Justiça intervém no cartório de Murici

Sem-terra haviam denunciado esquema para favorecer clã Calheiros

Ricardo Rodrigues, MACEIÓ, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2001 | 00h00

O corregedor-geral de Justiça de Alagoas, desembargador Sebastião Costa Filho, nomeou ontem Everaldo Ferreira de Melo como interventor do cartório da comarca de Murici - município a 59 quilômetros de Maceió, sede do clã Calheiros. A intervenção, que tem duração de 90 dias e pode ser renovada por mais 30, foi reivindicada por líderes dos quatro movimentos de sem-terra que na semana passada ocuparam a Fazenda Boa Vista, do deputado Olavo Calheiros, irmão do presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB.De acordo com os sem-terra, a tabeliã Maria de Lourdes Ferreira, afastada do cartório e alvo de processo administrativo na Corregedoria-Geral de Justiça, recebia documentação falsificada e "legalizava" terras griladas na região, de modo a beneficiar a família Calheiros. O prefeito da cidade é Renan Calheiros Filho (PMDB)."Desde 2005 estamos reivindicando intervenção nesse cartório para que sejam apuradas as irregularidades praticadas pela tabeliã", afirmou Carlos Lima, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que participou da invasão com o Movimento dos Sem-Terra (MST), o Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) e o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL)."Depois das denúncias de irregularidades, feitas pelos sem-terra e também por fazendeiros da região, o desembargador Sebastião Costa Filho decidiu pela intervenção no cartório", confirmou Ronaldo Lima, assessor da Corregedoria de Justiça.Segundo Costa Filho, a determinação foi publicada na edição de ontem do Diário Oficial do Estado. A tabeliã foi afastada da função, sendo substituída por Everaldo Ferreira de Melo. O pedido de intervenção contou com o apoio do juiz Sóstenes de Andrade, que revelou a existência de outros dois processos contra Maria de Lourdes. O afastamento da tabeliã foi a principal condição imposta pelos sem-terra para desocupar a Boa Vista, que tem cerca de 528 hectares e fica na zona rural de Murici. Na invasão, eles mataram gado e fizeram churrasco. No Dia do Trabalhador Rural, participaram de marcha na cidade e advertiram que, se não houvesse a intervenção no cartório, iriam invadi-lo.Durante a invasão, os sem-terra acusaram Olavo de grilar terras no município, com o apoio de funcionários do cartório. O grupo deixou a fazenda entre a noite de sexta-feira passada e a manhã de sábado, um dia depois da decisão judicial que determinou a reintegração da propriedade. O irmão de Renan, que nega envolvimento com grilagem, acusou os sem-terra de ter praticado atos de vandalismo, mas não divulgou o valor do prejuízo. Maria de Lourdes também nega as acusações. Ela terá direito à defesa quando for ouvida na Corregedoria-Geral de Justiça.

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