Jovens sofrem com o trabalho urbano

Sempre que o assunto é trabalho infantil ou adolescente, o que vem à cabeça de muitas pessoas é a imagem de crianças quebrando pedra, fazendo carvão ou cortando cana. Ninguém lembra dos office-boys, dos cobradores de vans ou dos empacotadores em supermercados, que além de trabalhar também estudam. O trabalho desses menores urbanos passa despercebido ou, o que é pior, é visto como leve e até benéfico para eles. Uma pesquisadora da USP acaba de demonstrar que isso não é verdade. A dupla atividade é penosa e prejudicial à formação intelectual e social desses jovens. Para conhecer de perto a vida e o trabalho de adolescentes do ensino médio, a bióloga Frida Marina Fischer, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, juntamente com uma equipe multidisciplinar, estudou 354 alunos, de 14 a 18 anos, de um colégio estadual da cidade de São Paulo. "A idéia foi avaliar as condições de trabalho dos estudantes", explica. "Queríamos saber onde, quando e o que fazem e o que pensam sobre seu trabalho. Estudamos os riscos presentes e os possíveis prejuízos à saúde e ao desenvolvimento educacional associados ao ofício."O estudo pode ser considerado uma continuação do trabalho que Frida vem realizando com crianças e adolescentes do interior há 15 anos. "Achamos que o problema na capital também é sério", diz. "Não é de gente quebrando pedra ou fazendo tijolo, mas de quem trabalha em escritório, banco, bar, supermercado, telemarketing, lojas ou como cobrador de van, office-boy e empregada doméstica. É um trabalho urbano, mas nem por isso melhor e menos prejudicial." Segundo a pesquisadora, essas atividades têm características diferentes das rurais. O número de acidentes de trabalho, por exemplo, é menor na cidade. "Mas, em contrapartida, aqui na capital, na escola que estudamos, os alunos relatam condições de insalubridade, de desconforto por ter de trabalhar em pé, com posturas inadequadas e cansativas", revela Frida. "São fatores de risco para os jovens que podem levá-los a sentir dores no corpo, acarretar lesões músculo-esqueléticas que incapacitam temporária ou definitivamente para a vida ativa de trabalho." Números - Os resultados da pesquisa não deixam dúvidas. Dos 354 alunos pesquisados, 52% trabalham e outros 24% estão desempregados, portanto já trabalharam. "Dos empregados, 62% sentem dores no corpo por causa do trabalho", revela Frida. "Nosso estudo mostra ainda que aqueles que estão submetidos a maiores exigências psicológicas têm três vezes mais chances de sentirem dores no corpo do que os que não sofrem esse tipo de pressão." O ciclo vigília-sono também foi um dos aspectos avaliados pela pesquisa. Muitos dos jovens não dormem o suficiente e sofrem de forte cansaço no trabalho e na escola. Normalmente atuando como operadora de telemarketing, Maria Regione Costa, de 18 anos, costuma trabalhar das 10 horas às 18h30 e entra na escola, onde cursa o 2.º ano do curso supletivo, às 19 horas. "Não tenho tempo de jantar. Só como de madrugada e não tenho tempo para me cuidar." "Queríamos ver o quanto e como dorme o trabalhador adolescente e se há algum prejuízo em suas atividades sociais e estudantis", explica a bióloga Liliane Reis Teixeira, integrante da equipe pesquisadora. "O jovem, por estar em fase de desenvolvimento, tem uma necessidade biológica de dormir mais do que o adulto. Ele precisa dormir nove ou dez horas por dia." Os que foram pesquisados, no entanto, não dormem mais do que sete a sete horas e meia. "A conseqüência imediata é uma sonolência acentuada durante o dia, podendo acarretar desde desatenção a acidentes de trabalho", alerta Liliane. A funcionária de um escritório de advocacia, Edna Vítor, também de 18 anos, e estudante do 1.º ano do ensino médio da Escola Estadual Carlos Maximiliano Pereira dos Santos, na Vila Madalena, é outra jovem trabalhadora que reclama de sono. "Tem dias na aula que quase não dá para agüentar", reclama. "Eu cochilo e às vezes perco parte do que o professor está passando. Depois tenho de estudar mais em casa para recuperar. É muito difícil essa nossa vida." Fim de semana - Embora reclame com razão, Edna tem pelo menos os fins de semana para descansar e se divertir. Mas há aqueles que nem desse tempo dispõem. "Dos estudantes que trabalham, 15% o fazem sete dias por semana", diz o psicólogo Márcio Lombardi Júnior, que também participou da equipe de pesquisa. "Outros 28%, trabalham seis dias por semana." Entre os primeiros, um exemplo é Adeharly Nascimento Silva, de 17 anos, que cursa o 2.º ano do ensino médio, também na EE Carlos Maximiliano. Durante a semana, ele trabalha num supermercado e, nas sextas-feiras à noite e no sábado e domingo, entrega pizzas. "Não sobra tempo para quase nada. Mas é o único jeito. Preciso driblar o sono e o cansaço o tempo todo." É por esses resultados que Frida se põe contra o trabalho adolescente. "Infelizmente existe um segmento da sociedade brasileira que é a favor do trabalho do adolescente, que acha que isso vai evitar que muitos se transformem em bandidos", diz. "Mas eu não penso assim. Esse serviço, ao meu ver, só tem sentido, se trouxer para ele ganhos intelectuais, de forma que possa, sem prejuízo de sua vida escolar e de sua socialização e de sua saúde, ganhar algo. Se não, para quê?"

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