Justiça adia julgamento de acusado de matar Dorothy Stang

Vitalmiro Bastos já foi condenado a 30 anos de reclusão e irá a novo júri; outro acusado teve sentença definitiva

23 Outubro 2007 | 17h51

Foi adiado o novo julgamento de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, apontado como mandante do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang. O réu alegou motivos de saúde para adiar o júri marcado para esta quinta-feira. A nova data ainda não está definida, mas segundo informações do Tribunal de Justiça do Pará, deverá ficar para o primeiro semestre de 2008. Bida já foi condenado a 30 anos de reclusão em regime fechado.   Veja também:   Condenado diz que matou Dorothy em legítima defesa Assassino de Dorothy Stang diz que sofria ameaça da freira Júri mantém condenação a 27 anos para assassino de Dorothy Stang   Na noite da última segunda-feira, o Tribunal do Júri manteve a condenação a 27 anos de prisão do pistoleiro Rayfran Neves Sales, o Fogoió, réu confesso do assassinato de Dorothy Stang. No julgamento, que durou 15 horas, Rayfran alegou que a matou em "legítima defesa", que foi ameaçado pela freira - à época do crime com 73 anos - enquanto plantava capim em um lote de Anapu, a 500 quilômetros de Belém.   A missionária, de 73 anos, foi atingida por 9 tiros em uma emboscada em fevereiro de 2005, em Anapu. Ela tentava implantar um projeto de desenvolvimento sustentado com pequenos agricultores. Isso contrariava interesses de grandes fazendeiros, alguns acusados de grilagem e desmatamento.   O advogado de Rayfran, César Ramos, disse que vai pedir a anulação do júri. Segundo ele, dois dos sete jurados que participaram da sessão não poderiam estar presentes, pois também participaram do primeiro julgamento do fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, acusado de ser um dos mandantes do crime.   "O Supremo [Supremo Tribunal Federal] entende que o jurado que já participou do primeiro julgamento, ainda que de réu diferente, não pode participar mais de julgamentos no mesmo processo", explica. Além disso, segundo o advogado, a tese sustentada pela defesa - de homicídio privilegiado por motivo de relevante valor moral - não foi aceita pelo juiz, o que, segundo ele, se caracteriza como cerceamento de defesa. "Esses dois fatos são suficientes para anular o julgamento", garante Ramos.   O promotor de justiça Edson de Souza, que fez a acusação, disse que o julgamento do caso Dorothy Stang tem ajudado a diminuir a violência na região sul do Pará. "As mortes continuam acontecendo, como em toda a parte do país, mas o assassinato de lideranças como Dorothy Stang diminuiu bastante", afirma.   Para o promotor, a intenção do réu, ao negar que tenha recebido dinheiro para matar Dorothy Stang, foi inocentar os fazendeiros acusados de serem os mandantes do crime. "Ele voltou a exercer a função de soldado mandado, ou seja, ele sabia que já estava condenado, então o discurso dele passou a ser uma moeda de troca por algum favor, financeiro eu acredito, porque ele inocenta pessoas que estão acima dele na pirâmide criminosa e acusa a irmã [Dorothy Stang]", explica.   Souza destaca que, ao sustentar a versão de que estava sendo ameaçado pela missionária, Rayfran piorou sua imagem perante a opinião pública. "As pessoas param a gente na rua e se dizem satisfeitas com o resultado do julgamento", conta o promotor.   Repercussão   A família da missionária Dorothy Stang, assassinada em fevereiro de 2005 em Anapu, no Pará, ficou satisfeita com a condenação de ontem do pistoleiro Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, a 27 anos de prisão. A pena foi a mesma do primeiro julgamento. "O que nós queremos é que a mesma Justiça seja feita com a condenação dos fazendeiros Vitalmiro Moura, o Bida, e Regivaldo Galvão, o Taradão, que serão julgados em 2008", declarou o irmão da missionária, David Stang.   Ele, que veio dos Estados Unidos para acompanhar o julgamento, disse que acredita na Justiça brasileira e prometeu voltar com outros familiares no júri do próximo ano. "Minha irmã foi morta porque queria fazer com que a lei acontecesse naquela região", resumiu. Para Virgínia Moraes, uma das coordenadoras do Comitê Dorothy Stang, a mobilização vai continuar até a data do julgamento dos dois fazendeiros, acusados de serem os mandantes do crime.   O advogado César Ramos, defensor de Sales, disse que poderá pedir a anulação do julgamento alegando que dois dos sete jurados haviam participado do julgamento de Vitalmiro Moura no ano passado.   (Com Agência Brasil)   Texto ampliado às 17h50

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