Jornalismo fiscaliza os donos do poder, diz jornalista do ‘NYT’ em evento do ‘Estado'

Jornalismo fiscaliza os donos do poder, diz jornalista do ‘NYT’ em evento do ‘Estado'

Michael Greenspon participou de debate sobre a relevância da imprensa durante o Summit Brasil – O Que é Poder

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 17h50

Os políticos que atacam a imprensa não estão preocupados com o acesso da população à verdade, mas sim em prejudicar a legitimidade da mídia profissional, disse o jornalista Michael Greenspon, líder de licenciamento e inovação de mídia impressa do The New York Times, durante o evento Summit Brasil – O Que é Poder, promovido pelo Estadão, nesta quarta-feira, 30, em São Paulo.

Greenspon participou de um debate com o diretor de jornalismo do Estadão, João Caminoto, e com William Waack, colunista do jornal. “Em meu país, (o presidente Donald Trump) se refere ao jornalismo como os ‘inimigos do povo’. São palavras que costumavam ser ditas por ditadores.”

O jornalista do NYT lembrou que a mídia tradicional tem a seu favor o comprometimento com o rigor e o tratamento justo dos fatos. Ele defendeu a crença de que a imprensa de qualidade melhora a vida das pessoas e torna a sociedade mais justa. “O jornalismo anda de mãos dadas com a democracia porque fiscaliza os donos do poder.”

No entanto, com a mudança na distribuição das informações e a ascendência de plataformas digitais – como o Facebook e o WhatsApp –, a exposição da população a notícias falsas está cada vez maior. Uma pesquisa mostrou que 44% dos brasileiros receberam informações sobre política nas eleições do ano passado principalmente por WhatsApp.

Sem curadoria, esse material pode ser tóxico. Uma pesquisa feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que 56% das 15 imagens mais compartilhadas no Brasil durante as eleições de 2018 eram falsas. “E só quatro (dessas imagens) eram com certeza verdadeiras. As outras caíam em uma zona cinza.”

De certa forma, disse Greenspon, a mídia tradicional vem perdendo essa guerra. Um exemplo disso, segundo ele, é o fato de que 82% dos republicanos dizem hoje confiar mais em Donald Trump do que na mídia independente. Para o jornalista, é um sinal de que as palavras, verdadeiras ou não, têm sua importância.

Parcerias

O jornalista do NYT afirmou que grandes empresas de tecnologia, como Facebook e Google, têm uma parcela de responsabilidade na defesa da imprensa livre, uma vez que são grandes distribuidoras de informações. “Essas plataformas se tornaram as maiores distribuidora de notícias e informação da história da humanidade”, lembrou. “Eu não acho que (a relação do público com a imprensa) é irreversível, mas também não acho que a mídia pode fazer isso sozinha”, afirmou.  “Há alguns sinais (positivos) nesse sentido, como o Facebook Tab, que está sendo lançado com parceiros de mídia.”

Esse tipo de parceria é relevante pela escala das redes sociais. Greenspon lembra que, embora o NYT tenha uma grande audiência, de cerca de 150 milhões de pessoas ao mês, ela é pequena em relação ao Facebook, que atinge esse mesmo contingente em questão de horas. 

Virando a página

Para Caminoto, do Estadão, existe uma tendência de fadiga da população em relação às notícias falsas – o que pode facilitar o retorno das pessoas à mídia tradicional. O jornalista lembrou que, em momentos de notícias muito de forte impacto, a audiência de jornais como o Estadão tende a subir muito. “Isso acontece porque a busca pelas fontes tradicionais aumenta.”

Ele ponderou, no entanto, que as empresas jornalísticas precisam se adaptar aos anseios de sua audiência. “Historicamente sempre houve uma postura arrogante em decidir o que deveria ser publicado. O mundo mudou: a informação é mais diversificada e rica. E a mídia, em geral, demorou para perceber isso.” 

Caminoto lembrou ainda que o número de leitores do Estadão nunca foi tão alto. Atualmente, as plataformas digitais do grupo atingem hoje 27 milhões de usuários por mês. “No auge da versão impressa, nossa audiência era de 2,5 milhões de pessoas, no máximo. “Eu tenho dúvida se a gente perdeu (leitores). O nosso desafio agora é fornecer jornalismo de forma cativante, que seja relevante para a rotina das pessoas.” /COLABOROU TULIO KRUSE

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