Kassab silencia PT com afago a Lula

Dirigentes nacionais do partido veem cessão de terreno para o instituto do ex-presidente com ressalvas, mas vereadores petistas elogiam e diminuem críticas ao prefeito de São Paulo

Diego Zanchetta e Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2012 | 22h30

SÃO PAULO e BRASÍLIA - A bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo reconhece ter ficado em situação constrangedora um dia após o prefeito Gilberto Kassab (PSD) propor a cessão de um terreno público para o Instituto Lula, no centro da capital. Em meio às conversas que podem levar a sigla de Kassab a apoiar o ex-ministro Fernando Haddad na eleição paulistana, os 11 vereadores petistas praticamente deixaram de fazer críticas à gestão ao voltar ao trabalho em ano eleitoral.

 

"Acima de tudo, temos de respeitar a política de alianças que o partido adotou", argumentou ao Estado um constrangido Alfredinho (PT), vereador que sempre fez duras críticas à política de terceirização na saúde adotada pela atual gestão.

 

O afago de Kassab ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi tão bem recebido pelos dirigentes nacionais do PT. Reunida na  quinta-feira, 2, em Brasília, a Executiva Nacional petista não se posicionou oficialmente sobre o assunto, mas, de forma reservada, secretários do partido disseram que Lula não deveria aceitar a oferta do prefeito.

 

A avaliação predominante feita por petistas contrários à aliança com o PSD de Kassab é a de que o negócio dá a impressão de um toma lá dá cá. "Já tem um ano que o prefeito conversa com Lula sobre isso e agora, de forma oportunista, ele aproveitou o momento para parecer que fez acordo com o PT", disse um dirigente do partido.

 

Embora Lula avalie que Haddad pode ter dividendos políticos com um vice indicado por Kassab, nem o candidato nem a direção do PT veem a proposta com bons olhos. O ex-ministro e a maioria dos dirigentes acham contraditório o fato de o PT se aliar a quem sempre fez oposição.

 

Alvo. Esse cenário levou os vereadores do PT a acertar o tom do discurso. Interlocutor do prefeito com a bancada, o líder Ítalo Cardoso foi o porta-voz do grupo sobre a possível aliança com o PSD. Ao declarar que estava "feliz" com o gesto de Kassab em favor do Instituto Lula, o petista centrou fogo no PSDB e no instituto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

"No dia 18 de janeiro de 2007, esse instituto recebeu R$ 500 mil da Sabesp. O Instituto Lula não vai ser financiado por nenhum dinheiro público", provocou Cardoso, único petista a falar em plenário nas duas primeiras sessões do ano.

 

O líder do PSDB, Floriano Pesaro, rebateu o ataque. "O PT, sempre que precisa se defender, usa da arma do ataque. O dinheiro da Sabesp era via Lei Rouanet para uma exposição sobre os 15 anos do Plano Real."

 

A fala de Cardoso foi acompanhada em plenário por apenas quatro correligionários: Alfredinho, Arselino Tatto, Zelão e Chico Macena. Era visível o constrangimento de alguns deles com a possibilidade de aliança com a gestão que criticaram nos últimos seis anos. "Não vamos parar de apontar os erros do prefeito na questão da terceirização na saúde, nas falhas no transporte público. É ele quem vai ter de se adaptar ao nosso programa de governo", disse Alfredinho.

 

Neste início de trabalhos em ano eleitoral, vereadores petistas que assumiram o atual mandato em 2009 na linha de frente da oposição ao prefeito não foram ao plenário, casos de Antonio Donato, presidente municipal do partido, e Juliana Cardoso, que chegou a esticar uma faixa na Casa com a frase "Taxab", quando o prefeito propôs aumento no IPTU.

 

Com isso, ao menos escaparam das piadas dos adversários. O líder do governo Kassab na Câmara, Roberto Tripoli (PV), não perde a chance de ironizar os petistas ao ver um vereador do partido: "E o Lula, hein?"

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