Jovens trocam pichação pela arte do grafite

Durante quase dez anos, Carlos Washington Corrêa, conhecido como Astro, pichou monumentos e comandou uma gangue no Distrito Federal. Ele conta que, para acompanhar "o cara" - gíria dos pichadores para designar uma pessoa muito boa no que faz, usada geralmente para se referir aos líderes -, jovens acabam usando drogas, cometendo pequenos delitos para garantir o dinheiro do spray e participando de brigas de grupos. Astro calcula: da extinta gangue Anjos Grafiteiros Escaladores (AGE), que ele chefiou por quatro anos, 8 integrantes foram assassinados por rivais e 35 estão na cadeia, alguns por tráfico de drogas. "O mundo da pichação é uma guerra", alerta ele, num livro no qual lembra sua experiência. Hoje, aos 26 anos, Astro mudou de vida e é monitor do projeto Picasso não Pichava, desenvolvido pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal com o objetivo de redirecionar o potencial artístico de jovens pichadores. Neste fim de semana, o programa promoveu um concurso e ofereceu prêmios como microcomputador, aparelhos de som, compressores com bicos para aerógrafo e cursos de auto-escola. Os tapumes da reforma do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, no centro da capital, viraram telas para os grafiteiros desenvolverem os temas "Cem anos de JK" e "Trânsito sem Violência". Diferença- Os especialistas explicam que pichação não é o mesmo que grafite. "Pichação é crime e grafite é arte", define o coordenador-adjunto do programa Picasso não Pichava, Carlos Eduardo Moraes. Os termos acabam sendo confundidos porque os pichadores se autodenominavam grafiteiros, apesar de usarem o spray apenas para escrever apelidos, de forma praticamente incompreensível, e siglas de suas gangues, uma forma de demarcar território ou "anarquizar" (estragar) a pichação dos outros. Em Brasília, já houve época em que pichar monumentos era comum. O alvo preferencial agora são muros de casas e portas de lojas. Sujar monumentos é considerado dano ao patrimônio público, crime que pode ser punido com 3 meses de cadeia. A ficha de muitos pichadores inclui ainda outras irregularidades, como porte ilegal de armas e consumo de drogas. A gangue AGE - que chegou a ter 150 membros - se reunia inicialmente apenas para pichar monumentos, entre 23 e 4 horas do dia seguinte. Depois, seus integrantes passaram a consumir maconha e, com o tempo, evoluíram para drogas mais pesadas. "A cocaína batia de frente com o spray", diz Astro. As mortes de Pano, Lorde, Dínamo, Furacão e Never, entre outros membros, levaram a AGE à extinção. "Jóia" - Gangues continuam a surgir em Brasília, garante Moraes. Elas não contam só com moradores da periferia do Distrito Federal, mas com filhos de advogados, ministros e moradores do Lago Sul, bairro nobre da capital. Para entrar num desses grupos, o jovem precisa pagar uma "jóia", determinada pelo líder da gangue, que vai de uma lata de spray a um relógio. Segundo o coordenador do Picasso não Pichava, os aliciadores das gangues prometem segurança ao jovem novato. "Só o fato de ser de determinado grupo já faz correr risco", diz Astro, que lista no livro 41 nomes de jovens assassinados na "guerra das gangues". Ingressam nessa vida pessoas com problemas familiares, afirma o ex-pichador, filho de um militar que lhe aplicava punições severas. "Cerca de 70% dos pichadores são filhos de pais separados ou sem pai." Quando começou a funcionar, em 1999, o projeto Picasso não Pichava adotou uma atitute repressiva. Vários mandados de busca e apreensão foram emitidos para identificar os pichadores. Agora, o principal objetivo do projeto é transformar pichadores em grafiteiros. Em cursos de três meses de duração, os alunos aprendem a usar compressores com aerógrafo e têm aulas de serigrafia, teatro e informática. É com essa arma que o projeto está conseguindo tirar pichadores das ruas e melhorar a preservação de Brasília, considerada patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.

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