DEA (a polícia dos Estados Unidos que se dedica ao combate do tráfico internacional de drogas). A coincidência do endereço tirou Araújo do anonimato. A base secreta era dirigida pelo delegado Roberto Precioso Júnior. Reconhecido como policial combativo, Precioso é quase unanimidade na PF. Em dezembro, depois de quase oito meses de fuga, Nicolau rendeu-se exatamente a Precioso Júnor, numa pequena cidade na fronteira com o Uruguai.Disposta a preservar a imagem de "um de seus ícones", a PF resolveu investigar o laranja. Araújo contou que, na década de 80, trabalhava para a Adespro Informática. Como motorista, era encarregado de levar documentos da empresa ao Garavelo. "Eu era uma espécie de mensageiro", conta. "Mantive relacionamento pessoal com um dos diretores (Nivaldo ou Rivaldo); um dia, ele pediu-me para abrir a conta em meu nome."Segundo ele, o diretor disse que precisava fazer "movimentações financeiras" na instituição. "Assinei talões de cheque em branco e promissórias, mas nunca soube dos valores." Em 1986, a empresa alugou a casa do Pacaembu e permitiu a ele que morassse nos fundos do imóvel com a família. Quatro anos depois, a Adespro mudou de local.O motorista alugou uma casa em Osasco, na Grande São Paulo, mas, perante a Receita Federal, continuou usando o endereço antigo - a casa do Pacaembu. A PF só chegou à Rua Brigadeiro Mello dois anos mais tarde, em 1992."O caso está encerrado; tudo não passou de uma incrível coincidência", define o delegado Gilberto Tadeu Vieira Cézar. A PF não enquadrou o laranja, embora considere que ele violou a Lei de Crimes contra o sistema Financeiro."A papelada vai para a Procuradoria, que está investigando o desvio do Fórum", disse Cézar.

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