Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

J.R.Guzzo: Estação brasileira na Antártica e o ‘estado da arte’

Base, que foi reconstruída após incêndio em 2012, é um milagre para os padrões brasileiros – e é obrigatório lembrar que praticamente toda obra foi feita quando Lula, Dilma e o PT não estavam mais no governo

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 21h48

A inauguração da Estação Antártica Comandante Ferraz, base de pesquisas científicas operada pela Marinha e na qual trabalham os mais capacitados cientistas brasileiros em questões ligadas à hidrografia, oceanografia e meteorologia, além de disciplinas que se dedicam ao conhecimento ambiental, é a visão de um sonho. Não um sonho restrito à ciência ou à segurança, e sim uma ideia de como poderia ser um Brasil melhor do que ele é. A base, como se sabe, foi destruída por um incêndio em 2012; conseguiram, para se ter uma visão de onde esteve amarrado o nosso burro, tocar fogo nas vizinhanças do Polo Sul. Em 2015, após concorrência internacional vencida por uma construtora da China e com base num projeto de arquitetura brasileiro, começaram as obras de reconstrução. Podendo trabalhar apenas seis meses por ano, pois nos outros seis o clima não permite qualquer atividade por ali, os chineses entregaram o serviço em não muito mais que quatro anos, dentro dos prazos, com qualidade de primeira e no preço combinado. 

A nova Estação Comandante Ferraz é algo que os cientistas brasileiros jamais imaginaram que teriam um dia – é coisa no “estado da arte”, como se diz, e oferece a eles condições de trabalho e de conforto equivalentes ou melhores que as de qualquer nação de Primeiro Mundo hoje presente na Antártica. É um milagre, para os padrões do poder público do Brasil – em termos de rapidez na execução, excelência da obra e ausência da mais vaga suspeita de corrupção até agora. (É verdade que os procuradores do Ministério Público não costumam frequentar os arredores do Polo Sul, nem para denunciar corrupção nem para embargar obras. Mas mesmo assim vale a pena registrar o fenômeno – com a indispensável ressalva, feita logo acima, do “até agora”.) As coisas não poderiam ser sempre assim? O Brasil seria um grande país se fossem – e a reconstrução da base mostra que isso é materialmente possível. Como?

Em primeiro lugar, é obrigatório notar que praticamente toda a obra foi construída quando Lula, Dilma e o PT não estavam mais no governo; se estivessem, haveria, no lugar da nova base cientifica, mais um trem bala. A ausência desse consórcio, pensando bem, é uma condição essencial para se executar qualquer obra minimamente bem feita neste país; assim como não dá para fazer um jogo de futebol sem bola, não dá para construir nada com Lula e PT no governo. O mais interessante, porém, talvez seja uma outra coisa. A Estação foi feita todinha sem que as Andrade Gutierrez, as Odebrecht, as Camargo Correia, as OAS e as etc. que você sabe muito bem quem são, passassem a menos de 5.000 quilômetros da obra. É natural: por conta da Operação Lava Jato, seus donos e diretores, durante a construção, estavam ocupados em confessar crimes, fazer delações de uns contra outros, gastar milhões com advogados criminalistas e cumprir penas de prisão por ladroagem. Em vez de empreiteiro brasileiro, todos amigos íntimos e parceiros de Lula, Lulinha e “partidos de esquerda”, houve empreiteiro chinês.

Fica aí a sugestão.

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