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Jornalistas são agredidos em chegada de Bolsonaro ao sul da Bahia

Repórteres de filiais da Globo e SBT no Estado foram ameaçados e atacados por equipe de segurança e apoiadores do presidente na cidade de Itamaraju

Levy Teles, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 00h04

Jornalistas de filiais baianas da Globo e do SBT foram agredidos por seguranças do presidente Jair Bolsonaro (PL) e por apoiadores em Itamaraju, região sul da Bahia, neste domingo, 12. Um dos seguranças segurou a repórter Camila Marinho e o cinegrafista Cleriston Andrade, ambos da TV Bahia — filial da Globo no Estado — pelo pescoço, com a parte interna do antebraço, numa espécie de "mata-leão", de acordo com a equipe de jornalismo da TV Bahia. Chico Lopes, repórter da TV Aratu, filial do SBT, levou um tapa de um funcionário da segurança, segundo relato no site Aratu On.

O episódio aconteceu enquanto jornalistas esperavam o pouso do helicóptero de Bolsonaro no estádio municipal Juarez Barbosa, em Itamaraju. Após o desembarque, jornalistas da TV Bahia e TV Aratu foram contidos por seguranças, que fizeram um cordão.  

Ainda dentro do estádio, quando o presidente subiu na caçamba de uma caminhonete, um segurança tentou impedir que os jornalistas erguessem o microfone para falar com o presidente. Quando os microfones tocaram no segurança, relata o portal G1,  ele disse que os repórteres estavam batendo nas costas dele. "Se bater de novo vou enfiar a mão na tua cara. Não bata em mim, não batam em mim", ameaçou.

O secretário de obras da cidade de Itamaraju, Antonio Charbel,  que estava ao lado de apoiadores do presidente, tentou puxar os microfones da repórter Camila Marinho. Ao defender a colega, Chico Lopes foi ofendido pelo secretário, contido por pessoas próximas. Um apoiador do presidente ainda conseguiu arrancar a pochete de Camila Marinho, recuperada posteriormente por outro jornalista.

De acordo com o relato do Aratu On, a imprensa foi recebida mais tarde por Bolsonaro em outro espaço; ele e o ministro da Cidadania, João Roma, pediram desculpas pelo incidente.

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) “repudia as agressões e demanda que as autoridades competentes orientem a equipe de segurança do presidente para que respeite o trabalho dos jornalistas, pois lamentavelmente esse tipo de agressão vem se repetindo”. A associação ainda “exige que Jair Bolsonaro cesse os ataques verbais contra a imprensa, os quais incentivam sua militância a agredir repórteres e impedir seu trabalho, o qual é garantido pela Constituição Federal".

Em comunicado, a TV Globo manifestou solidariedade aos jornalistas da TV Bahia e TV Aratu, e cobrou posicionamento da Procuradoria-Geral da República sobre ação apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) em novembro pela Rede Sustentabilidade, que pede a proibição de ataques ou incentivos a ataques verbais ou físicos à imprensa e aos seus profissionais por parte do presidente Jair Bolsonaro. 

O pedido do partido é de uma multa de R$ 100 mil por ataque. No texto, a Globo diz que “a imprensa cumpre um direito inscrito na Constituição e deve ter a sua segurança garantida”.

A emissora lembrou os ataques a jornalistas na Itália, durante viagem do presidente no fim de outubro. “As cenas bárbaras de hoje e aquelas ocorridas na Itália, no dia 31 de outubro, ensejam duas constatações: se os seguranças agem por conta própria, a Presidência deve ser responsabilizada por omissão. Se agem seguindo ordens superiores, a Presidência deve ser responsabilizada por atentar contra a liberdade de imprensa e fomentar a violência contra jornalistas."

O comunicado termina qualificando a atitude da Presidência de deixar jornalistas “à própria sorte, em meio a apoiadores fanáticos” como “escandalosa”. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), manifestou solidariedade aos jornalistas pelo Twitter e escreveu que “a liberdade de imprensa é pilar fundamental da democracia e qualquer ataque ao jornalismo merece repúdio”.

Incidentes como esses não são únicos. Como mostrou o Estadão em agosto, um jornalista foi agredido por bolsonaristas durante uma manifestação na cidade de Sorocaba porque gravava o evento com um celular de cor vermelha. “Olha lá, celular vermelho, é petista”, gritou um manifestante. 

O jornalista Reinaldo Galhardo, diretor do site de notícias SNews, fez gestos com os dedos negando, mas ainda assim foi atacado. “Um deles me atingiu com um golpe nas costas, outro deu um tapa e derrubou meu celular”, disse ao Estadão em agosto. “Eu estava trabalhando e nem quiseram saber. Um dos organizadores me tirou para fora do grupo e tentou evitar que eu sofresse novas agressões.” 

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