Justiça argentina espera que Brasil entregue militar uruguaio

Juan Cordero Piacentini é acusado de ter torturado 32 civis, assassinar outros dez e de sequestrar um bebê

Ariel Palacios, correspondente,

21 de janeiro de 2010 | 19h18

O major uruguaio de reserva Juan Manuel Cordero Piacentini está sendo esperado na capital argentina pelo juiz Norberto Oyarbide, encarregado das investigações sobre a Operação Condor, o plano de coordenação entre as ditaduras do Cone Sul nos anos 70 e 80 para a troca de informações e prisioneiros políticos. Cordero, acusado de ter torturado 32 civis, do assassinato de outros dez, e do sequestro de um bebê, permanece no Brasil por problemas de saúde surgidos dias atrás, quando a Polícia Federal foi até sua residência, em Santana do Livramento, para extraditá-lo para a Argentina.

 

Segundo afirmaram ao Estado fontes dos tribunais do juiz Norberto Oyarbide, encarregado do caso da Operação Cóndor, Cordero - até ontem à tarde - ainda não havia atravessado a fronteira entre o Brasil e a Argentina. "E, quando ele chegue aqui, terá que passar por exames médicos e só depois marcaremos uma data" para que se apresente perante o juiz. "Estamos à espera dele", afirmaram.

 

Durante a manhã, a agência estatal argentina Télam havia informado que Cordero havia sido entregue por representantes da Interpol no Brasil às autoridades argentinas no meio da ponte que liga a cidade brasileira de Uruguaiana com a argentina Paso de Los Librés.

 

No entanto, a Interpol em Buenos Aires desmentiu a informação ao confirmar ao Estado que o militar uruguaio, de 71 anos, permanecia do lado brasileiro, já que ainda estava com problemas de saúde. Cordero passou por uma cirurgia cardiovascular há poucos anos. No entanto, foi flagrado meses atrás pelo Canal 12, a TV uruguaia, fumando e bebendo em bares de Santana do Livramento, violando sua prisão domiciliar.

 

Tal como nos tribunais, as fontes da Interpol também indicaram que estão aguardando a liberação de Cordero por parte das autoridades no Brasil: "estamos à espera dele".

 

AGENTE

 

Cordero, um dos máximos expoentes das violações aos Direitos Humanos cometidos no Uruguai, foi um dos principais agentes de inteligência do Organismo de Coordenação de Operações Antisubversivas em seu país. No entanto, atuava com frequência do outro lado da fronteira, na Argentina, onde colaborava com os militares do país vizinho.

 

O centro de operações de Cordero em Buenos Aires era o "Automotores Orletti", um centro clandestino de detenção, onde eram torturados cidadãos uruguaios que residiam ou estavam refugiados na Argentina. O militar é acusado do assassinato dos senadores uruguaios Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez Ruiz. Ele também é acusado do desaparecimento de María Claudia García Irureta de Gelman, nora do poeta uruguaio Juan Gelman, e do desaparecimento de um bebê.

 

Após o fim das ditaduras argentina (1983) e uruguaia (1985), Cordero ficou em Montevidéu, onde foi beneficiado pela lei de anistia aos ex-integrantes do regime militar do Uruguai. Mas, em 2003, Cordero, em declarações à imprensa local, fez apologia da tortura. Antes de ser detido pela Justiça, o militar refugiou-se no Brasil.

 

Mas, em 2006 a Justiça argentina solicitou sua extradição, para julgamento em Buenos Aires, pelos crimes cometidos durante a ditadura no país.

 

No total, por intermédio da Operação Condor, 106 uruguaios foram assassinados fora do Uruguai, nos países do Cone Sul. A maioria dos assassinatos ocorreu na Argentina.

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