Divulgação/Força Aérea Brasileira
Divulgação/Força Aérea Brasileira

J.R. Guzzo: A farra dos aviões da FAB

O político brasileiro tem um pavor cada vez mais patológico em fazer qualquer coisa parecida com a vida de um cidadão comum

J.R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 12h37

Muitas das brincadeiras mais ácidas sobre militares são feitas pelos próprios militares - e não só de uma arma para outra, mas dentro de cada corporação. Pergunte a um oficial de Infantaria ou Artilharia do Exército, por exemplo, qual é o lema da Cavalaria. A resposta poderá ser: “Rápido e mal feito”. Da mesma forma, é bem possível que um oficial do Exército diga a respeito da Força Aérea Brasileira: “A FAB? Não se preocupe com a FAB. O sujeito vai de tenente a brigadeiro sem nunca ter dado uma ordem na vida - só obedece, porque a aeronáutica é um serviço de táxi aéreo para carregar político de um lado para outro”. Piada injusta, é claro, porque a FAB serve para muitas outras coisas, mas aí é que está: a piada só existe porque a força aérea fica carregando pelo Brasil e pelo mundo qualquer Zé Ruela com CPF, como o deputado Luís de Orleans e Bragança definiu tão bem os seus colegas de Câmara, e um crachá qualquer de “autoridade” do governo. Aqui se faz, aqui se paga.

O mais agressivo Zé Ruela do Brasil no uso de aviões da FAB para viajar de graça é, disparado, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia - o homem foi capaz, só em 2019, de viajar 229 vezes pela força aérea, algo provavelmente sem paralelo no resto do mundo. Quem consegue viajar 229 dias em 365 - e, sobretudo, para que? O que ele faz no tempo que lhe sobra? É positivamente impossível para qualquer ser humano viajar tanto assim para servir o interesse público - não há, muito simplesmente, essa quantidade de assuntos de interesse público para serem cuidados por ninguém, em nenhuma circunstância, em nenhum governo do planeta. Quando se olha um pouco mais para a coisa, fica pior: Maia conseguiu levar mais de 2.000 pessoas de carona nos voos que faz com o seu dinheiro. É por isso que é tratado como um homem tão importante para as “instituições”.

Os presidentes do Senado e do STF participam dessa mesma demência, embora com menos horas de voo. Depois vem a ministrada - que viaja na proporção inversa de sua importância. Depois vem o resto. O argumento é sempre o mesmo: se eles não viajarem, os aviões ficariam “ociosos”. Como é mesmo? Nesse caso, então, é a própria FAB que seria ociosa. Se os seus jatos e pilotos não têm o que fazer, para o que há de servir uma força aérea? Não é possível que seja para voar um dia sim um dia não com o presidente da Câmara e seus amigos. A verdade é que o político brasileiro, como a farra dos aviões da FAB deixa mais uma vez claríssimo, tem um pavor cada vez mais patológico em fazer qualquer coisa parecida com a vida de um cidadão comum. Não usa os hospitais públicos. Não usa o transporte público. Seus filhos não sabem o que é uma escola pública. Não tira um documento. Não faz uma fila. Nem de avião de carreira quer andar mais.

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