''Jornalismo ficou refém da área administrativa''

Ex-diretor-geral da EBC diz que formato da TV pública não é adequado a essa atividade

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 00h00

Nove dias depois de pedir demissão do cargo de diretor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Orlando Senna diz acreditar que sua saída já esteja gerando resultados positivos. Um de seus idealizadores da EBC, Senna saiu queixando-se do engessamento de sua estrutura."Minha intenção não era prejudicar. Imagina, estou nisso há seis anos. Seria um contra-senso absoluto", afirma o cineasta, nesta entrevista ao Estado. O que o sr. quer dizer quando fala do engessamento da EBC? Estou falando de dificuldades de operação, de problemas inerentes à natureza da EBC, que é uma empresa pública dependente. A EBC começou como não-dependente, mas logo foi mudada a figura jurídica. No dia-a-dia, nos demos conta de que o formato não é adequado a essa atividade, que é dinâmica. Essa inadequação empresarial gera problemas na forma de gestão. Qual foi a gota d?água?Os motivos que me impeliram a tomar essa atitude foram dois: um é que a direção-geral tem muito pouco poder de decisão. Uma função que deve cuidar da prática, do chão de fábrica da EBC, não tinha mobilidade para isso. Não estou culpando ninguém. Não é a Tereza (Cruvinel, diretora-presidente). Se não fosse ela, seria outra pessoa. A outra razão foi também chamar a atenção, tentar causar um pequeno choque elétrico, não só na empresa, mas no setor. Como foram os primeiros meses da TV pública? O que aconteceu é algo que não pode acontecer numa empresa de televisão: as áreas de programação, conteúdo e jornalismo ficaram reféns da área administrativa e financeira. Os diretores setoriais e gerentes não têm autonomia para cumprir suas missões. Os estatutos têm de ser mudados, porque concentram um porcentual inimaginável de poder decisório apenas na presidência.Pode dar um exemplo prático? Em sete meses de funcionamento, nós conseguimos a duras penas três programas jornalísticos novos. Isso é muito pouco. Tínhamos de cumprir um plano de pelos menos dois programas novos por mês ou a cada dois meses. Em sete meses, não conseguimos fazer nenhum piloto de programa.

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