CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO
CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO

Kassab: gestor rejeitado, político forte

Com alto índice de reprovação, prefeito deixa cargo com projetos incompletos, mas como peça importante do xadrez partidário nacional

O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2012 | 18h36

O prefeito Gilberto Kassab (PSD) entregará para seu sucessor uma São Paulo aquém da que planejava no início de seu mandato. Até agora, a administração municipal cumpriu 42% das metas de governo estabelecidas no início de 2009. Dos 223 objetivos traçados na chamada Agenda 2012, 95 foram concluídos, 127 estão em andamento e um não foi iniciado. Projetos e propostas importantes anunciados pelo prefeito, como o fim do déficit de vagas em creches, a Nova Luz, a construção de três hospitais e a implementação de novas Operações Urbanas não saíram do papel.

Em dois meses, Kassab, que assumiu a Prefeitura após a saída de José Serra (PSDB), em 2006, e foi eleito em 2008 com 60% dos votos contra Marta Suplicy (PT), encerrará uma gestão com alto índice de reprovação. Na última pesquisa Ibope, 48% dos paulistanos disseram considerar a gestão ruim ou péssima, e apenas 20% a avaliaram como boa ou ótima.

O prefeito, contudo, termina o mandato politicamente bem maior do que começou. De liderança local iniciante e integrante de um partido em declínio, o DEM, Kassab começará 2013 como um importante “player” da política nacional. Presidente de uma sigla cuja fundação orquestrou, e que passaram a chamar de sua (“o PSD, do prefeito Gilberto Kassab”), comandará a quarta maior bancada da Câmara dos Deputados, alcançou 494 prefeituras ao fim do 1.º turno e poderá ser contemplado com vaga no ministério de Dilma Rousseff.

Ex-vereador, ex-deputado federal e ex-secretário de Planejamento da gestão Celso Pitta (que morreu em 2009), Kassab deixou a condição de político coadjuvante para o papel de protagonista após ser imposto como nome do PFL (atual DEM) na chapa encabeçada por Serra em 2004. Dois anos depois assumiu o Executivo e fez dele uma espécie de trampolim.

Conhecido pelo sangue frio com que move suas peças no xadrez político, o prefeito se equilibra na disputa municipal com o objetivo de não tornar inviáveis seus projetos futuros. No interior do Estado, o PSD firmou alianças com o PT - partido com o qual esteve perto de se coligar na disputa em São Paulo. Na capital, manteve-se firme ao lado de Serra, seu padrinho político.

Mesmo fora da Prefeitura a partir de 2013, Kassab deverá ter influência na Câmara Municipal, independentemente do vencedor pela disputa da Prefeitura.

 

Paradoxalmente, a cidade que deixará em 1.º de janeiro não traduz seu crescente capital político. Em várias áreas, Kassab deixou de alcançar as principais metas.

Na educação, por exemplo, o prefeito não conseguiu cumprir a promessa de zerar o déficit de creches, um de seus principais compromissos de campanha em 2008, que acabou se tornando uma meta menos ambiciosa na Agenda 2012.

Das cinco principais diretrizes traçadas na área educacional, somente duas foram concluídas: o ciclo de nove anos e a jornada de sete horas no Ensino Fundamental.

Na saúde, área considerada prioritária pelos eleitores, Kassab não conseguiu tirar do papel os três hospitais prometidos: Freguesia do Ó, Cidade Dutra e Carrão. A construção não foi nem iniciada.

Por outro lado, ele ampliou a rede de unidades de Atendimento Médico Ambulatorial (AMA), criada em 2005, ainda na gestão Serra, e as unidades de Atendimento Médico de Especialidades (AME). Hoje são 120 AMAs, que fazem atendimentos de baixa complexidade: cinco delas inauguradas no mandato atual e a maior parte, 96, criada entre 2006 e 2008. O número de AMEs subiu de 5 para 19 no mandato atual, o que contribuiu para desafogar um pouco um dos principais gargalos do sistema, a fila por consulta com especialistas.

O prefeito que se move com facilidade em toda a amplitude do espectro partidário, do governo à oposição, não conseguiu fazer a mobilidade urbana andar. De todos os setores contemplados pela Agenda 2012, o transporte é o que tem menos promessas cumpridas. A meta de investir R$ 300 milhões no Rodoanel, por exemplo, foi a única a não ser sequer iniciada.

Apesar de ter prometido construir 66 km de novos corredores de ônibus, concluiu apenas os 8,5 km do Expresso Tiradentes, corredor suspenso que liga o Parque Dom Pedro ao Sacomã - trata-se do antigo Fura Fila de Pitta. O projeto do corredor de 31 km na Avenida Celso Garcia foi abandonado logo no começo da gestão, dando lugar a um possível projeto de monotrilho. Já outros corredores, como Radial Leste e Berrini, ainda estão em fase de licitação de obras.

Apesar de a Prefeitura apresentar como cumprida a meta de construir 100 km de novas vias para ciclistas, a conta inclui ciclofaixas que só funcionam nos fins de semana.

Por outro lado, Kassab foi o primeiro prefeito em 30 anos a investir no metrô - custeado, nas últimas décadas, pelo governo do Estado. Até o momento foram R$ 975 milhões.

 

Na área de habitação, marcada pelo escândalo da evolução do patrimônio do diretor do Departamento de Aprovações da Prefeitura (Aprov), Hussain Aref Saab, e pela expressiva valorização dos imóveis na capital, a gestão não conseguiu debelar o déficit de moradias. Segundo o Censo, são 130 mil famílias desabrigadas, além de 800 mil em áreas de risco, precárias ou terrenos irregulares.

Também na área de urbanismo, Kassab tentou levar adiante o projeto Nova Luz, plano de revitalização do centro, que acabou estagnado. O projeto foi embargado pela Justiça diversas vezes - três desde dezembro.

Das 13 metas na área de assistência social, Kassab cumpriu sete. A de maior impacto foi a construção de 14 tendas para oferecer serviços de higiene pessoal e lazer a moradores de rua e usuários de drogas no centro. Por outro lado, a Prefeitura fechou 15 Centros de Referência da Criança e do Adolescente (Crecas), especializados em atender a crianças de rua de até 17 anos, por faixa etária. Sem eles, as crianças retiradas da rua são enviadas a abrigos que atendem a todos os tipos de menores, inclusive infratores e usuários de drogas.

Kassab chega ao fim do mandato com alta rejeição e sem uma marca de governo como o Cidade Limpa - o programa que disciplinou a paisagem urbana logo que ele assumiu o lugar de Serra. A imagem de político habilidoso, porém, está fortalecida.

 

*De Eduardo Kattah e Fernando Gallo, de O Estado de S. Paulo, e  Breno Pires, Beatriz Foina e Taisa Sganzerla, especial para o Estado

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