TJPA/Divulgação
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Júri condena fazendeiro a 30 anos por mandar matar Dorothy Stang

A missionária americana, de 73 anos, foi assassinada em 2005 na cidade de Anapú, oeste do estado do Pará; defesa vai recorrer

Gabriela Azevedo, Especial para O Estado de S. Paulo - atualizado em 11h40

20 de setembro de 2013 | 00h07

BELÉM - O fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o "Bida", foi condenado a 30 anos de reclusão pela co-autoria no homicídio duplamente qualificado da missionária norte- americana Dorothy Stang, 73 anos, morta em 2005. O quarto julgamento de "Bida" iniciou na manhã de ontem. A sentença foi anunciada pelo juiz titular da 2ª Vara do Júri de Belém, Raimundo Moisés Alves Flexa, às 23h30 desta quinta- feira (20).

A defesa já antecipou que vai ingressar com recurso. "A defesa vai apelar. A gente entende que o julgamento foi injusto. Houve erro na sentença e a gente vai demostrar isso impetrando recurso", afirmou o advogado Martins Junior. "Bida" não tem o direito de recorrer em liberdade.

O pecuarista foi condenado a 29 anos de prisão pela co- autoria na morte da religiosa e teve somado à pena um ano de reclusão pelo agravante da vítima ser maior de 60 anos. A sentença definiu como "fria, covarde, premeditada e articulada a morte da vítima".

Esta foi a sexta sessão de julgamento popular que acusados de participação e execução da religiosa, morta em Anapu, no sudoeste do Pará, são submetidos. "Bida" já cumpria pena em regime semi aberto desde a anulação do terceiro julgamento, em maio deste ano, pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).

No primeiro julgamento, em 2007, "Bida" foi condenado a 30 anos de prisão. No ano seguinte, teve direito a novo júri. Na ocasião, foi absolvido. No entanto, o julgamento foi anulado por fraude processual. O terceiro julgamento condenou Vitalmiro Bastos de Moura, mas, alegando cerceamento da defesa, os advogados do fazendeiro conseguiram a anulação da sentença.

Nesta quinta-feira, 19, por maioria, os jurados consideraram o réu culpado e a sentença foi fixada em 30 anos de reclusão. Eles foram sorteados em um universo de 25 jurados efetivos. O plenário do Fórum Criminal de Belém permaneceu lotado durante todo o julgamento.

A tentativa da defesa de "Bida", em colocar o então réu em posição de vítima e não de acusado, foi rejeitada pelos jurados. A defesa argumentou que Vitalmiro Bastos de Moura mandou executar Dorothy Stang por não aceitar fazer parte de um esquema que garantiria segurança policial particular a fazendeiros e madeireiros do município.

A sustentação para esta teoria foi embasada no depoimento do agente da Polícia Federal, Fernando Luiz da Silva Raiol, que participou das investigações de identificação dos autores do crime. Em depoimento, Raiol acusou o então delegado de Anapu, Marcelo Luz, de ter fornecido ao executor Rayfran das Neves Sales, a arma que efetuou os disparos.

A testemunha afirmou ainda que o delegado cobrava R$ 10 mil para fornecer segurança particular a fazendeiros de Anapu. Pela recusa, "Bida" teria sido "escolhido" como bode expiatório e passou a ser acusado de ser o mandante do assassinato da missionária. "Vitalmiro não tinha nenhuma motivação alguma para cometer o crime", alegou o advogado Eduardo Imbiriba. "Ele foi vitima das circunstâncias", frisou o advogado de defesa Arnaldo Lopes de Paula.

"O ponto fraco da estratégia da defesa é a própria testemunha, um policial condenado por extorsão e que admitiu ter se tornado amigo próximo de ‘Bida’", destacou o procurador da República no Pará Felício Pontes Filho.

A promotoria mostrou fotos da missionária morta e também a bolsa e a bíblia que a religiosa usava quando sofreu emboscada. O promotor Edson Cardoso segurou a arma que efetuou os seis disparos que mataram Dorothy Stang e dirigiu-se para os jurados. Amigos e familiares da norte- americana acompanharam o julgamento. "Fiz 14 viagens para o Brasil, para lutar pela minha irmã, para que fosse feita a justiça. Estou muito feliz que tenha sido feita justiça", destacou o irmão da missionária, David Stang, que se disse confiante desde o início do julgamento.

Para a promotoria, ficou claro que a religiosa que lutava contra latifundiários no interior do Pará foi morta mediante promessa de pagamento. "O Rayfran teve motivação externa. Essa motivação foi a promessa de recompensa. Uma ativista ambiental não é bem vista por pessoas que querem maltratar o meio ambiente", destacou o promotor Edson Cardoso. "Com toda a certeza acreditamos que esta saga tenha terminado", completou.

"A gente não tem o que falar. É verdade, foi feita a justiça. A mentira não é verdade?", ironizou Vitalmiro Bastos de Moura. A defesa acredita que a condenação seria uma pressão política para justificar os crimes fundiários no Estado do Pará.

Também responde como mandante do crime Reginaldo Pereira Galvão, o "Taradão", acusado de prometer recompensa a quem matasse a religiosa. O pecuarista recorreu em instância superior da decisão de pronúncia do juiz de do 1º Grau para ser submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. A família de "Bida" não quis falar com a imprensa.

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