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Gilles Lapouge em 2015, no lançamento de seu livro 'Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil' JF DIORIO / ESTADÃO

Jornalista e escritor francês Gilles Lapouge morre aos 96 anos

Apaixonado pelo Brasil, ele escreveu seu primeiro texto no ‘Estadão’ em 1951 e o último, em junho

Pablo Pereira e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 10h16
Atualizado 04 de agosto de 2020 | 10h13

O jornalista e escritor francês Gilles Lapouge, colunista do Estadão, morreu nessa quinta-feira, 30, em Paris. Segundo familiares, Lapouge não resistiu a uma infecção pulmonar. Jornalista do Estadão há 70 anos, ele faria 97 anos em novembro. Viúvo, deixa os filhos Benoit, Laure-Marie, Mathilde e Jérôme.

Gilles era um apaixonado pelo Brasil, onde chegou em 1951, a convite do jornalista Júlio Mesquita Filho, diretor de O Estado de S. Paulo. O jornalista francês então se mudou para o Brasil e passou a visitar os lugares recomendados pelo editor, colocando em cada um deles a visão social e econômica pelo ponto de vista de quem visitava o País pela primeira vez.

Entre as suas coberturas marcantes, está a da morte do general francês Charles De Gaulle.

Em 2013, o mais antigo colaborador do jornal visitou o Acervo Estadão, onde pôde ver a edição original com o seu primeiro texto assinado no jornalA vocação industrial de São Paulo.

Publicado em 25 de janeiro de 1954, o texto fazia parte do caderno especial sobre o 4º centenário da cidade. A colaboração de Gilles Lapouge, no entanto, começara exatos três anos antes, com “A situação econômica na França”, texto que saiu sem assinatura na edição de 25 de janeiro de 1951. Nessas quase sete décadas, Lapouge publicou mais de 10 mil textos no jornal. O último deles foi no começo de junho deste ano:  As coincidências da raiva.  “Ele tinha muito orgulho de trabalhar no Estado por 70 anos” , disse Jérôme Garro, um de seus quatro filhos. “Ele sempre dizia ‘meu jornal’ quando nos falava sobre o Estado. Lembro também que, há alguns anos, ele falou sobre a carta com a qual se candidatou ao jornal: ‘Havia toda a minha vida nesta carta’.” 

“Fiquei chocado com a notícia da morte do Gilles Lapouge, de longe o melhor correspondente do Estado, onde nos honrou com seu trabalho por 70 anos. Sua lacuna jamais será preenchida, homem de uma cultura e de um refinamento que não existem mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera. Enriqueceu o Estado com seu trabalho ininterrupto a partir de 1950, quando, a convite de meu avô, Julio de Mesquita Filho, e por indicação de outro gigante, o historiador francês Fernand Braudel, veio para o Brasil. Tive o privilégio de sua amizade e generosidade por 50 anos”, afirmou Ruy Mesquita Filho, jornalista e acionista do Grupo Estado.

Para João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado, “a biografia de Lapouge está entrelaçada com a história do Estadão ao longo dos últimos 70 anos”.  “Perdemos um grande jornalista, escritor e intelectual sempre apaixonado pelo Brasil, mas, acima de tudo, uma pessoa de enorme grandeza. Ficamos mais pobres”, afirmou. 

Em junho, os filhos de Lapouge informaram que o pai havia passado por uma cirurgia e se recuperava lentamente no hospital. Nesse período, segundo contaram já em julho, Lapouge passou a rever no Twitter seus textos publicados no Estadão. Tinha planos de criar uma conta na rede social e de voltar a escrever logo.

 “O Gilles adorava trabalhar no Estadão, era um equilíbrio existencial para ele. Todos os dias ele tinha essa necessidade, uma bela necessidade, de produzir seus artigos. Ele continuava extremamente ativo e tinha seu encontro diário com a escrita. Ele amava muito o espírito do Brasil, a cultura brasileira, e esse exercício profissional diário, sobretudo para um escritor e jornalista, era algo muito importante em que ele colocava realmente o coração”, afirmou  Michel Goujon, editor do clube de livros France Loisirs, que trabalhou com Gilles por muitos anos. 

“O Gilles foi um intelectual completo, um humanista, um progressista, preocupado com as questões do mundo. A gente sempre saía melhor das leituras dos textos dele”, disse o ex-diretor de Desenvolvimento Editorial do Estadão Roberto Gazzi. “Tinha um amor especial pelo Brasil, com uma visão crítica do País. Era um patrimônio do jornal”, afirmou.

Em Paris, Lapouge costumava frequentar o restaurante La Gauloise, na avenida de La Motte-Picquet, vizinho de onde ele morava. Gostava de levar colegas brasileiros ao lugar, onde por vezes até encontrava o ex-presidente francês François Mitterrand, outro apreciador do local. Gazzi lembrou que o colega francês não era fã da feijoada brasileira. Mas, durante uma visita ao Brasil, hospedado na casa do amigo, “comeu e disse que gostou”.

“Ensaísta, jornalista apaixonado pelo Brasil, Lapouge era um viajante elegante e provocador. Acima de tudo, um grande escritor. Seu trabalho premiado é preenchido com (histórias de) piratas, memórias de sonhos, selvas e paraísos perdidos”, disse Valérie Dumeige, que foi editora do escritor na Éditions Arthaud.

“Os teólogos geralmente aconselham a morrer antes de entrar no paraíso, mas alguns preferem criar pequenos paraísos imediatamente para aproveitar as delícias do belo jardim durante sua vida”, escreveu Lapouge  no livro Atlas de Paraísos Perdidos. “Essa frase resume exatamente o que o Gilles era”, afirma Valérie. “Na França, todos admiravam Gilles e você só podia vê-lo depois que ele escrevia sua coluna. Ele impressionou a todos nós com a beleza de sua alma, seu humor e sua elegância. Ele era um viajante, foi para a África com seus filhos há dois anos. Para nós, é uma árvore enorme e bonita que acaba de ser derrubada”, continuou a editora.

Sobre a viagem à África, Mathilde Garro Lapouge, sua filha, conta que chagaram a dormir em uma barraca no deserto. “Nós fizemos uma viagem de carro com um 4x4 por uma semana. Papai, Jérôme e eu, em 2018. Saímos de Dakar, capital do Senegal, e subimos até fronteira da Mauritânia, no norte. Nós dormimos em uma barraca no deserto. Papai ria sempre porque dizia que essa tinha sido uma das melhores noites que ele passou em anos. Depois, dormimos nas margens do Rio Senegal para ver pássaros migrando. Ele andou de canoa para ver os pássaros e os crocodilos.” O jornalista tinha 94 anos na ocasião. 

 

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Gilles Lapouge
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As coincidências da raiva: leia o último artigo de Gilles Lapouge para o 'Estadão'

Tanto nos EUA quanto na França as relações entre a polícia e os afrodescendentes, e os imigrantes em geral, são violentas, mas comparar casos pode ser um equívoco

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2020 | 03h30

No início deste mês, ocorreu uma coincidência. No último sábado, um novo tipo de foguete americano se acoplou à estação orbital e, dois dias depois, nos Estados Unidos, a morte de um homem negro, morto por um policial (estrangulamento), incendiou as principais cidades americanas. Duas Américas se chocaram: a da genialidade e a do racismo.

Poucas horas depois, Paris e algumas das maiores cidades europeias já estavam nas ruas para denunciar a morte, por estrangulamento policial, de um homem negro no Val d'Oise, em 2016. E, em meio a todos esses episódios, todas essas convulsões, o coronavírus seguia seu rumo de silêncio e horror.

É forte a tentação de misturar esses dramas no mesmo discurso, principalmente os dois mortos, o de Val d'Oise, em 2016, e o de Minneapolis, em 2020. A passagem entre os dois casos é bastante clara: dois negros, na França e nos Estados Unidos, foram vítimas de um policial. 

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

De fato, o amálgama entre os dois “excessos” se deu em manifestações em Paris e em outras cidades europeias que se apressaram para passar por essa porta aberta. Nas manifestações de rua, nas redes e nos subúrbios da Europa, aponta-se para o mesmo culpado: o racismo que empesteia tanto a polícia americana quanto a francesa.

A imprensa francesa evitou esse argumento. Mesmo dedicando grandes artigos aos dois episódios, a maioria se recusa - com indignação o Fígaro e condescendência o Libération - a colocar na mesma cesta a polícia americana e a polícia francesa. Os números sublinham essa diferença: a polícia americana mata de oitocentas a mil pessoas por ano. A polícia francesa, menos de trinta. 

O recorde é da Inglaterra, que mata apenas 5 pessoas a cada ano. As comparações continuam. Os Estados Unidos são um país terrivelmente violento. As armas de fogo são autorizadas e onipresentes. “Agora”, disse um policial americano, “sempre que estamos lidando com um criminoso, achamos que ele pode estar armado e às vezes sacamos a arma antes dele”.

Na França, ainda que as redes sociais se embebedem com o caso francês e o americano, existem mais restrições. Nos círculos políticos, tudo é silêncio ou reserva. O partido comunista, até agora, não disse nada. Apenas Jean-Luc Mélenchon, eloquente porta-voz das ideias anarco-sindical-trotskistas, explicou que os subúrbios franceses estão em guerra perpétua. Até mesmo Marine Le Pen, que outrora esposava todas as teses negacionistas de seu pai, hoje encaminha uma brilhante carreira política e uma limpeza iconoclasta dos absurdos defendidos por Jean-Marie.

Ela acaba de prestar homenagem ao general De Gaulle. Certamente é uma boa escolha, pois ele sem dúvida foi um dos maiores políticos (franceses) de seu tempo. Sincera adesão de Marine ao gênio do general? Ou, então, Marine só considera proveitoso colocar De Gaulle em seu kit de campanha para as eleições presidenciais que se aproximam - e nas quais ela tem chance?

De qualquer maneira, precisamos conceder que, mesmo se a polícia francesa não puder se igualar à americana, permanece um ponto comum: tanto aqui quanto lá, as relações entre a polícia e os afrodescendentes (e os imigrantes em geral) são violentas. Deve-se dizer que os subúrbios franceses - vastos, abarrotados, habitados por imigrantes malquistos, três vezes mais parados para verificações de identidade do que os transeuntes de pele branca - não são subúrbios felizes. Nessas áreas o desemprego está crescendo como um vírus.

Perdidos diante de uma educação inadequada, os jovens negros “abandonam” o ensino médio muito cedo. O que você pode fazer com as tragédias de Racine, a filosofia de Voltaire ou as equações de Blaise Pascal quando você é pobre, mora mal e não entende a cultura francesa? Adeus, escola! 

E olá, solidão, desespero, drogas e subemprego! Assim como as minorias que habitam as cidades americanas, as minorias africanas dos subúrbios franceses estão fadadas a criar “homens e mulheres cheios de raiva”. Nem François Hollande ontem, nem Emmanuel Macron hoje ousaram cuidar desse espinho que gangrena a sociedade francesa. Mal sabem que “os amanhãs cantam”. / Tradução de Renato Prelorentzou

 

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Gilles Lapouge, o escritor do Brasil

Correspondente do 'Estadão', que morreu aos 96 anos, escreveu cinco livros sobre sua experiência no País

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 12h13

O jornalista francês Gilles Lapouge, correspondente do Estadão em Paris que morreu aos 96 anos, viveu por muitos anos no Brasil e a experiência e a saudade do País resultaram em pelo menos cinco dos cerca de 25 livros que escreveu ao longo de sua trajetória.

O mais recente a ser publicado, durante a pandemia, foi Noites Tranquilas em Belém. O romance de 2015 foi lançado agora pela Pontes Editores que tem, ainda, em catálogo, Equinociais: Viagens Pelo Brasil dos Confins, publicado originalmente em 1977 e, no Brasil, em 1990.

Noites Tranquilas em Belém é um livro multifacetado em que as culturas brasileira e francesa se mesclam num jogo de complementaridade. A vida do narrador se transforma do dia para a noite e um quebra-cabeça começa a ser montado com as peças que lhe são fornecidas pouco a pouco. Trata-se da busca da própria identidade e tudo o que se constrói a partir dela: amores, memórias e projetos. E, nessa busca, longe da França, pelas ruas, mercados e favelas de Belém, ele é guiado pelas mãos de uma criança.

Em Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil, lançado em 2014 pela Amarylis e em 2011 na França, Lapouge faz sua crônica do País a partir de palavras e nomes como acolhida, favela, escravos, Palmares, literatura e antropofagia, Rio Amazonas e Jorge Amado.   

A Missão das Fronteiras, de 2002 e que saiu pela Globo em 2005, parte da aventura rocambolesca de uma tropa de soldados brancos e mamelucos encarregada de levar um marco de três toneladas para a fronteira mais ocidental da América portuguesa, nos confins da Amazônia, no século 18. 

Em 2000, o Estadão publicou a versão digital, a única disponível e com acesso gratuito, de Au revoir l’Amazonie, com tradução de Lauro Machado Coelho.

Os interesses de Gilles Lapouge iam além do Brasil, seus personagens e suas contradições, e sua obra, de ficção e não ficção, foi traduzida para diversos idiomas. 

Ele estreou na literatura no final dos anos 1960 com Os Piratas: Piratas, Flibusteiros, Bucaneiros e outros Párias do Mar (Antígona, 1998), em que trata da pirataria como a revolta mais extrema e longeva que a humanidade conheceu. Em 1987, saiu na França e no Brasil (aqui pela Nova Fronteira) A Batalha De Wagram, sobre o confronto do exército de Napoleão Bonaparte com o austríaco em 1809. Mais recentemente, publicou, em seu país, Contribution à une Théorie des Climats e Atlas des Paradis Perdus.

"Na literatura francesa, Gilles foi um dos melhores do século passado, particularmente como ensaísta, mas também como romancista", afirma Michel Goujon, editor do clube de livros France Loisirs, que trabalhou com Gilles por muitos anos. "Ele tinha memórias muito fortes do Brasil. Amava o Nordeste, o sertão. Ele sempre contava dos anos no Brasil, das leituras de Jorge Amado. Ele gostava muito do gênero literário do Jorge Amado e as histórias dessa região." Sobre a escrita, afirmou que Gilles era um "purista". "Escrevia e corrigia 100 vezes. Muitas vezes, seus textos se assemelham a poemas, eles têm um musicalidade". 

Ao destacar a morte de Lapouge, a imprensa francesa mencionou a relação do escritor com o Brasil como uma de suas características marcantes. / COLABOROU PAULO BERALDO

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Gilles Lapouge

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Depoimento: ‘Trabalhei com excepcionais jornalistas, e Gilles Lapouge foi um deles’

Jornalista, escritor francês e colunista do ‘Estadão’ morreu nessa quinta-feira aos 96 anos

William Waack, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 15h33

Tive a sorte na minha carreira de trabalhar com alguns excepcionais jornalistas, e Gilles Lapouge foi um deles. Sem que ele soubesse, tomei dele uma das lições mais humilhantes. Foi na cobertura da primeira viagem do Papa João Paulo II à Polônia, em 1979. Na época, um dos maiores eventos de mídia: o papa polonês, recém-eleito (outubro de 1978) numa visita de fato histórica a um país comunista. Eu fazia dupla com o também saudoso Araujo Neto, pelo Jornal do Brasil, e me esforçava em tentar trazer nos textos de reportagens a abrangência e profundidade do significado daquela visita papal. Lendo o que Lapouge escrevia sobre o mesmo evento, sentia-me muitíssimo inferior à cultura, capacidade analítica e interpretação do que ele era capaz de trazer sobre religião e política, sobre o papel da personalidade na História, sobre a importância do símbolo, das emoções políticas, do peso daquilo que historiadores franceses como Fernand Braudel chamaram de “long durée”.

Gilles foi para mim a grande lição de como um romancista e intelectual genuíno era capaz ao mesmo tempo de “traduzir” para o público um momento que se desenrolava diante de nossos olhos. Impossível concorrer com aquela demonstração jornalística de cultura e sensibilidade. Além disso, era um homem excepcionalmente generoso e paciente com os mais jovens do que ele, como eu. E formava em Paris uma dupla maravilhosa com o também inesquecível Reali Junior. Posso imaginar os dois juntos hoje, em algum lugar lá em cima, trocando as gargalhadas abertas e sinceras que eram também o jeitão deles. É um mundo que foi embora.

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Depoimento: ‘Lapouge escreveu a história do mundo com elegância e maestria’

Escritor francês e colunista do ‘Estadão’ morreu nesta quinta-feira aos 96 anos

Luiz Carlos Trabuco Cappi *, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 17h32

Um olhar de amplitude, conhecimento e fina sensibilidade sobre o mundo se fecha com o falecimento do jornalista e escritor francês Gilles Lapouge, aos 96 anos de idade. Correspondente por 70 anos do Estadão em Paris, ele foi uma fonte permanente e segura para a formação de sucessivas gerações de leitores no Brasil, que passaram a compreender por meio de seus textos as complexas transformações globais do nosso tempo.

Apaixonado pelo nosso País, onde chegou em 1950, a convite do jornalista Júlio Mesquita Filho, publicou de modo ininterrupto ao longo da vida. E foram mais de 10 mil textos assinados no jornal que chamava de seu e do qual tornou-se uma referência de informação iluminista. Profícuo, ao lado do jornalismo econômico e da correspondência internacional dedicou-se à literatura, deixando-nos 25 livros, cinco deles dedicados a suas impressões sobre o país que o empolgou à primeira vista. O de estreia, Equinoxiales, narra a sua decisão de deixar a França para conhecer o Bras il.

Analista de humor refinado, abordagens originais e posicionamentos de aclamado bom senso, Gilles Lapouge escreveu a história do mundo em que vivemos com elegância e maestria.

Aos filhos Benoit, Laure-Marie, Mathilde e Jerôme, a seus amigos e colegas do Estadão e aos incontáveis leitores amealhados ao longo de uma vida inteira de atividade jornalística e literária, as nossas sinceras condolências pela perda do grande Gilles Lapouge.

* Presidente do Conselho de Administração do Bradesco e colunista do ‘Estadão’

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Ideais humanistas de Lapouge permanecerão, diz Bruno Covas

Jornalista, escritor francês e colunista do ‘Estadão’ morreu nesta quinta-feira aos 96 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 17h02

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), lamentou a morte do jornalista, escritor e colunista do Estadão Gilles Lapouge, que faleceu nesta quinta-feira, 30, em Paris, aos 96 anos

“O Brasil e a França perderam hoje um de seus importantes intelectuais com a passagem de Gilles Lapouge, escritor e jornalista francês que se apaixonou pelo nosso país e contribuiu para a consolidação da nossa democracia e de uma sociedade mais justa por meio dos seus artigos e coberturas jornalísticas produzidos ao longo dos últimos 69 anos para o jornal o Estado de S. Paulo”, afirmou o prefeito, em nota.

“Gilles Lapouge fará muita falta, mas os seus ideais humanistas permanecerão e sua obra continuará influenciando positivamente as futuras gerações. À família, parentes e amigos os meus sinceros sentimentos.”

Gilles chegou ao Brasil em 1951, a convite do jornalista Júlio Mesquita Filho, diretor de O Estado de S.Paulo. Ele escreveu seu primeiro texto no ‘Estadão’ em 1951 e o último, em junho.

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Imprensa francesa destaca relação de Gilles Lapouge com o Brasil

Na França, jornalista foi um dos criadores de um dos principais programas televisivos de literatura do país

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 15h45

Ao noticiar a morte de Gilles Lapouge, jornais franceses abordaram a longa relação do jornalista e escritor com o Brasil. Le Figaro, Le Monde e Le Journal du Dimanche ainda destacaram o papel de Gilles na imprensa francesa por ter sido um dos criadores do programa Ouvrez les guillemets (Abra aspas), que se tornaria o Apostrophes, uma das principais produções televisivas de literatura do país. Segundo familiares, Lapouge não resistiu a uma infecção pulmonar. Jornalista do Estadão há 70 anos, ele faria 97 anos em novembro. 

O Le Figaro cita a relação de Gilles Lapouge com o Brasil e compara sua curiosidade com a do escritor Stendhal, lembrando do livro 'Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil'. O texto lembra que Gilles foi "pego" pelo vírus do jornalismo pela sua passagem no Brasil, nos anos 1950, quando se tornou correspondente do Estadão

"Desde essa data e por mais de 60 anos, ele colaborava regularmente com o principal jornal do País, O Estado de S. Paulo, escrevendo o equivalente, segundo seus cálculos, a cerca de cinquenta volumes da "Pléiade" (coleção de livros de uma famosa casa editorial francesa)", escreveu o Figaro. De acordo com o acervo do Estadão, foram mais de 10 mil textos escritos. Pelo menos cinco dos mais de 25 livros que escreveu ao longo de sua trajetória tiveram o Brasil como tema.

No Brasil, viajou pela Amazônia, Rio de Janeiro, São Paulo e era apaixonado pelo Nordeste, principalmente pelo sertão. "Ele tinha memórias muito fortes do Brasil. Amava o Nordeste, o sertão. Sempre contava dos anos no Brasil, das leituras de Jorge Amado. Ele gostava muito das histórias dessa região", disse ao Estadão o amigo Michel Goujon, editor do clube de livros France Loisirs que trabalhou com Gilles por muitos anos. "Ele era um purista com a escrita, escrevia e corrigia 100 vezes. Muitas vezes, seus textos se assemelham a poemas, eles têm um musicalidade". 

"Na França, todos admiravam Gilles e você só podia vê-lo depois que ele escrevia sua coluna. Ele impressionou a todos nós com a beleza de sua alma, seu humor e sua elegância. Ele era um viajante, foi para a África com seus filhos há dois anos. Para nós, é uma árvore enorme e bonita que acaba de ser derrubada", afirmou Valérie Dumeige, que foi editora do escritor na Éditions Arthaud.

O jornal Le Monde escreveu que um grande "escritor viajante" morreu, destacando a curiosidade como uma das características marcantes de Lapouge. Cita a passagem de Lapouge pela rádio e também pela televisão, descrevendo-o como um "homem das mídias". A agência de notícias francesa AFP, que distribui seu conteúdo para dezenas de países, também noticiou a morte do escritor e sua relação com o Brasil. 

O Le Journal du Dimanche usa as próprias palavra de Lapouge para descrevê-lo: "Sou mais um viajante surpreendido do que um viajante surpreendente". O texto também cita o "caminho único" de ser um profundo conhecedor do Brasil.

O jornal cita a passagem de Lapouge na imprensa francesa em veículos como Le Monde, le Figaro e em transmissões televisivas para falar de literatura na França. O diário usou as mesmas palavras da Embaixada da França no Brasil para resumir uma característica inconfundível de Lapouge: 'Era um apaixonado pelo Brasil". 

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Literatura de Lapouge mostra o talento de um escritor crítico

Premiado pela Academia Francesa, jornalista buscou o paraíso perdido no Brasil e escreveu livros sobre sua paixão e suas decepções com o País

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 20h55

Há mais ou menos um ano, Gilles Lapouge, colaborador habitual do caderno Aliás nestes três últimos anos, escreveu um texto em que analisava o mercado editorial francês. A França tinha motivos para comemorar o crescimento vertiginoso da publicação de livros na última década? Contrariando as expectativas, ele respondeu que não: “Tais números são enganosos porque, na verdade, editores e livrarias sofrem, mostram sinais de fadiga”. Poucos autores, em sua opinião, mereciam ser assim chamados. “O crescimento exponencial da oferta não elevou a qualidade; o desperdício é gigantesco; a maioria desses escritos é medíocre”. Naturalmente, Lapouge era uma exceção. Jornalista experiente, ele manteve o bom hábito da leitura e, portanto, escrevia como poucos. Foi um privilégio ser seu interlocutor e editor.

Estivemos juntos algumas vezes, sempre em suas breves passagens pelo País. Vinha lançar um livro ou participar de um debate, que tanto podia ser sobre política como sobre o amor, sobre a dificuldade de amar. Esse era um tema caro a Lapouge. Gilles até escreveu um livro sobre ele. Mais especificamente, sobre a dificuldade de amar o nosso país. Em Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil, ele toca em assuntos desagradáveis como racismo e violência para descrever sua relação de quase 70 anos com o País.

Um de seus livros mais recentes trata exatamente dessa busca pelo paraíso que logo se revela um inferno. Aos 95 anos, Gilles lançou uma obra sobre a utopia, sobre os paraísos reais ou inventados pelos homens: Atlas des Paradis Perdus. Nele, Lapouge recupera os paraísos perdidos de lorde Osgood e os Campos Elísios imaginados por Henri Racine de Monville, também no século 18, um parque temático que sucumbiu à Revolução Francesa. Nesse paraíso imaginário, pagodes chineses dividiam o espaço com igrejas góticas. 

Mas o que parecia um paraíso real para ele em 1951 virou um inferno bem maquiado, uma Cítera à beira do colapso ambiental, o que o afastou cada vez mais do Brasil. Melhor pegar outro livro de Lapouge, Noites Tranquilas em Belém, romance publicado em 2015 e que será brevemente lançado pela Pontes Editores. Nele, a cultura francesa se funde à brasileira. Um narrador em busca da própria identidade dá ao leitor um perfil curioso de Gilles, um homem premiado pela Academia Francesa que, de fato, amou nosso território que tão pouco tem a oferecer além da ignorância e da brutalidade. 

Ainda sobre os tristes trópicos Lapouge escreveu Equinociais: Viagens Pelo Brasil dos Confins, em que narra uma viagem feita em 1975. Nela nascia uma visão crítica a respeito do falso paraíso que agora trocou pelo real. Como disse o próprio Lapouge em seu Atlas, os homens não perdem a mania de buscar o paraíso perdido, mesmo que saibam que o Éden cerrou suas portas. Portanto, reconstruir esse paraíso por meio da literatura é não só um sinal de perseverança como de amor à civilização. Gilles tinha os dois. E esperança.

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‘Deixei uma Europa mutilada e desembarquei num país de sol’

Em texto de 1992, Gilles Lapouge fala sobre quando conheceu Julio de Mesquita Filho

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 21h44

“Conheci Julio de Mesquita Filho ao mesmo tempo que descobri o Brasil, dois personagens igualmente consideráveis. O encontro ocorreu no aeroporto do Rio, no início de 1951, durante o verão (...) Convidado por um amigo de Julio de Mesquita Filho, o professor Fernand Braudel, para ser redator econômico no Estado, deixei uma Europa cansada e mutilada por uma recente guerra, com sua tristeza provocada pela barbárie, seus horrores, e desembarquei num país de sol, alegria e vida.

E o inacreditável foi ser recebido pelo próprio diretor do Estado, que teve a cortesia, a delicadeza de viajar de São Paulo ao Rio para receber um jovem jornalista francês. Viajamos para São Paulo. Observava espantado as paisagens pitorescas do País. Demos rápida volta pelo centro, onde admirei o edifício Matarazzo. Tudo era estranho. Fiquei hospedado num hotel no centro.

Eu era jornalista do Estado. Escrevia artigos, aprendia a língua portuguesa e Julio de Mesquita Filho falava comigo todas as tardes, por volta das 17h (...) Durante mais de 20 anos trabalhei com ele, escutei seus ensinamentos. Admirei sua inteligência, cultura, a amplitude de sua visão. Mas o que mais admirei foi sua honestidade intelectual. E nesse dia de 1969, quando que jamais reveria Julio de Mesquita Filho (que havia morrido), disse a mim mesmo que havia perdido um homem que, pela primeira vez, ousava chamar de ‘meu amigo’.”

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