Jobim deve permanecer na Defesa

Apesar de ter tido embates com a presidente eleita, atual ministro tem apoio de Lula e Palocci e é nome mais cotado para o cargo

Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo,

24 de novembro de 2010 | 20h08

BRASÍLIA - Condutor do delicado e bilionário processo de aparelhamento das Forças Armadas e com fama de bons serviços prestados ao governo Lula, Nelson Jobim é o nome mais cotado para permanecer à frente do Ministério da Defesa. Na quarta-feira da semana passada, Jobim recebeu para um almoço o deputado Antonio Palocci (PT-SP), um dos coordenadores da transição do novo governo.

 

No cardápio, a consulta a Jobim se concordaria em continuar à frente do Ministério da Defesa no governo da presidente eleita Dilma Rousseff. A conversa, no entanto, não foi conclusiva e será retomada assim que Dilma fechar o desenho que deseja para o Planalto e a equipe econômica.

 

O convite a Jobim é do interesse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente enumera várias razões para sua permanência. Primeiro, a dificuldade de encontrar pessoas com perfil específico para comandar a área militar, uma pasta com enorme complexidade. Jobim também está no meio da condução do processo de verdadeira instalação do Ministério da Defesa e está conduzindo o embate que ainda poderá ocorrer em torno do Plano Nacional de Direitos Humanos, que se encontra no Congresso.

 

Enviado pela presidente eleita, Palocci, que também defende a permanência de Jobim no cargo, começou a conversa perguntando ao atual ministro se ele "teria interesse em permanecer no cargo". Ouviu do ministro da Defesa que "quem tem de demonstrar interesse em ele permanecer ou não no cargo é o novo governo e não ele". O diálogo foi interpretado por alguns segmentos como delicado. Mas a Defesa e a equipe de transição asseguram que não houve nenhuma trombada.

 

Ao justificar porque considerava que o sinal da consulta estava invertido, Jobim contou a Palocci quais as circunstâncias que o levou a aceitar o convite de Lula e assumir o Ministério da Defesa. Na época, o País vivia a crise aérea e Lula estava decidido a tornar a Pasta uma realidade, o que não tinha acontecido até então. Jobim acrescentou que, se houver interesse por sua permanência por parte do governo, gostaria de saber quais seriam as condições para ele permanecer.

 

Jobim não tem comparecido a festividades do governo e cerimônias em que a presidente eleita esteja presente para não parecer que está se apresentando. Tem também evitado a imprensa, limitando-se a dar declarações sobre assuntos restritos à pasta.

 

Embates

 

O ministro já teve alguns embates com Dilma, quando ela era ministra-chefe da Casa Civil, principalmente em relação a questões da Infraero. Ela também não gostou quando viu uma declaração do ministro, em abril deste ano, dizendo que a popularidade do presidente Lula não garantia o sucesso de Dilma na corrida eleitoral. Em outra ocasião, comunicou ao presidente Lula que não poderia apoiar e colaborar na candidatura Dilma porque era amigo íntimo do candidato tucano, José Serra, com quem tinha dividido apartamento em Brasília e de quem tinha sido padrinho de casamento.

 

Este ponto, que alguns consideraram negativo, depois foi visto como sinal de lealdade ao presidente Lula porque Jobim não se envolveu em nenhuma das duas campanhas e passou a maior parte do tempo viajando.

 

Os interessados na permanência da Jobim lembram que ele demonstrou uma "fidelidade constitucional" ao presidente, necessária a quem exerce uma função de Estado e não política. Avaliam como positivo ainda o fato de Jobim ter poder sobre os militares e ser respeitado por eles, podendo, com isso, negociar questões delicadas, como o Plano de Direitos Humanos, e vencer qualquer tipo de resistência que possa existir contra a presidente, que foi guerrilheira.

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