SERGIO CASTRO | ESTADAO CONTEUDO
SERGIO CASTRO | ESTADAO CONTEUDO

Lágrimas a quem se pretende tirar da Presidência

Jurista ganha projeção nacional por ‘surtar’ em ato contra Dilma em São Paulo, mas diz que abraçaria presidente se tivesse oportunidade

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2016 | 05h00

A jurista Janaina Paschoal chorou pela mulher que ela ainda pretende derrubar. Chorou na última pergunta, naquela que se faz sem muita esperança, recolhendo o bloco de notas e levantando da mesa: “O que a senhora diria para a presidente Dilma Rousseff se ela estivesse aqui na sua frente”?

Depois de uma breve pausa, Janaina confessa: “Eu iria abraçá-la. Sei que ela deve estar sofrendo demais. A posição de quem acusa é muito dura. Não gosto desse papel. Acho que ela foi engendrada pelas cobras que estavam ao redor dela. De alguma forma, acho que estou fazendo um bem pra ela”.

Os olhos de uma das autoras do pedido de impeachment marejam ao recordar a boa impressão que a presidente havia causado em uma entrevista à TV Globo, logo após sua primeira eleição. Na ocasião, Dilma disse que o sonho de infância dela era ser bailarina. “Aquilo me deu esperanças. Era uma mulher forte que sonhava em ser bailarina...” Aqui, Janaina se interrompe e chora. Não vai faltar quem procure um truque ou um jogo de cena nesse choro. “Vão me chamar de cínica, não e?”. Ao invés de uma resposta, Janaina ganha outra questão: “E qual foi o seu sonho de infância?”

O que ela respondeu talvez servisse à mais rasteira psicologia de botequim ou impulsionasse centenas de discussões no Facebook ou ainda abrisse uma porta honesta para outras interpretações sobre as motivações da advogada nessa cruzada contra o governo Dilma. O sonho de infância de Janaína era...“Não, não publica isso, por favor”. Um dia, Freud explica. 

Should I run for president? Nenhum meme é maior que a vida. Mesmo quando se trata de um dos melhores memes que a internet já viu: aquele em que Janaina está discursando no parlatório do Largo São Francisco, no centro de São Paulo, e começa a girar a bandeira nacional pelo ar. Sim, aquele em que todo o gestual também se sincroniza direitinho com dois clássicos do Iron Maiden, The Number Of The Beast e The Trooper. “Mas eu gosto mesmo é de Pink Floyd”, diz e cantarola “mother, should I run for president?” (trecho da música Mother, clássico do Pink Floyd). 

Janaina afirma que sua performance não teve a ver com possessão, drogas ou álcool. O que teria acontecido com ela foi o chamado “Efeito Palanque”.

A repercussão, claro, foi sentida no dia seguinte, quando Janaina começou receber mensagens de WhatsApp: “Jana, você está bem?” ou “Jana, fique firme”. Trancada em um tribunal, sem Twitter ou Facebook, Janaina demorou para entender o que estava acontecendo. “Foi um baque, mas não me arrependo. Uma das coisas que eu crítico na Dilma é que ela não demonstra emoção. O mundo caindo e ela parecendo imperturbável. Eu sou mais intensa”.

Religiosa. Janaina tem sim um caráter religioso. Ela não nega. Ao contrário. Combate a ideia de um Estado laico aos moldes do que “os colegas marxistas da universidade” tanto propagam. Na visão dela, um Estado laico não é um estado sem religião, mas um Estado em que “todas as religiões possam conviver em harmonia”.

Na faculdade de Direito da USP, onde leciona, criou uma disciplina chamada “Direito Penal e Religião”. “Meus colegas marxistas não gostam nem um pouco”. Basicamente, Janaina acredita em Deus, Nossa Senhora e em São Jorge. Afirma ir à missa, mas também já visitou centros espíritas, templos evangélicos, terreiros de candomblé e retiros budistas.

O expertise religioso da advogada fez com que ela fosse escolhida para defender o procurador Douglas Kirchner – o mesmo que representou contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Kirchner atuou na investigação que apura suposto tráfico de influência de Lula com a empreiteira Odebrecht). “Não fui chamada por ele em razão da questão política, mas por minha relação com as religiões”. Kirchner é acusado de presenciar uma agressão contra a mulher e nada fazer. Ela teria sido agredida por uma pastora evangélica – que, aliás, teria usado um cipó para marcar as costas de sua vítima. 

Ainda na mesma seara, Janaina deixa transparecer um antagonismo quase religioso em relação à figura de Lula – a quem ele se refere como “a Cobra”. Para ela, toda a repercussão negativa da sua performance não se deve tanto ao fato de ser ela uma das autoras do pedido de impeachment, mas, principalmente, por ela ter atacado o “Deus Cobra, o Deus dos petistas”.

Futuro político. Apesar do conteúdo antipetista, diz não gostar do clima “belicoso” instaurado nas ruas. Jura que prefere não discutir e diz ter parentes petistas. Impossível não perguntar se ela não seria uma tucana disfarçada. Janaína ri e avisa que não tem nada a ver com o tucanato, que acha ele “meio assim, assim”. Convidada por mais de um partido, prefere se manter longe das eleições.

Se ela é de direita? Bom, Janaina é contra a descriminalização das drogas e do aborto. Mas defende as cotas universitárias e não é a favor da diminuição da maioridade penal. Sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo é taxativa. “Pra mim, espírito não tem sexo”. No campo dos direitos humanos, Janaína defendeu publicamente a estudante de direito Mayara Petruso, que, após a primeira vitória de Dilma (2010), postou no Twitter que “nordestino não era gente e tinha que morrer afogado”. “Claro que eu não concordo. Meus avós são pernambucanos. O que eu ponderei é que a garota precisava de orientação.” 

O que não se esperava era ouvir Janaina dizer que não está tão esperançosa em relação à aprovação do pedido de impeachment. Ela considera o seu trabalho e o do jurista Miguel Reale Jr. difícil de derrubar. Questionada sobre outras pedaladas, as chamadas “pedaladas dos governadores”, Janaína confessa que está cansada de ouvir esse tipo de cobrança, ouvir gente querendo saber porque ela não entra com um mesmo pedido de impeachment contra os governadores que teriam cometido o mesmo tipo de crime de Dilma. Janaína se incomoda quando perguntam quanto ela está ganhando para defender o impeachment. “Nada. Estou é perdendo dinheiro. Afinal, quem quer contratar um escritório que está brigando contra um governo?”

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