Reprodução/Twitter Kim Kataguiri
Reprodução/Twitter Kim Kataguiri

Kim Kataguiri, do MBL, vira 'traíra' para bolsonaristas após ser contra voto impresso; veja placar

Bolsonaristas atacam o deputado do DEM nas redes sociais após relatório do voto impresso ser derrotado em comissão da Câmara com o seu apoio; no passado, Kim defendia impressão do voto

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 10h39
Atualizado 06 de agosto de 2021 | 16h52

Um dia após a proposta do voto impresso ser derrotada na comissão especial da Câmara, deputados governistas e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro lançaram uma ofensiva virtual contra o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), acusando-o de traição por votar contra o relatório do deputado Filipe Barros (PSL-SP), que tentava o retorno da contagem manual do resultado das eleições e da impressão do comprovante de votação.

Kataguiri se tornou o alvo prioritário das críticas dos bolsonaristas após um vídeo da campanha de 2018, em que o deputado aparece defendendo o voto impresso, foi resgatado e compartilhado por contas de apoiadores do presidente.

"Galera, chegou a hora de falar sobre voto impresso. Hoje, os políticos com mandatos não conseguem mais resistir aos avanços do Judiciário sobre as suas atribuições. Cheios de processos, com rabo preso, têm medo de peitar essa gente que não foi eleita para nada. Se a gente chegar em Brasília, essa palhaçada vai acabar", diz Kataguiri nas imagens.

Editado, o vídeo continua com o momento da sessão da comissão especial em que o deputado alterou a recomendação do DEM aos deputados do partido. Inicialmente, a legenda havia liberado os parlamentares a votar livremente - como fizeram Cidadania e Novo -, mas, formada a maioria contra o texto, mudou de posição.

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP), uma das principais apoiadoras de Bolsonaro na Câmara, compartilhou o vídeo em suas redes sociais, questionando a coerência do deputado.

"O PRINCIPAL discurso do MBL tem sido acusar todo mundo de ser "traidor da direita". Mas, numa votação crucial para o país, o Kim Kataguiri entra de última hora na Comissão e vota CONTRA uma pauta que o MBL dizia defender desde, pelo menos, 2015. O tempo é o senhor da razão", escreveu Zambelli.

A publicação foi compartilhada por outros deputados alinhados com o Planalto, como Otoni de Paula (PSC-RJ). Filho do presidente da República, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) citou a votação de forma indireta, sem mencionar Kim.

Em entrevista ao Estadão, Kataguiri disse que a reação das redes bolsonaristas já era esperada. "É assim que eles funcionam, por meio do assassinato de reputações e de ataques em manada", afirmou. O deputado disse não ter visto o vídeo compartilhado por Zambelli, mas confirmou que a fala contida nele representava seu pensamento no momento da campanha de 2018. "Era um posicionamento sobre o Parlamento ter uma posição altiva do avanço do Judiciário nas prerrogativas do Legislativo".

Ainda ontem à noite, antes da votação, Kataguiri havia declarado que votaria contra o projeto do governo. O deputado disse que foi favorável a ideia do voto impresso até o ano de 2018, mas que mudou de ideia. "Fui a favor até 2018, com receio de que a influência do PT no STF e TSE desse margem para fraude. De 2014 para cá, diversos ministros petistas presidiram o TSE, e o fato é que nunca houve fraude. Pelo contrário: PT levou uma surra em 2016 e 2018", escreveu.

O parlamentar também criticou Bolsonaro por atacar o sistema eleitoral, afirmando que o movimento do presidente prepararia "campo pra golpe". 

"Bolsonaro e sua família se elegeram pelo sistema eletrônico. Agora, com popularidade em queda e investigações avançando, tenta desacreditar o sistema que o elegeu pra justificar a derrota. Isso é preparar campo pra golpe. Apesar do choro e ranger de dentes do gado, o voto impresso será derrotado, os bolsonaristas serão desmoralizados e as eleições ocorrerão normalmente. PS: curioso notar que Bolsonaro não vociferou contra as eleições de 2020, em que ele não conseguiu eleger nem vereador."

Apesar da repercussão, o deputado lembrou que apenas dois dos 23 votos contrários ao texto proposto pelo governo vieram do DEM. "Na prática, quem derrotou o texto foi a base do próprio governo. O governo entrega os cargos e as emendas para o Centrão, o Centrão não entrega os votos sequer para ter voto em papel."

"Choro impresso"

Ao mesmo tempo em que a rede bolsonarista fazia a ofensiva contra o deputado do DEM, um movimento contrário ganhava relevância entre os principais assuntos do Twitter. A hashtag #ChoroImpresso ficou entre os cinco temas mais comentados na rede na manhã desta sexta-feira.

As publicações surgiram como resposta às postagens de parlamentares bolsonaristas sobre a derrota na votação. Enquanto deputados e apoiadores do presidente lamentavam a não aprovação do relatório e comentavam maneiras de aprovar o voto impresso para às eleições de 2022, as postagens irônicas ganharam as redes.

Alguns parlamentares opositores, como o senador Rogério Carvalho (PT-SE), entraram na corrente, publicando uma charge na qual a urna eletrônica aparece no divã.

Veja como os deputados votaram:

Contra

Geninho Zuliani (DEM-SP)

Kim Kataguiri (DEM-SP)

Raul Henry (MDB-PE)

Valtenir Pereira (MDB-MT)

Júnior Mano (PL-CE) 

Márci Alvino (PL-SP)

Edilazio Junior (PSD-MA)

Fábio Trad (PSD-MS)

Rodrigo Maia

Tereza Nelma (PSDB_AL)

Paulo Ramos (PDT-RJ)

Perpétua Almeida (PCdoB-AC)

Marreca Filho (PATRIOTA-MA)

Orlando Silva (PCdoB-SP)

Israel Batista (PV-DF)

Bosco Saraiva (SOLIDARIEDADE-AM)

Arlindo Chinaglia (PT-SP)

Carlos Veras (PT-PE)

Odair Cunha (PT-MG)

Aliel Machado (PSB-PR

Milton Coelho (PSB-PE)

Fernanda Melchionna (PSOL-RS)

Paulo Ganime (Novo-RJ)

Favoráveis

Evair de Melo (PP-ES)

Guilherme Derite (PP-SP)

Pinheirinho (PP-MG)

Bia Kicis (PSL-DF)

Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)

Filipe Barros (PSL-PR)

Aroldo Martins (REPUBLICANOS-PR)

Marco Feliciano (REPUBLICANOS-SP)

Paulo Martins (PSC-PR)

Paulo Bengtson (PTB-PA)

José Medeiros (PODE-MT)

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