Justiça adia interrogatórios sobre desvio no BNDES

A Justiça Federal adiou hoje os primeiros interrogatórios dos réus da Operação Santa Tereza, que investiga um suposto esquema de desvio de verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), após receber dois CDs com gravações de conversas em árabe. Os CDs e o relatório foram juntados na terça-feira pela Polícia Federal (PF) nos autos do processo judicial aberto contra 13 acusados - entre eles, o suposto lobista João Pedro de Moura, o advogado Ricardo Tosto e o coronel da Polícia Militar (PM) Wilson Consani, amigos e homens de confiança do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho.Em sessão tumultuada e tensa, os advogados de defesa fecharam-se em bloco, alegaram não ter tido acesso às novas provas da PF e pediram adiamento do depoimento dos clientes. O juiz federal Márcio Ferro Catapani, da 2ª Vara Criminal Federal, permitiu a mudança de data dos interrogatórios, embora a Procuradoria-Geral da República (PGR), inicialmente, tenha se manifestado contra a medida. Os acusados vão depor segunda-feira e dia 30."A defesa não pode ser surpreendida com prova nova no curso da ação", reagiu o criminalista Guilherme Batochio, que defende Tosto. "A defesa tem de tomar ciência de todos os elementos colhidos na investigação para que possa exercer sua atuação de forma ampla, como garante a Constituição."Para Batochio, "o grande problema é que fatiaram o relatório em várias partes e a defesa não teve acesso a esses documentos". As conversas em árabe, interceptadas pela PF, seriam do funcionário da prefeitura de Praia Grande, na Baixada Santista (SP), Jamil Issa Filho, com um interlocutor não-identificado.DenunciadoIssa Filho foi denunciado no processo da Santa Tereza por formação de quadrilha e aplicação indevida de recursos públicos. Um empréstimo do BNDES à prefeitura, no montante de R$ 130 milhões, é alvo da PGR. A PF afirma que há "provas cabais" de irregularidades no negócio, autorizado pelo banco a partir de projeto do empresário Marcos Mantovani, dono da Progus Consultoria e Assessoria - reduto do esquema BNDES, segundo a PF.A corporação suspeita que Paulinho tenha sido beneficiário de partilha de dinheiro desviado. Ele nega envolvimento com a organização. A Procuradoria da República sustenta que o funcionário da prefeitura de Praia Grande "figurou como contato entre a prefeitura e a organização criminosa". Um grampo federal o teria flagrado numa conversa com o empresário Manuel Fernandes, mais conhecido como Maneco, dono da boate WE Original. No diálogo, em 26 de dezembro, às 18h08, Issa Filho disse que "já tinham entrado R$ 20 milhões na conta da prefeitura".Os investigadores suspeitam que, nas conversas em árabe, ele tenha tratado do desvio de verbas. O advogado Frederico Crissiúma de Figueiredo, defensor de Moura, disse que o cliente é o principal interessado em depor. "Ele está ansioso porque, afinal, terá oportunidade de prestar todos os esclarecimentos de uma vez por todas com relação às acusações que sofre."Os advogados Carlos Kauffmann e Antônio Ruiz Kauffmann, que defendem Mantovani, destacaram que, até agora, a PF não juntou aos autos os projetos relativos a empreendimentos da Lojas Marisa e da prefeitura de Praia Grande. Os Kauffmann alegam que os projetos foram apreendidos pela PF no escritório da Progus, quando a Operação Santa Tereza foi deflagrada, em 24 de abril. "Mantovani é acusado por não existirem tais projetos, mas o fato é que os projetos foram produzidos regularmente, são limpos, perfeitos, idôneos e foram recolhidos pela PF. Mantovani não ganhou um centavo do BNDES", declararam.

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