Jobim ironiza Itamaraty diante de embaixadores

Ao pedir mais prática e menos retórica, ministro diz que diplomatas ?são bons com adjetivos e advérbios de modo?

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Em passagem por Washington para se reunir com autoridades americanas, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ironizou o Itamaraty. Durante evento no Brazil Institute do Woodrow Wilson Center, ele criticou o trabalho do Itamaraty diante do embaixador em Washington, Antonio Patriota, e de pelo menos três antigos embaixadores dos Estados Unidos no Brasil.Patriota havia feito uma apresentação na qual citara várias autoridades americanas que tinham chamado de "estratégica" a relação dos EUA com o Brasil. E o embaixador elogiou a evolução do relacionamento, que também chamou de "estratégico". "Dêem o nome que quiserem: parceria estratégica, meio estratégica, inteira estratégica, isso não importa", disparou Jobim durante sua apresentação. "Isso os companheiros do Itamaraty vão saber tratar, eles são bons com adjetivos e advérbios de modo." Segundo ele, é preciso que as relações entre os dois países se aprofundem na prática, e não apenas na retórica.Em um painel posterior, Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington, também criticou o Itamaraty: "Há muitos discursos sobre relação estratégica e eles não querem dizer nada; não existe um único documento em que esteja escrito que o Brasil é parceiro estratégico dos EUA - precisamos nos livrar desses rótulos e evitar projetos grandiosos".Ele se mostrou cético quanto à relação Brasil-EUA no curto prazo. "Nos próximos dois anos, os Estados Unidos vão estar ocupados demais com a crise econômica, a guerra no Iraque e no Afeganistão. América Latina e Brasil não serão prioridades", disse. "E do lado do Brasil, há poucas chances de a visão do Itamaraty mudar - eles priorizam as relações Sul -Sul." AMAZÔNIAEm sua exposição, Jobim afirmou também que a Amazônia é vítima de uma "agenda ecológica produzida fora do País" e acusou europeus de tentarem transformar a floresta em "um parque" para suas visitas. "O Brasil sabe que a floresta amazônica é um benefício para o mundo, mas também sabe que compete a ele preservar esse espaço, com uma política definida por ele próprio", disse o ministro. "Não há que se pensar que nós possamos preservar a Amazônia para o deleite de europeus que desejam fazer uma espécie de parque de árvores para suas visitas de final de semana ou para passeio deliciado por seus netos."Jobim defendeu o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, outro participante do seminário, das críticas de ambientalistas. "Eu vejo aqui o governador Blairo Maggi, que é um dos personagens do Brasil que sofrem acusações decorrentes de agendas que não são brasileiras", afirmou. "Os preservacionistas absolutos acabam empurrando uma população de mais de 20 milhões de pessoas (da Amazônia) para a ilegalidade."

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