Justiça Federal decreta prisão de 19 doleiros

PF suspeita que organização fazia evasão e lavagem e cumpre também 28 ordens de buscas

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

A Justiça Federal decretou a prisão de 19 investigados pela Operação Harina - inquérito sobre suposto esquema de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e crimes financeiros envolvendo organização criminosa formada por seis grupos de doleiros interligados que agiam no Brasil e no Uruguai. A pedido da Polícia Federal e da Procuradoria da República, a Justiça também autorizou buscas em 28 endereços de suspeitos nas cidades de São Paulo, Santos, Porto Alegre e Três Lagoas (MS). Agentes da Interpol fizeram detenções em Montevidéu.A PF mobilizou 28 equipes para executar a operação, desde 6 horas da manhã de ontem. O comando da missão ficou a cargo da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (Delefin). Segundo a PF, a organização utilizava empresas fantasmas e sucessivas operações fictícias de compra e venda, para a realização de importações com valores subfaturados.Os grupos realizavam, diariamente, operações conhecidas como dólar cabo - nas quais não há saída física da moeda, mas apenas um sistema extraoficial de compensação entre doleiros e clientes. A PF informou que o nome Harina foi escolhido "em razão de os produtos descaminhados serem provenientes da Argentina". Os federais identificaram os movimentos da organização em outubro de 2008, a partir de interceptações telefônicas autorizadas judicialmente.Não há ainda uma estimativa precisa sobre o montante que os doleiros enviavam ilegalmente para o exterior. O principal investigado é o uruguaio Ricardo José Fontana Allende.Segundo a procuradora da República Karen Louise Jeanette Kahn, a organização é estruturada, com hierarquia definida. "Agiam em duas frentes, utilizando-se do uso do dólar cabo e da importação de farinha da Argentina", informou a procuradora federal.Um dos investigados, Jacques Bernardo Leiderman, já teve a prisão decretada em outra operação da PF, mas ontem ele conseguiu escapar, segundo revelou a procuradora Karen Louise. "Um dos grandes protagonistas dessa investigação conseguiu fugir, mais uma vez ele driblou a ação da Justiça. Isso é desalentador, inclusive para a própria Polícia Federal, que, uma vez mais, emprega toda a sua energia, tempo e recursos em coisas que já podiam estar resolvidas. Isso mostra que o sistema penal processual brasileiro não intimida de forma severa esse tipo de crime. É uma constatação."Karen admite frustração. "A culpa não é da Justiça de primeiro grau, e nem estou falando dos tribunais. A culpa é de todo um sistema que não prestigia a importância da prisão preventiva para crimes financeiros. Se aplicassem um outro enfoque para delitos dessa ordem, considerando inclusive a capacidade intelectual e a formação desses investigados, talvez eles não fossem tão audaciosos. São criminosos diferenciados, não são ladrões de pente de loja popular. No dia que se passar a perceber que violadores do sistema financeiro realmente representam uma potencialidade lesiva, quem sabe vamos gastar menos papel e menos dinheiro. Aí sim vamos ter uma Justiça mais eficaz."

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