Justiça manda desocupar Carajás, mas índios resistem

A Companhia Vale do Rio Doce pediu na Justiça, na última quarta-feira, e obteve liminar (decisão provisória) de reintegração de posse do núcleo urbano de Carajás, no sudeste do Pará, invadido e ocupado há dois dias por cerca de 300 índios xicrins das aldeias Cateté e Djudjeko. No local, vivem e trabalham quinze mil pessoas. Os índios reivindicam mais recursos para investir em sua aldeia por conta de um acordo firmado com a empresa em troca de permissão pela passagem da ferrovia de Carajás por suas terras. Mesmo com a ordem da justiça para a desocupação da área, que inclui a liberação da ferrovia e das locomotivas usadas no transporte de minério de ferro do Pará até o porto de Itaqui, no Maranhão, os índios garantem que não vão sair. Eles condicionam a saída à liberação de dinheiro pela Vale. A empresa acusa os índios de violência e constrangimento contra seus empregados e alega que vem cumprindo o acordo firmado com a tribo, repassando a eles R$ 9 milhões por ano. Índios armadosFuncionários da Vale contaram ao Estado de S. Paulo que os índios chegaram ao núcleo urbano no final da tarde, armados de arcos, flechas e bordunas, divididos em grupos. Os principais pontos da ferrovia foram ocupados e os empregados impedidos de deixar o local. Quem tentou teve seus objetos pessoais tomados pelos índios. O restaurante e a despensa com alimentos foram saqueados. Os índios também se apoderaram de rádios de comunicação e das chaves dos ônibus que levariam os funcionários para suas residências. Mais de 600 pessoas ficaram retidas até as 22 horas da última terça-feira, quando os índios decidiram liberá-las.As atividades na ferrovia e em outros setores da empresa foram suspensas na manhã da última terça-feira depois que os índios impediram a entrada de cinco mil empregados. Dívidas locaisA Vale transporta diariamente 250 mil toneladas de minério de ferro pelos trilhos de Carajás. A direção da empresa anunciou ter ingressado com pedido de apuração do caso na Polícia Federal e Ministério Público Federal. O problema todo estaria em dívidas contraídas pelos índios no comércio de Redenção, Parauapebas e Marabá. Eles compram alimentos e bebidas e estariam devendo mais de R$ 2 milhões, que agora alegam não poder pagar. A solução seria pressionar a Vale e obter mais recursos, além dos R$ 9 milhões que recebem, para quitar os débitos com os comerciantes. A empresa se recusa a fazer o jogo dos índios.

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