Christina Rufatto
Christina Rufatto

Jornalista Gilberto Dimenstein morre aos 63 anos em São Paulo

Criador do site 'Catraca Livre', Dimenstein foi diretor da 'Folha', trabalhou em diversas redações e era ligado às questões da infância e educação

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 11h18
Atualizado 29 de maio de 2020 | 18h15

Aos 63 anos, morreu nesta sexta-feira, 29, o jornalista e escritor Gilberto Dimenstein, vítima de um câncer de pâncreas, com metástase no fígado. Dimenstein foi diretor da sucursal do jornal Folha de S.Paulo em Brasília e, nos últimos anos, dirigia o site Catraca Livre, projeto ao qual dedicou seus derradeiros momentos trabalhando mesmo em tratamento e durante a pandemia que atinge o País.

Em mensagem publicada em uma rede social no último dia 14 de abril, comentando os efeitos da crise provocada pela epidemia, o jornalista informou que tinha renunciado aos próprios rendimentos na empresa “para evitar demissão de funcionários”. E explicava: “Não é heroísmo. Consigo viver muito bem com minha aposentadoria. Duro é viver sem a companhia de profissionais dedicados e competentes, socialmente comprometidos”. 

"Gilberto Dimenstein brilhantemente atribuiu o êxito da Folha, à qual estava intimimamente ligado, ao 'espírito de imigrante', esse ânimo incessante do desbravador de criar o próprio caminho. Seu jornalismo de preocupação social e defesa da democracia fará falta ao Brasil", afirmou Sérgio Dávila, diretor de Redação do jornal.

“Uma perda imensa para o jornalismo brasileiro. Um homem íntegro, inspiração para minha geração, que lutou até o fim contra uma doença cruel. Que descanse em paz e que seus familiares e amigos encontrem conforto naquilo que acreditam, e uns nos outros”, escreveu em uma rede social a jornalista Vera Magalhães, editora do BR Político, do Estadão, lamentando a morte de Dimenstein.

"Gilberto Dimenstein não foi apenas um dos maiores jornalistas do seu tempo, premiado, criativo e corajoso, mas também um ser humano incrível, cheio de generosidade, de visão social. Vá em paz, meu querido amigo. E fique tranquilo. Seu netinho e sua netinha que está a caminho terão sempre um enorme orgulho de você", afirmou a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde.

Além da Folha, onde foi também colunista e correspondente nos EUA, Dimenstein trabalhou nas revistas Veja e Visão, nos jornais O Globo, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e Última Hora. No rádio, fazia comentários na Rádio CBN, sempre com o foco nas questões de poder e mazelas sociais brasileiras. “A perda de Gilberto Dimenstein é gigante para o jornalismo. Ele revolucionou a forma de fazer o nosso ofício. Fez sucesso muito jovem, sempre foi um inteligente analista da vida nacional”, escreveu a jornalista Míriam Leitão, que também dividiu espaço na rádio com ele. 

Depois que descobriu o câncer, no ano passado, Dimenstein costumava falar da doença em entrevistas e estava preparando um livro contando a experiência. “Morreu Gilberto Dimenstein. Não chegamos a nos encontrar, mas estivemos próximos, nos últimos meses, em função do livro – sobre sua experiência com o câncer, que enfrentava com bravura e bom humor – que preparava para mim, encomendado depois de lindo artigo que publicou na Folha”, contou o editor Carlos Andreazza, momentos depois de saber da morte do jornalista.

Dimenstein ganhou duas vezes principal prêmio nacional de jornalismo, o Esso, em 1988, na categoria principal, com a reportagem A Lista da Fisiologia, e, no ano seguinte, na categoria Informação Política, com O Grande Golpe, ambas publicadas pela Folha de S.Paulo, lembra nota sobre a morte dele, publicada no site.

Pelo trabalho no Catraca Livre, ele recebeu diversos prêmios, como o Prêmio de Veículos de Comunicação, em 2017, depois de ter sido destacado nos dois anos anteriores com o Prêmio Jovem Brasileiro. Preocupado com o tema da educação, foi um dos incentivadores da cobertura jornalística do setor e, mais do que militar nas redações em defesa da boa formação das crianças, ajudou a criar a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

Na literatura, foi autor de uma dezena de livros. Gostava de abordar assuntos socialmente sensíveis como direitos humanos, democracia, política, além do tema da infância, uma de suas principais preocupações. Com seu livro O Cidadão de Papel, pela editora Ática, no qual aborda os direitos dos pequenos, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção em 1993, quando trabalhava já na Folha, onde praticou jornalismo por quase 30 anos. Dividiu também autoria de outras publicações com autores como Ricardo Kotscho, Josias de Souza, Miguel Nicolelis e Drauzio Varella.

Repercussão

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), lamentou a morte de Dimenstein. “Um dos principais expoentes do jornalismo brasileiro. Inquieto e dinâmico, deu voz a atores antes excluídos do debate nacional. O jornalismo e a sociedade perdem um olhar humanista e solidário. Meus sentimentos aos familiares”, escreveu Doria.

Em nota, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), destacou o trabalho do jornalista em defesa da cidade. "Nos diferentes veículos de comunicação onde passou, em especial na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por 28 anos, ele defendeu a liberdade de imprensa, as minorias, os mais vulneráveis e, especialmente, a cidade de São Paulo ao criar o Catraca Livre, com seu jornalismo dedicado", diz o texto.

O ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung lembrou que Dimenstein recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. "Hoje o Jornalismo do País perde um grande nome: o escritor e jornalista Gilberto Dimenstein. Sensível às causas sociais, Dimenstein recebeu o  Prêmio Nacional de Direitos Humanos. Deixo aqui minha solidariedade aos amigos e à família deste brilhante profissional", escreveu.

O ex-ministro Aloizio Mercadante (PT), que foi cunhado do jornalista, citou a dedicação de Dimenstein à "construção de uma sociedade mais justa".  "Era um  exemplo de pai e avô, dedicado, presente e carinhoso. Neste momento de profunda dor, fica minha solidariedade para toda nossa família."

O ex-ministro da Integração Ciro Gomes (PDT) também divulgou mensagem de pesar. “Uma perda para o Brasil e para o bom jornalismo, realizado de forma independente e corajosa. Meus sentimentos para família e amigos”, disse Ciro.

A empresária Luiza Helena Trajano  lamentou a morte. “Muito triste. Hoje faleceu o jornalista, o filósofo, o inovador, meu amigo querido, Gilberto Dimenstein”, escreveu Luiza Trajano. “Aquele que me ensinava a estar sempre atenta a todos que tinham talento e não tinham oportunidades, o que me ligava indicando um filme, o que me incentivava com frases elogiosas, como 'você é o farol da cidadania', 'você é da turma dos glóbulos brancos'. (…) Gilberto, com lágrimas nos olhos te digo, não perderei o meu propósito, pois você estará sempre comigo. Estarei com a Anna e seus filhos para continuar a deixar de pé tantas obras que você levantou. Você estará para sempre no meu coração”, concluiu a empresária.

Dimenstein morreu em casa, por volta de 9h. Ele deixa mulher, dois filhos e um neto.

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