Jobim chega ao Haiti para visitar soldados brasileiros

Ministro será informado sobre condições de trabalho das tropas; OAB-RJ critica ocupação e entregará relatório

TÂNIA MONTEIRO, Agencia Estado

03 de setembro de 2007 | 13h41

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, desembarcou nesta segunda-feira, 3,  em Porto Príncipe para uma visita de três dias à capital haitiana. Acompanhado do comandante do Exército, general Enzo Peri e da Aeronáutica, Juniti Saito, Jobim visita o Batalhão Haiti, unidade brasileira que abriga 1.200 homens que participam da Força de Paz.Depois da visita, ele  assistirá a uma palestra onde será informado sobre as condições de trabalho hoje das tropas brasileiras no País; almoçará no batalhão, visitará em seguida o quartel dos fuzileiros navais e percorrerá ruas em Cite Soleil, considerado um dos bairros mais perigosos no Haiti, que era dominado por gangues. Jobim vai acompanhar o patrulhamento dos soldados brasileiros e conhecer um trabalho social realizado pela Força de Paz brasileira. O ministro participará de reunião de ministros da Defesa dos países que participam da missão de Paz. Jobim pernoitou em Boa Vista, Roraima, aguardando a evolução do furacão Félix, que ganhou força no Caribe, no último domingo à noite.   Crítica da OAB   Nesta semana, o conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro Aderson Bussinger entregará um relatório  ao Conselho Federal do órgão , criticando a ocupação.  Segundo trecho do documento, a Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil, "é uma força de ocupação, e não humanitária, que está validando os abusos de direitos humanos no país caribenho e contribuindo para um estado de permanente repressão". Bussinger, que esteve no Haiti no fim de junho, recomenda no relatório que o governo brasileiro retire as suas tropas do país. O advogado conta que se reuniu com o comandante da Minustah, general Souza Cruz, para apresentar as denúncias de abusos, mas que o militar teria responsabilizado apenas a polícia haitiana. Durante o encontro, Bussinger perguntou qual o trabalho social que a Minustah estava fazendo e Souza teria dito "que eles tinham tentado cavar alguns poços de água". "A missão não faz nada de humanitário. Não ajuda a construir escolas ou hospitais. É só uma força de intervenção militar", criticou o advogado.   Visita ao Haiti Bussinger esteve no Haiti como representante da OAB federal e integrou uma delegação de sindicatos, pastorais e outras associações da sociedade civil que viajou ao Haiti com o objetivo de observar as condições sociais e de direitos humanos no país. "Ainda estou abalado com o que vi no Haiti", desabafou o advogado à BBC Brasil. Além da miséria que assola a população (80% das pessoas não têm luz, segundo Bussinger), o que sensibilizou o advogado foram as denúncias de violações de direitos humanos que ele recebeu. "As principais reclamações são de abusos da polícia nacional do Haiti. São agressões, desaparecimentos de pessoas, casos que não foram ainda elucidados, muita violência na entrada dos bairros populares, muitas denúncias de espancamentos", afirmou. A Minustah estaria contribuindo para essa situação ao "atuar em conjunto com a polícia", de acordo com o relato do advogado. "A Minustah atua dando retaguarda para a polícia nacional. A polícia entra agredindo, e a Minustah entra depois como suporte. Mas também recebemos denúncias sobre agressões dela."   O representante da OAB conta que testemunhou a polícia agredindo um grupo na rua sob observação dos soldados da ONU. "A Minustah está validando o abuso de direitos humanos no Haiti", observou o advogado. "É comum escutar a frase: a polícia mata, e os blindados da Minustah carregam os corpos." "A minha conclusão é que a missão da ONU não tem nada de humanitária. É uma missão de muita violência e agressão", afirmou o advogado.

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