Jobim ganha espaço no governo Lula

Estilo forte e centralizador do novo ministro da Defesa rendeu a ele o apelido de ''''Poderoso Thor''''

Marcelo de Moraes, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2012 | 00h00

Nomeado ministro da Defesa numa operação de emergência para tentar conter o caos aéreo, Nelson Jobim começa a aproveitar o vácuo político dentro do governo para se credenciar como o principal auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.Há pouco mais de duas semanas no cargo, o estilo forte de Jobim tem se destacado num momento em que Lula e seus principais aliados estavam acuados politicamente por conta dos efeitos provocados pelo segundo desastre aéreo de grandes proporções no País num período de apenas dez meses.Se Jobim encontrou espaço para se tornar um ponto de referência do governo, essa exposição também já provoca desconforto em setores do PT, que o consideram ''''tucano demais'''' - ele foi ministro da Justiça do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e é um dos amigos mais próximos do governador de São Paulo, José Serra. Petistas desconfiam que, se permanecer forte, Jobim, que é do PMDB, poderá se tornar um candidato na sucessão presidencial de 2010.Mais: dentro do governo, o poder dado a Jobim abriu a temporada de ciúmes e de críticas pelo estilo forte e centralizador, o que lhe valeu o apelido irônico de ''''Poderoso Thor''''. Independentemente disso, políticos aliados de Lula e de oposição concordam que a presença de Jobim melhorou a situação do governo. ''''Existia um espaço que ele soube ocupar muito bem'''', elogia o líder do PC do B na Câmara, deputado Renildo Calheiros (PE).A própria situação política de Jobim ajuda a evitar críticas que a oposição disparava seguidamente sobre Waldir Pires, seu antecessor na Defesa. Como deputado e ministro, Jobim sempre esteve mais perto do grupo que faz oposição ao governo Lula do que do PT. Sua indicação para o Supremo Tribunal Federal foi feita pelo então presidente Fernando Henrique.Além disso, ao contrário de Waldir Pires, Jobim assumiu o comando de todas as ações envolvendo o setor aéreo, incluindo as investigações sobre o acidente do Airbus da TAM. Antes de sua chegada, as ações no setor eram dispersas - Infraero, Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Ministério da Defesa, entre outros, quase sem coordenação. Desde sua posse, Jobim já mudou o comando da Infraero, assumindo o desgaste de substituir um militar por um político com experiência de gestor, o ex-deputado Sérgio Gaudenzi (PSB-BA), seu amigo pessoal. ''''Gaudenzi é um ótimo gestor e um tocador de serviço. Disse-lhe que sua ida para a Infraero seria boa para Jobim e para ele mesmo'''', afirma o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos.Jobim só não altera a Anac por conta das restrições legais que impedem a substituição de diretores de agências reguladoras que estejam no exercício do mandato. Se dependesse de sua vontade, a agência teria outros diretores. ''''A Anac virou um balcão de negócios do sistema aéreo brasileiro. Tenho que ser sincero. Meu Estado tem três vôos diários. Nem precisava. Dois só bastavam. Liberaram o funcionamento de linhas aéreas demais'''', cobrou o deputado Luciano Castro (RR), líder do PR na Câmara, durante reunião do Conselho Político do governo. ''''Houve concessões excessivas'''', concordou o ministro.O discurso de Jobim também tem sido muito claro, sempre cobrando ações. ''''Nunca se queixe, nunca se explique, nunca se desculpe. Aja ou saia. Faça ou vá embora'''', disse o ministro logo na sua chegada, num tom bem diferente do de seu antecessor. Por conta disso, a demissão de Pires deu outra dimensão à pasta, uma vez que sua cabeça era pedida pelos partidos de oposição desde o início do caos aéreo, ainda em 2006.''''O senhor sabe que a CPI nunca quis chamar o ministro Waldir Pires para prestar explicações sobre a crise aérea porque achamos que não teria proveito. Não pela história e carreira política dele, que respeito. Mas porque todo mundo sabia que ele não participava da maioria das decisões'''', afirmou o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), relator da CPI do Caos Aéreo, conversando com o ministro.Jobim sabe que a manutenção do prestígio depende de resultados. Por enquanto, ele tem aproveitado cada minuto e adotado uma agenda de compromissos semelhante a de um presidente, sem interrupção nos fins de semana. ''''Ele tem autoridade e passa confiança e isso é importante para o governo'''', reconhece Renildo Calheiros.

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