Jorge Forbes: ‘Nos dias atuais, o valor está na singularidade’

O que os 13 anos de governo petista representaram para a cultura pop?

Entrevista com

Jorge Forbes, psicanalista

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

O que aconteceu nos últimos anos não foi a partir do PT. Aconteceria em maior ou menor grau independentemente do partido no poder. O que aconteceu foi que na primeira eleição do Lula o brasileiro precisou escolher entre a razão sensível e a razão asséptica. Por razão asséptica entenda “a vida como a vida é”, com suas verdades, completa, certeira, sem falhas ou subjetividade (encarnada, na ocasião, pela candidatura José Serra). Já por razão sensível entenda aquela razão que aceita e prefere a subjetividade (representada pelo então candidato Lula). Com a vitória de Lula (e depois de Dilma), o Brasil optou pela razão sensível, pela subjetividade.

Só o Brasil?

Não. Mas o Brasil foi quem primeiro adotou a razão sensível. Países europeus têm mais dificuldade em aceitar uma liderança sensível – já que a subjetividade nem sempre pode ser controlada. Mas, de fato, esse é um movimento mundial, é a pós-modernidade, é um mundo horizontal, um mundo onde afeto e amizade são valores importantes. Nesse sentido, os artistas que captaram essa mudança ganham relevância.

O senhor acha que o crescimento econômico do período petista ajudou no crescimento de movimentos como o funk, por exemplo?

Há 30 anos, o foco de interesse estava em cima dos grupos no topo da pirâmide. As colunas sociais, por exemplo, eram um espaço para contar a história desses grupos. O discurso elitista era o da exclusividade. O valor estava na exclusividade. Agora, nos dias atuais, o valor está na singularidade. A bossa-nova foi um movimento que representou o mundo da exclusividade. Já o funk e outros artistas populares são legítimos representantes de um mundo em que o valor está na singularidade, um mundo que por acaso surgiu nos 13 anos petistas.

A internet foi muito importante nesse movimento em prol da singularidade, não é?

Os brasileiros participam muito da internet. As redes sociais são feitas para esse mundo horizontal. Por isso, deixamos de ser apenas consumidores de cultura para ser produtores também. Os youtubers e blogueiros são fruto dessa cultura da singularidade.

Como o senhor enxerga um sucesso como Tropa de Elite dentro desse contexto de sensibilidade e singularidade?

Por um lado, é um filme bonito e agressivo sobre o nosso caos social. Um filme que mostrou a mistura que é a sociedade brasileira, essa proximidade entre a autoridade e o meliante. Gosto do nome também. O filme trata de uma elite que não é uma elite de verdade. Agora, por outro lado, as consequência de Tropa de Elite foram desastrosas. As empresas brasileiras começaram a usar o bordão “missão dada é missão cumprida” em cursos motivacionais e, além disso, mostrou esse lado reacionário de quem não aceita os novos “laços sociais” do Brasil. Foi muito controverso.

Na literatura, parece que pouca coisa aconteceu no período, exceto livros de autoajuda e de caráter religioso...

Na pós-modernidade, as pessoas estão angustiadas com a quantidade de escolhas que precisam fazer diariamente. Elas ficam apavoradas e se perguntam: “O que devemos fazer?” Assim, os livros de autoajuda e religiosos vendem a ideia de que podem trazer essas respostas prontas. Não trazem. São um desastre. Não temos, infelizmente, nada de expressão acontecendo na literatura. O brasileiro tem na canção, nas letras de música, sua expressão mais habitual. Não somos, infelizmente, tão ligados à literatura. 

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