Lacerda deixa Abin em definitivo

Delegado é investigado por suspeita de comandar esquema de escuta clandestina e pela atuação ilegal de arapongas

Leonencio Nossa, Vera Rosa e Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

30 de dezembro de 2008 | 00h00

Fragilizado por colocar uma tropa de arapongas a serviço da Operação Satiagraha, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Paulo Lacerda, foi exonerado ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após três meses de afastamento da função. Na tentativa de apaziguar a guerra entre a Polícia Federal e a Abin, Lula decidiu manter Lacerda bem longe: vai acomodá-lo em Portugal, no novo cargo de adido policial da embaixada brasileira em Lisboa.Alvo de inquérito da Polícia Federal e do Ministério Público por suspeita de comandar um esquema de escuta clandestina e atuação ilegal de agentes da Abin na Satiagraha, Lacerda já havia sido afastado temporariamente do comando da agência em setembro. Na ocasião, o Estado antecipou que ele não mais voltaria ao comando da Abin.O afastamento foi a alternativa que restou ao governo, na época, depois de denúncia dando conta de que a Abin supostamente grampeara o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, ministros e políticos do governo e da oposição.Uma sindicância do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência concluiu, porém, que Lacerda não cometeu irregularidades durante a Operação Satiagraha. O delegado, no entanto, perdeu as condições políticas para permanecer no posto. Ficou na linha de tiro da briga entre o delegado Protógenes Queiroz - que comandou a Satiagraha e acabou afastado -, a Polícia Federal e os agentes da Abin.Diante dessa constatação, o Planalto achou mais conveniente não esperar outra investigação, nem da PF nem do Ministério Público, para retirar Lacerda da cena política e optou por criar uma "saída honrosa". A nomeação de Lacerda para um cargo sem influência, do outro lado do Atlântico, foi articulada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro.O discurso oficial, porém, é de que a nova função será "estratégica" para o Brasil e a União Européia. Decreto de Lula também criou o cargo para as embaixadas de Washington, Madri e Roma. Atualmente, o serviço diplomático brasileiro conta com apenas sete adidos policiais, a maioria em países vizinhos.Na história recente, muitos presidentes recorreram à "solução Portugal", como é conhecida a transferência de políticos e autoridades para o país europeu. É um "prêmio de consolação? para quem, em momentos de impasse ou falta de função na máquina de Brasília, vira estorvo ou fica desempregado. Dos anos 1990 para cá, vários políticos foram nomeados para a embaixada em Lisboa, como Jorge Bornhausen, Itamar Franco e Paes de Andrade.A nova nomeação de Lacerda também foi uma saída para Lula. Em entrevista em setembro para a TV Brasil, o presidente afirmou que o delegado é um "homem extraordinário que o Estado produziu". O presidente chegou a se irritar quando o Estado publicou reportagem afirmando que Lacerda não voltaria mais ao comando do serviço secreto.Entre os nomes mais cotados para substituir o diretor-geral, um vem de fora - o embaixador Macedo Soares - e dois são do quadro de carreira da agência: Ronaldo Belhan, diretor de Gestão de Pessoal e Luiz Alberto Sallaberry, diretor de Inteligência Estratégica. O diretor interino da Abin, Wilson Trezza, também é cotado.

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