Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Jornalistas ficam confinados em espaços públicos e sofrem revistas rigorosas

Profissionais estrangeiros abandonaram cobertura em protesto; Abraji divulgou nota contrária ao tratamento conferido à imprensa

Redação, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2019 | 16h51
Atualizado 02 Janeiro 2019 | 15h26

BRASÍLIA - Um forte esquema de segurança foi montado na Esplanada dos Ministérios para a cerimônia de posse do presidente Jair Bolsonaro. Além do público, a imprensa credenciada também foi submetida a diversas restrições impostas pela organização, que incluiu o confinamento em espaços pré-definidos e até mesmo a impossibilidade de levar frutas inteiras, como maçãs, que precisaram ser cortadas.

Para ter acesso aos locais das cerimônias, todos os jornalistas tiveram que chegar a partir das 7h ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde funcionou o gabinete da transição. De lá, ônibus do governo levaram repórteres e fotógrafos até o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Itamaraty – onde haverá uma recepção a convidados a partir das 19h. Mesmo assim, repórteres foram confinados em uma sala no subsolo desde o início da manhã, de onde não podem sair para acompanhar os outros atos da cerimônia, que começou às 14h47.

Diante das restrições, quatro jornalistas de veículos de imprensa de fora do País decidiram abandonar o espaço e abdicaram de cobrir a cerimônia no Itamaraty. Em nota, o Itamaraty afirmou que "a entrada e a saída de todos os jornalistas credenciados para estavam previstas conforme determinação do Palácio do Planalto, tendo em conta limitações de tráfego no perímetro de segurança da Esplanada" (leia abaixo a íntegra da nota).

Diferentemente de posses anteriores, quando jornalistas podiam circular entre os diferentes espaços, desta vez todos foram advertidos de que teriam a circulação restrita durante a cobertura da posse presidencial e orientados pelo cerimonial de Bolsonaro a “não tentarem pular a cerca de jeito nenhum”.

Os profissionais de imprensa também tiveram que levar alimentos em sacos transparentes para as refeições e lanches ao longo de todo o dia, já que não houve lugar que servisse alimentação durante o evento. A exceção foi no Itamaraty, onde foi servido macarrão.

Houve também informações desencontradas entre a equipe de transição, seguranças e assessoria do Congresso. Assessores chegaram a informar que jornalistas que estavam em um dos salões da Câmara não teriam acesso a banheiros durante a cerimônia de posse, o que gerou protestos. A restrição foi revertida em seguida.

No Palácio do Planalto, a preocupação com a segurança foi tamanha que funcionários foram orientados a não tocar nas persianas das salas desde domingo. Qualquer movimento, disseram os agentes, poderia ser interpretado como hostil.

Público passa por barreiras

Para o público que foi acompanhar a cerimônia da Esplanada, também houve restrições. Logo no primeiro ponto de revista, mensagens de um caminhão de som alertavam que, para garantir a segurança, foram posicionados vários atiradores, além de agentes especializados em defesa química, biológica e nuclear.

O público que acompanha a passagem da faixa pesidencial na Praça dos Três Poderes precisou fazer uma caminhada de cerca de 1h15 entre a Rodoviária do Plano Piloto e o Planalto. São três postos de controle no caminho, com detectores de metal e revista de sacolas plásticas. Há também diversos postos de hidratação e banheiros químicos.

Um dos principais aliados de Jair Bolsonaro, o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) criticou o forte esquema de segurança organizado para a posse do novo presidente. Fraga disse que o excesso de barreiras está criando constrangimento para os parlamentares que irão acompanhar a cerimônia.

"Para chegar até aqui (Plenário da Câmara) foi uma dificuldade, você imagina para o povo. Esse excesso de medidas de segurança pode causar algum tipo de transtorno ou até constrangimento para alguém que se elegeu com base no povo", disse. "Do meu gabinete ao Plenário aqui, fui barrado três vezes. Isso não é necessário. Muita gente que poderia vir aqui para dar um abraço vai se sentir constrangida pelo excesso de segurança", complementou.

O deputado disse ainda que não era necessário todo esse esquema de segurança e classificou a organização de "exagerada". "Com todo respeito, evidente que não precisava de toda essa segurança. A gente não tem essa cultura de atentados. A gente sabe que as medidas devem ser adotadas, mas não com esse exagero. Não vou dizer que invadiram porque foi autorizado, mas entraram em todos os gabinetes para fechar as persianas", disse.

Por meio de rede social, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) se manifestou sobre o esquema restrito para os jornalistas. “Um governo que restringe o trabalho da imprensa ignora a obrigação constitucional de ser transparente. (...) A Abraji protesta contra este tratamento antidemocrático aos profissionais que estão lá para levar ao público o registro histórico deste momento”, diz a nota.

Íntegra da nota do Itamaraty

“Por determinação do Palácio do Planalto, em coordenação com o governo eleito, os jornalistas credenciados para a cobertura da posse presidencial 2019 foram distribuídos entre os locais onde foi realizada programação relativa à posse presidencial (Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Palácio Itamaraty).

Ao grupo credenciado para cobrir o Ministério das Relações Exteriores foi disponibilizado um centro de imprensa, aberto das 10h às 21h de 1° de janeiro, que contou com estações de trabalho, 4 telões para transmissão das cerimônias de posse no Congresso, no Palácio do Planalto e no próprio Palácio Itamaraty, serviço de tradução dos discursos do presidente para as línguas inglesa e espanhola, e serviço de bufê. A sala utilizada como centro de imprensa é um dos principais recintos para reuniões do Palácio e ali já se se reuniram presidentes, ministros e chanceleres. Em posses presidenciais anteriores, foi igualmente disponibilizada como centro de imprensa.  

A entrada e a saída de todos os jornalistas credenciados para o Itamaraty estavam previstas conforme determinação do Palácio do Planalto, tendo em conta limitações de tráfego no perímetro de segurança da Esplanada. Todos aqueles que desejaram se ausentar do centro de imprensa do Ministério das Relações ao longo do dia foram prontamente atendidos.”

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