Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Kajuru agora diz que investigar governadores beneficia Planalto e defende duas CPIs no Senado

‘Como vai focar governador, prefeito e governo federal ao mesmo tempo, tudo junto?’, afirma senador, que diz que conversa com Bolsonaro não foi ‘ensaiada’ e nega ser aliado do presidente

Entrevista com

Jorge Kajuru, senador (Cidadania-GO)

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2021 | 18h50

BRASÍLIA – Após defender, em conversa com o presidente Jair Bolsonaro, que a CPI da Covid inclua governadores e prefeitos, o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) admite agora que ampliar os trabalhos da comissão pode beneficiar o Palácio do Planalto. Em entrevista ao Estadão, o parlamentar afirmou que o ideal seria abrir duas CPIs diferentes, uma com foco na atuação do governo federal na pandemia e outra nos Estados e municípios.

“Para apensar as duas (CPIs) com 90 dias (de prazo para concluir os trabalhos) é complicado. Isso aí cheira a beneficiar o governo. Como vai focar governador, prefeito e governo federal ao mesmo tempo, tudo junto? Só se a CPI trabalhar todo dia. Se trabalhar de segunda a sexta, tudo bem, se trabalhar uma vez por semana, não tem jeito”, declarou o senador nesta segunda.

Em conversa telefônica com Bolsonaro no fim de semana, contudo, Kajuru disse ao presidente que trabalharia para ampliar o escopo das investigações para incluir as autoridades locais. “Se não mudar o objetivo da CPI, ela vai só vir para cima de mim... CPI ampla e investigar ministros do Supremo. Ponto final”, afirmou Bolsonaro ao senador. “Eu concordo em dar amplitude”, respondeu Kajuru.

Questionado se a conversa foi “ensaiada”, ele negou e afirmou não ser aliado do presidente. “Isso é ridículo. Eu liguei para me defender”, disse o parlamentar, que contou gravar todas as conversas com políticos. A medida, segundo ele, é uma forma de se proteger.

O senhor que ligou para o presidente?

Eu que liguei para ele. Liguei por questão de honra minha. Ele tinha dado uma declaração de que o Senado todo era contra investigar governadores e prefeitos. E usou a expressão “canalhada” naquele puxadinho que ele vai lá, aquela claquete que ele tem lá. A única hora que ele fala, não dá entrevista, não aceita dar entrevista coletiva. Eu liguei para ele e falei: “presidente, estou ligando porque acho que o senhor foi muito injusto comigo, colocou tudo no mesmo balaio, eu e outros senadores não merecemos esse tipo de declaração que o senhor deu”. E fui falando isso para ele: o senhor não podia fazer isso, colocou todo mundo no mesmo balaio. Aí ele foi falando tudo que você ouviu.

Ele reclamou que não autorizou a gravação. Isso é verdade?

O Brasil inteiro sabe, está lá nos anais do Senado, no dia da posse do Rodrigo Pacheco (presidente do Senado), eu me dirigi a ele e o ao Davi (Alcolumbre) e disse que a partir de agora todo político que eu conversasse eu ia gravar no meu telefone ou na caneta que o (apresentador José Luis) Datena me deu de presente. Eu vou gravar. Por que eu vou gravar? É uma forma de me proteger. Veja o ambiente aqui. O cara fala uma coisa com você no telefone e depois na tribuna fala outra coisa. Eu falei: a partir de agora, não. Se amanhã alguém fizer isso comigo, eu mostro a gravação. “Não foi isso que você falou comigo, não. Você falou comigo no telefone isso aqui”. É uma forma de me proteger porque você sabe como político é.

Bolsonaro sabia que a ligação ia ser divulgada?

Eu liguei para ele às 12h40 (de domingo). A gravação foi colocada no ar às 13h. Eu liguei para ele e avisei que o Alessandro (Vieira, senador de oposição) tinha entrado com requerimento para investigar governadores e prefeitos e avisei que o Eduardo Girão (Podemos-RN) já tinha certeza que ia ter o resultado das assinaturas hoje (para uma nova CPI com foco em governadores e prefeitos). E falei assim: “aquela conversa nossa vou colocar no ar daqui a pouco, 20 minutos”. Aí tudo bem, tchau, desligou, tchau. Vai realmente investigar governadores e prefeitos, claro que vai. Pelo menos da minha parte vai ser independente e sem revanchismo. Se ele falasse para mim às 12h40: “não, Kajuru, não coloca esse papo nosso no ar, não”. Claro que eu não ia colocar. Ia guardar. Caso amanhã ele falasse alguma coisa contrária, eu ia falar: “não, presidente, desculpa, não foi o que o senhor falou, não, está aqui. O senhor sabe que eu gravo. Eu falei na tribuna do Senado”.

Algumas pessoas falaram que a gravação foi uma jogada ensaiada entre os senhores.

Isso é ridículo. Eu liguei para me defender. Você ouviu a conversa, que teatro que eu fiz? Primeiro que tem gente que não merece meu respeito. Tem gente que o que mais faz é teatro, que é o Supremo Tribunal Federal. Basta você ver os julgamentos, lá na tem teatro. Que teatro eu fiz? Ouça as conversas. Lá (STF) tem teatro. Eu fui me defender e pedir para que ele fosse justo comigo e não me colocasse no mesmo balaio. Se alguém fez teatro aí foi ele, eu não. Que teatro eu fiz? Ele perguntou para mim: “Você entrou com impeachment contra ministro?” “Entrei”. “Contra quem?”. “Você não sabe?”. “Eu não”. “Alexandre de Moraes”. Tem três meses, o Brasil inteiro publicou, com 3 milhões de assinaturas.

Além da CPI da Covid que mira o governo Bolsonaro, o sr. assinou um pedido para uma nova comissão que inclua governadores e prefeitos. Acredita que elas devem ser juntadas?

Para apensar as duas com 90 dias (prazo de duração da comissão) de CPI é complicado. Isso aí cheira a beneficiar o governo. Como vai focar governador, prefeito e governo federal ao mesmo tempo, tudo junto? Só se a CPI trabalhar todo dia, se trabalhar de segunda a sexta, tudo bem. Se trabalhar uma vez por semana, não tem jeito. As duas juntas há o risco de o governo ser beneficiado. Sai do foco principal. O foco principal é o governo federal e em segundo plano vem governadores e prefeitos. 

O sr. quer que a CPI seja presencial?

Não, de forma alguma, remota. Não tem problema nenhum. São 11 titulares e sete membros. Uma CPI nunca vai todo mundo. Participei das duas últimas CPIs agora no Senado. A primeira da Vale, de Brumadinho, e a segunda da Chapecoense. No máximo vai quatro senadores. Claro que essa a previsão é que o apelo é maior, mas ela pode começar remotamente. Se quiser fazer presencial tem que limitar o número de presentes.

Mas como fazer uma CPI remota se tem que averiguar documentos?

Avaliar documento não passa covid para ninguém, não. Você faz uma avaliação, nesse dia você faz presencial, reúne uma comissão entre os 18 senadores, divide os blocos para não ter só gente do governo e nem só gente da oposição. Faz uma escolha justa, equânime e avalia o documento, pronto, acabou. Ouvir pessoas pode ouvir remoto.

Se for presencial, há o risco do início da CPI demorar?

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que vai ler o requerimento de instalação amanhã, mas há dúvidas sobre o início de fato da comissão. Se ele vai ler amanhã, a partir de amanhã fica aberta para começar a escolher o presidente, relator, os 18 membros e aí já pode marcar para começar.

Mas outras CPIs, como a das Fake News, estão paradas.

Isso é outra coisa. Agora tem uma decisão soberana de um ministro, ministro Barroso determinou a abertura dela, a decisão dele é, como dizia Ulysses Guimarães, lei, cumpra.

Se o STF julgar que a CPI pode começar só quando os trabalhos do Senado voltarem a ser presenciais, não há risco de atraso?

Eu não creio, creio que o Supremo vai acompanhar o (ministro Luís Roberto) Barroso (autor da decisão que mandou instalar a CPI). Só tem dois ministros contra: Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. A maioria vai acompanhar o Barroso e pronto, toca a bola. O próprio presidente não disse na conversa que você ouviu que investigando governadores e prefeitos ele é totalmente favorável? Não falou isso?

Muitos senadores são aliados de governadores.

Eu não sou. Você tem que perguntar para os outros senadores. Eu não sou parente de ninguém, indicado de ninguém, só tenho três amigos na minha vida. Eu, graças a Deus, como diria o Paulo Francis, mantenho distância cética de todos os poderes. Nunca fui na casa do presidente, nunca almocei com ele, nunca jantei com ele. Converso com ele republicanamente e sábado eu exerci esse direito meu. Outros senadores não têm coragem.

Vai fazer parte da comissão?

Depende porque eu sou de um bloco e de um partido com três senadores. Não sei como vai ser essa escolha. Se for partido, só tem três, vai ser escolhido um só. Eu peço que por uma questão de justiça, o Alessandro e eu tínhamos que fazer parte da CPI porque ela só vai existir por causa de nós dois. O mandado de segurança nosso (impetrado no STF) conquistou essa CPI. Não fosse ele, a gente não teria conseguido. 

Bolsonaro disse que era para o sr. fazer parte, que era melhor o senhor do que senador Randolfe.

Ele disse em função de ouvir de mim que eu queria investigar governadores e prefeitos. Aí ele usou aquela palavra: essa “canalhada” do Randolfe e tal, essa não quer. Chamou de CPI sacana. Ele se referiu a mim sabendo que sou independente, que quero governadores e prefeitos também. Ele acha que os outros senadores não querem, por isso xingou todo mundo e jogou todo mundo na mesma vala. Repito: por isso liguei para ele.

Ele chegou a pedir ao sr. para tentar barrar CPI?

Meu telefone está aberto, meu sigilo telefônico está a disposição da Justiça, vê se algum dia ele me ligou pedindo isso. Ninguém tem coragem de pedir, não. Se eu avisei que eu gravo a conversa com todo mundo, você acha que ele teria coragem de ligar para mim para barrar CPI? CPI que eu assinei. Eu sei da minha honra. Eu só tenho três amigos, não converso com ninguém, não janto com ninguém, não saio de casa. Eu sou totalmente diferenciado nesse meio, não tenho conversa. Não faço parte de grupo de “zap”. Eu saí, fiquei uma semana e saí. Tem um grupo de “zap” dos 81 senadores, não participo nem disso. Comigo não tem como chegar, depois que eu fiz o aviso no dia 1º de fevereiro que eu ia gravar todo mundo, evidentemente que quem liga para mim é só senador que tem vida limpa, só deputado que tem vida limpa.

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