Jornalista Villas-Bôas Corrêa morre aos 93 anos no Rio

Jornalista Villas-Bôas Corrêa morre aos 93 anos no Rio

Mais antigo dos repórteres políticos do Brasil, Villas-Bôas trabalhou na sucursal carioca de O Estado de S. Paulo por 23 anos

Wilson Tosta e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2016 | 12h49

Correções: 16/12/2016 | 13h01

RIO - Mais antigo dos repórteres políticos do Brasil, o jornalista Villas-Bôas Corrêa morreu na noite de quinta-feira, 15, aos 93 anos, no Hospital São Lucas, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Com mais de meio século de atividade na imprensa – começou na profissão em 1948 e publicou sua última coluna, Coisas da Política, em 2011, no Jornal do Brasil, onde escreveu por três décadas -, Villas trabalhou na sucursal do Rio de O Estado de S. Paulo por 23 anos.

Também trabalhou em outras publicações, como A Notícia, O Dia e o Diário de Notícias, além de emissoras de TV (Redes Manchete e Bandeirantes) e na Rádio Nacional. Era conhecido pelo texto elegante, com estilo inconfundível e algo irônico, e pela sofisticada capacidade de análise política.

Foi com essas ferramentas profissionais que o carioca da Tijuca Luiz Antônio Villas-Bôas Corrêa acompanhou mais de 60 anos de política brasileira. Formou-se advogado pela Faculdade Nacional de Direito, onde se espantou com a efervescência política e presidiu o Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco) no Estado Novo. Atribuía, porém, ao acaso sua especialização. Ainda “foca”, em uma reportagem policial, ouviu em uma rua na Glória um empresário se queixar de que não conseguia fechar um negócio, porque autoridades lhe exigiam dinheiro. Segundo relatou em 2011 a Pedro Doria na série em vídeo “Decanos Brasileiros -  Dez visões sobre a democracia no País”, no site do Estadão, convenceu o desconhecido a deixá-lo acompanhar uma audiência com ministro da Guerra, general Canrobert Pereira da Costa, para denunciar as extorsões.

“Eu fiz a matéria, e deu uma manchetona no dia seguinte n ‘A Notícia”, contou Villas, que nasceu ainda na República Velha, em 2 de dezembro de 1923. “ ‘Gravíssima denúncia ao ministro da Guerra!’ (...) Isso foi uma bomba no Congresso. Porque a oposição veio em cima, etc, debates, e faz CPI, não faz CPI... Durou uma semana. Não deu em nada. Mais para mim deu. Porque daí em diante eu verifiquei que não tinha repórter político n’A Notícia, que eu gostei da experiência e comecei a ir para o jornal cedo e a fazer matéria política.”

Era o início da trajetória profissional que o transformaria em testemunha dos principais acontecimentos políticos da segunda metade do século 20 e o início do século 21 no Brasil. Longa, a lista inclui o suicídio do presidente Getúlio Vargas, o contragolpe do marechal Henrique Lott, em 1955, as revoltas de Jacareacanga e Aragarças no governo JK, a renúncia do presidente Jânio Quadros em 1961, o golpe de 1964, a ditadura civil-militar de 1964-1985, a redemocratização, a agonia e morte do presidente Tancredo Neves, o impeachment do presidente Fernando Collor, os dois governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o início do primeiro período de Dilma na Presidência.

Em, 1985, segundo relatou no livro “Conversa com a Memória - A História de Meio Século de Jornalismo Público (Ed. Objetiva) preparara-se para participar, pela Rede Manchete, da cobertura da posse de Tancredo. A solenidade acabou frustrada por uma cirurgia de emergência cujas complicações levariam o presidente à morte  sem jamais ser empossado. Praticamente sozinho no estúdio, Villas ancorou desde cedo (a operação fora feita de madrugada) o noticiário, enquanto a cobertura era reorganizada. “Continua, Villas”, pediam-lhe, pela linha interna de comunicação, para que não parasse de falar. O repórter já sessentão, apesar do cansaço, garantiu por horas , com seus comentários, a transmissão.

Despedida. O corpo do jornalista deve ser velado e cremado neste sábado, 17. no Memorial do Carmo. Até o início da tarde desta sexta, 16, não fora confirmado o horário. Villas-Bôas Corrêa morreu em decorrência “de um choque séptico causado por uma pneumonia comunitária”, segundo o Hospital São Lucas, onde ele foi internado  no dia 9.

Colegas de profissão  destacaram o papel de ícone do jornalismo político de Villas-Bôas Corrêa.

“Ele foi um conselheiro histórico na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e participou de todo os fatos importantes para a democratização do País. Deixa um legado muito grande para as novas gerações”, disse o vice-presidente da entidade, Paulo Jeronimo de Sousa.

O jornalista e escritor Zuenir Ventura lembrou também a imparcialidade de Villas-Bôas, com quem trabalhou no Jornal do Brasil.

“Ninguém jamais soube das preferências políticas dele. Era muito íntegro e não foi só analista político, mas também um excelente repórter. Sua coluna tinha muita informação e se tornou uma referência”, contou Zuenir.

O escritor disse ainda que o acidente doméstico que interrompeu a carreira do filho, o também jornalista Marcos Sá Corrêa, em 2011, abalou profundamente o pai. “Ele sofreu muito. Foi muito doído. Começou ali, de certa forma, uma desistência da vida”, lembrou. Sá Corrêa sofreu um traumatismo craniano ao cair de uma escada em casa.

Villas Bôas era viúvo de Regina Maria de Sá Corrêa e deixa, além  de Marcos, outro filho, o professor Marcelo de Sá Corrêa, três netos e três bisnetos.

Correções
16/12/2016 | 13h01

Texto alterado para esclarecer que o jornalista trabalhou na sucursal carioca de O Estado de S. Paulo por 23 anos, mas não ocupou a direção por todo esse tempo.

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