Jobim e Exército consideram crise como 'página virada'

Divulgação de que ministro pensou em demitir o general Enzo causou desconforto em desfile militar

Tânia Monteiro,

07 Setembro 2007 | 21h58

A divulgação de que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ameaçou demitir o comandante do Exército, Enzo Peri, e todos os generais que o apoiassem, em um ato de contestação de sua autoridade, causou desconforto entre os militares que participaram da cerimônia de 7 de Setembro. Mas para evitar uma escalada da crise, os militares não quiseram comentar o episódio. Os dois lados preferiram encerrar a fase de discussão desencadeada pela decisão do Planalto de transformar em ato de governo a cerimônia de lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade (que conta, na versão dos militantes, a história da luta contra a ditadura no Brasil). Nesta sexta-feira, tanto o ministro Jobim, quanto o general Enzo, evitaram dar declarações. Mas ambos disseram a interlocutores que o assunto estava encerrado e já podia ser considerado "página virada". Quando Jobim chegou ao palanque, os três comandantes militares já estavam lá. O ministro da Defesa se dirigiu ao general Enzo e brincou com ele, fazendo alusão à matéria, de que estava querendo cortar sua cabeça. O general Enzo, respondeu, também brincando, demonstrando que estava tudo bem e que não havia novos problemas a serem resolvidos. A cena foi assistida por autoridades civis e militares que já estavam no palanque e foi entendida como um sinal de que dali não surgiria nenhuma nova crise militar e que, este problema, pelo menos por enquanto, estava superado. Pouco antes do final da cerimônia, Jobim fez questão de dar uma demonstração pública de que o relacionamento entre ele e os comandantes era o melhor possível. Saiu de sua cadeira, na extremidade da fileira onde estavam os comandantes e se dirigiu para a outra ponta, onde se encontravam o general Enzo e os comandante da Marinha, Moura Neto, e da Aeronáutica, Juniti Saito, e fez questão de permanecer por mais de 15 minutos ao lado deles, conversando, descontraidamente, dando tempo para que todas as imagens possíveis fossem registradas. O posicionamento dos comandantes na primeira fila do palanque foi alterado para a extremidade pelo cerimonial do Planalto, com a justificativa de que, primeiro as tropas apresentavam continência ao presidente da República e, só depois, aos comandantes. Um ministro resumiu o episódio, ao contar a cena que assistiu do encontro inicial com troca de brincadeiras entre Jobim e Enzo, dizendo que "cada um fez a sua birra e que, ao final da história, os dois resolveram encerrar o episódio, para tranqüilidade da Nação". Mesmo que surjam manifestações por causa do vazamento das ameaças, os militares acreditam que elas se resumirão ao pessoal da reserva, mas que todos estão interessados em não alimentar esta crise, que não seria benéfica para ninguém. O chefe do Estado Maior do Exército, general Luiz Edmundo Maia Carvalho, que ocupava interinamente o Comando da Força Terrestre, quando do lançamento do livro, e que procurou Jobim para lhe dizer que os militares estavam insatisfeitos com a decisão do governo de fazer a solenidade no Planalto, transformando o livro em documento oficial, não estava presente à cerimônia do dia da Pátria. O general Carvalho se encontra em visita oficial à China e aos Estados Unidos e só retorna ao Brasil na semana que vem. Na conversa que então manteve com Jobim, o general adotou tom de advertência para a possibilidade de os militares da ativa criticarem o livro e o ministro reagiu avisando que não toleraria reações, repetindo esta posição de ameaça, em discurso na solenidade. Em resposta, dois dias depois, o Alto Comando do Exército emitiu nota, respondendo a Jobim, mas em tom amistoso, sem ofensas, que foi considerada aceitável pelo ministro, que viajou no dia seguinte com o comandante para o Haiti, onde não trataram do assunto. Apesar do estilo truculento de Jobim, que tem reiterado, sempre que pode, sua autoridade, os militares entendem que ele tem força política para defender os interesses das três Forças que passam por reequipamentos, fortalecimento da indústria de defesa e melhorias salariais. Os dois primeiros pontos estão sendo encaminhados, com o lançamento do PAC da Defesa, pelo presidente Lula, anteontem. O terceiro, do aumento, deverá ser incrementado por Jobim proximamente, que já defendeu a necessidade de reajuste do salário dos militares. A idéia é aproveitar um estudo de reajuste, que já está no Planejamento, a ser concedido, em duas parcelas. A primeira, de 14%, imediatamente, assim que for aprovado, e a segunda, 11%, a partir da metade do ano que vem.

Mais conteúdo sobre:
7 DE SETEMBRO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.