Justiça condena seita que destruiu obras de arte

Por ter destruído a marretadas dois totens de madeira e fibra de vidro representando orixás, do artista plástico baiano Juarez Paraíso, a seita evangélica Renascer em Cristo foi condenada pelo juiz João Augusto Pinto da 8ª Vara Cível de Salvador a pagar uma indenização de 170 salários mínimos (R$ 34 mil) ao autor. Pinto entendeu que houve discriminação religiosa e intolerância na atitude dos adeptos da seita.As peças decoravam a entrada dos cines Art I e II, adquiridos pela seita há dois anos para serem transformados em templos da entidade. Uma das primeiras providências dos pastores foi mandar destruir os totens e escrever no trecho da parede onde estavam fixadas as obras a frase "Deus é fiel".Exultante com a decisão, Paraíso disse que pela primeira vez a Justiça reconhece que uma obra de arte continua a pertencer ao autor mesmo que ele a venda. "Criou-se uma jurisprudência sobre o assunto pois a Justiça tinha uma visão anacrônica para as relações comerciais, segundo a qual quem comprava uma coisa poderia até destruí-la. ?Isso não se aplica a uma obra de arte. Não se pode comprar a Monalisa e tocar fogo nela", afirmou.Os responsáveis pela Renascer em Cristo não quiseram falar sobre o assunto. Conforme Paraíso, quem destrói uma obra de arte desconsidera além do valor estético o trabalho do autor. "Levei seis meses para fazer os dois painéis dos cinemas Art I e Art II", lembrou. Ele lamenta outros trabalhos destruídos em situações semelhantes."No cine Tupi, situado na Baixa do Sapateiro, fiz toda a ambientação da entrada na década de 60 e no cine Bahia, no centro de Salvador, elaborei um painel de 50 metros quadrados que decorava o hall. O primeiro foi destruído pela Companhia Internacional de Arte, que comprou o Tupi, e o segundo pela Igreja Universal que adquiriu o cine Bahia", lamentou, acreditando que de agora em diante obras de arte de reconhecimento público estarão protegidas mesmo que troquem de dono.

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