Renata Jubran/AE
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Jornalista Alberto Dines morre aos 86 anos

Dines, que estava na profissão desde 1952, foi editor-chefe do Jornal do Brasil nos anos 1960 e 1970, quando driblou vetos da ditadura

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 10h01

O jornalista Alberto Dines morreu na terça-feira, 22, aos 86 anos, em São Paulo. Ele tinha sido internado há dez dias no Hospital Albert Einstein, no Morumbi (zona sul), em decorrência de uma gripe, mas o quadro se agravou para uma pneumonia. A causa da morte não foi oficialmente informada. Dines marcou sua carreira de mais de seis décadas pela postura crítica ao regime militar e à própria mídia.

O falecimento foi confirmado pelo site criado por ele em 1995, o Observatório da Imprensa, nas redes sociais. “É com profunda tristeza que a equipe do Observatório da Imprensa comunica o falecimento de seu fundador, Alberto Dines (1932-2018), na manhã de hoje (terça-feira) no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Estamos preparando uma edição especial sobre o legado do mestre Dines a ser publicada em breve”, diz o texto divulgado no Facebook pelo Observatório.

+ Dines, uma referência

Dines nasceu em 19 de fevereiro de 1932, no Rio. Aos 20 anos iniciou a carreira na revista A Cena Muda e apenas dez anos depois já era editor-chefe do Jornal do Brasil, onde atuou como diretor dos cadernos Comunicação e Cadernos de Jornalismo, ao lado de Fernando Gabeira. Em 1963, criou a cadeira de jornalismo comparado da PUC-RJ e, em 1968, foi preso após criticar a ditadura em um discurso na universidade.

Sua postura crítica em relação ao governo militar abreviou sua carreira no Jornal do Brasil, de onde saiu demitido em 1973 após driblar a proibição de publicar na primeira página do jornal manchete sobre a morte do então presidente chileno Salvador Allende. O JB foi às bancas com um texto longo sobre o assunto na primeira página, sem, contudo, exibir uma manchete, ou seja, um título principal. A capa entrou para a história do jornalismo brasileiro.

Após dois anos, assumiu a chefia da sucursal da Folha de S.Paulo no Rio e lá permaneceu até 1980. Nesse período, criou o espaço Jornal dos Jornais, dentro da Folha, em que entre 1975 e 1977 fez críticas ao jornalismo na época. Após escrever uma sátira para o Pasquim, jornal famoso por fazer críticas à ditadura, Dines deixou a publicação.

Em 1982, Dines se mudou para Portugal para escrever a biografia do escritor Stefan Zweig (alemão que fugiu para o Brasil no governo de Adolf Hitler). Após a publicação do livro, assumiu o cargo de secretário editorial da Editora Abril, onde criou a versão portuguesa da revista Exame. Em 1988, foi nomeado diretor do Grupo Abril em Portugal.

Em 1993, já no Brasil, foi cofundador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Sempre interessado na vida acadêmica e na qualidade da profissão, criou dois anos depois o Observatório da Imprensa. O portal foi para a TV em 5 de maio de 1998, em programa veiculado semanalmente. Dines escreveu 15 livros, de ficção a reportagens e biografias. Ele deixa mulher e quatro filhos.

Repercussão

O presidente Michel Temer lamentou a morte de Dines. “O jornalismo brasileiro perde um dos pilares da ética e do profissionalismo”, disse, no Twitter. “Alberto Dines passou pelos mais importantes veículos do País e criou uma geração de jornalistas comprometidos com a correção da informação. Meus cumprimentos à família”, concluiu o presidente.

O governador de São Paulo, Márcio França, também se manifestou. Segundo ele, o País se despede “de um jornalista brilhante”. Em nota, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) afirmou que “o principal legado de Dines foi a coerência que sempre manteve diante dos mandamentos que regem a boa prática do jornalismo”. Dines integrava o Conselho Consultivo da ABI. 

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