Jobim ameaçou demitir comandante do Exército se fosse desautorizado por nota

Crise entre ministro e militares começou com lançamento do livro sobre a ditadura ?Direito à Memória e à Verdade?

Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2007 | 00h00

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, ameaçou demitir o comandante do Exército, Enzo Peri, e todos os generais do Alto Comando que se juntassem em um ato de contestação de sua autoridade. A ameaça, explícita, foi feita na sexta-feira da semana passada, em Brasília, e compôs um cenário de crise em que Jobim e o Exército mediram a força política de cada uma das partes, no rastro da solenidade de lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade, no Palácio do Planalto.Na solenidade, Jobim avisou que não admitiria ataque à publicação e, se alguém reagisse, "teria resposta". O livro foi editado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos e dá a versão da comissão especial do Ministério da Justiça para os mortos e desaparecidos do regime militar (1964-1985). O aviso era parte de um jogo político que começara a ser jogado pela manhã daquela quarta-feira, durante reunião do ministro da Defesa com o comandante interino do Exército, general Luiz Edmundo Maia Carvalho - ele substituía Enzo Peri, que estava na Argentina. Horas antes do lançamento do livro, Carvalho, que é chefe do Estado-Maior do Exército, procurou Jobim para dizer que os militares estavam insatisfeitos com a decisão de o governo fazer a solenidade no Planalto, transformando o livro em um documento oficial. O Estado apurou que a conversa começou amena. Jobim chegou a argumentar com o vice do Exército que, se os militares continuassem a reagir contra as contestações de certos grupos da esquerda à Lei da Anistia, isso poderia gerar até uma revisão da legislação. A conversa foi se alongando e ficando tensa porque o general adotou um tom de advertência para a possibilidade de os militares da ativa criticarem o livro. Jobim então lhe disse que não toleraria reações e, se elas ocorressem, responderia à altura. E pediu ao general que acalmasse a tropa.A cerimônia do lançamento do livro, no Planalto, marcada para as 15h30 de 29 de agosto, só começou às 17 horas. Boa parte do atraso se deveu ao tempo gasto na negociação de Jobim com Lula para definir como iria responder de público à pressão que havia recebido pela manhã, no encontro com Carvalho. Jobim pediu autorização a Lula para discursar na solenidade. Informou o que queria dizer e como seria dito. O discurso chamaria para si a atenção dos militares, mas serviria para, ao mesmo tempo, evitar que o problema se alastrasse para o Planalto e outras áreas do governo.O recado do ministro foi dirigido especialmente a Carvalho. Ao fim da solenidade, chegou a ligar para um general gaúcho, seu conhecido, para saber como estava a reação entre os oficiais mais novos. Pediu cooperação para evitar mais problemas. RECADOPara mostrar que não aceitavam o "cala-boca" do ministro, os generais decidiram, dois dias depois, fazer uma nota com algum tipo de manifestação pública. Ao fim da reunião, que começou às 13 horas e só terminou às 17 horas, decidiram, por consenso, que deveriam fazer um texto sem agressividade - só para marcar posição. O encontro dos 15 generais do Alto Comando, convocado por Enzo Peri, que regressara da Argentina, foi pautado por Jobim. Momentos antes do início da reunião, ele mandou um assessor ligar para o Quartel-General do Exército e avisar que não admitiria ofensas e contestação da autoridade. E, se isso ocorresse, demitiria o comandante e quem ficasse do lado dele na contestação. Depois de quatro horas de muita discussão, os militares decidiram, por unanimidade, emitir uma nota amena, mas apresentando a posição da Força sobre a Lei da Anistia. "Os fatos históricos têm diferentes interpretações dependendo da ótica de seus protagonistas", dizia a mensagem do Alto Comando.Diante do recado de Jobim, por volta das 19 horas, o comandante do Exército decidiu submeter-lhe a nota oficial. O ministro considerou o texto "aceitável" e só trocou o tempo de um verbo. Onde estava escrito que a Lei da Anistia "produz a indispensável concórdia", Jobim mandou escrever "produziu". Antes de sua divulgação, o ministro ligou para Lula, leu o texto, e disse que, por ele, estava tudo bem e o episódio estava encerrado. No dia seguinte, Jobim viajou para o Haiti na companhia dos comandantes Enzo e Saito.

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