CASSIANO ROSÁRIO/FUTURA PRESS
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J.R.Guzzo: Infeliz Natal

A Odebrecht foi à lona – está hoje em recuperação judicial, com uma dívida de quase 100 bilhões de reais a pagar. E é por esses destroços que pai e filho brigam hoje

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2019 | 07h00

Este não será um Natal feliz na família Odebrecht. Mais um, na verdade; há muito tempo, presume-se, os natais não devem ser felizes na família proprietária da ex-maior empreiteira de obras públicas do Brasil, e de todo um leque de empresas importantes na indústria pesada e outras áreas de negócios. “Odebrecht” virou sinônimo de tudo que pode significar desonestidade, corrupção e subversão de valores nas relações entre o poder público e uma empresa particular. Tornou-se um nome associado automaticamente aos piores vícios da vida pública do Brasil – a compra de políticos, de governantes e de altos funcionários do Estado em troca de licença para se roubar o erário. Gente que vive assim pode continuar, até, a ter muito dinheiro. Mas não tem mais uma vida.

Que vida pode ter um pai que não consegue falar com o próprio filho, e um filho que se tornou inimigo do próprio pai? Ambos estão, no momento, em guerra aberta, com advogados de defesa e de ataque, facções de um lado e de outro, acusações mútuas da prática de crimes. Através do atual presidente da empresa, Ruy Xavier, o pai e o verdadeiro comandante do negócio, Emílio Odebrecht, demitiu o filho das funções que ainda ocupava na empresa após seus dois anos de cadeia por prática de corrupção - sem lhe pagar um tostão furado de indenização, pois a demissão, na linguagem técnica, foi por justa causa. Junto com o emprego e o salário, estimado em 115.000 reais por mês, foram-se os benefícios: carro com motorista, secretária, seguranças, advogados, assessoria de imprensa. Marcelo, se quiser continuar com essas coisas, que pague tudo do seu próprio bolso. Sua entrada no prédio da companhia está proibida – enfim, pai e filho tiveram direito ao desfile de rancor completo. Pior que isso não fica, em matéria de fracasso de uma família.

Marcelo Odebrecht, como todos os empreiteiros de obras do Brasil, tinha certeza de que estava acima da lei durante os governos Lula-Dilma – como sempre ocorreu, aliás, em todos os governos que vieram antes. Durante o reinado de Lula, no papel de sócio preferido do presidente, governou o Brasil, escolhendo as obras a serem feitas, os preços a serem pagos, os parceiros a serem chamados para a festa. Mandava nos financiamentos que recebia do BNDES. Ganhava bilhões, aqui e em obras corretadas por Lula nos “países socialistas” amigos – sendo que em alguns casos nem era preciso construir a obra. Foi pego pela Lava Jato junto com o próprio Lula, como se sabe, e o resto é história. Acabou a dança em cima dos bilhões roubados do contribuinte, houve a infâmia das delações e confissões e os dois foram para a cadeia. A própria Odebrecht, enfim, foi à lona – está hoje em recuperação judicial, com uma dívida de quase 100 bilhões de reais a pagar.

É por esses destroços que pai e filho brigam hoje; depois de destruírem a empresa com a corrupção da era PT, empenham-se agora em destruir um ao outro. Não há meio de um negócio desses acabar bem. Brigas de família (além de pai e filho entram cunhado, outros parentes, gente atrás de algum trocado) são como guerra civil – o perdedor fica sem nada, o ganhador fica com uma ruína. Infeliz Natal. 

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